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Animal como Insulto
Da hierarquia de espécies escondida na linguagem quotidiana
Quero trazer à tona a banalidade de quão entranhada está a hierarquia antropocêntrica na linguagem quotidiana: por que é que, quando queremos diminuir uma pessoa, a insultamos com o nome de um animal?
Claro que o insulto não está no animal, mas na indignidade e inferioridade que projectada sobre ele. Quando insultamos alguém por ser uma “porca”, “vaca”, “baleia”, “burro”, “cobra”, “rata”, “galinha”, “hiena”, “abutre”, construímos uma caricatura humana do animal e depois utilizamos essa caricatura para insultar outros humanos. Por um lado, rebaixamos o animal como condição de inferioridade por não ser-humano e, com isto, rebaixamos a pessoa.
Na verdade, é a banal e quotidiana gramática do antropocentrismo: o humano aparece como medida implícita da dignidade e o animal como corpo disponível para tudo o que consideramos excessivo, feio, estúpido, sujo, sexualmente impróprio ou moralmente suspeito, ou simplesmente não evoluído.
O que tornou normal esta separabilidade e hierarquia normal?
Que relação com os outros animais teve de se tornar normal para que o seu próprio nome pudesse funcionar como degradação?
Um bestiário insultuoso
“És uma vaca.” — A vaca torna-se estupidez ou gordura, ignorando a sua sociabilidade, memória e cuidado maternal.
“És uma porca” — A porca torna-se sujidade, apesar de ser um animal altamente inteligente e social.
“És uma baleia” — A baleia torna-se apenas tamanho, apagando comunicação, migração, cuidado intergeracional e culturas sociais complexas.
“És burro” — O burro torna-se estupidez e teimosia, quando precisamente a sua cautela e resistência em avançar perante perigo podem ser estratégias extremamente sensatas
“És uma cobra” — A cobra torna-se traição, apesar de ser um ser crucial em inúmeras ecologias e uma das grandes figuras simbólicas humanas de transformação, regeneração e conhecimento.
Curiosamente, nunca insultamos alguém chamando-lhe “humano”. É como se humanidade fosse uma categoria da qual se pode cair, e animalidade o andar de baixo para onde atiramos quem queremos inferiorizar ou infernizar.
Claro, não esquecendo da camada patriarcal que faz com que muitos dos insultos animais são também dispositivos de género. “Vaca”, “porca”, “cadela”, “galinha” ou “baleia” são utilizados como ataques que policiam o corpo, a sexualidade, o desejo, a inteligência, a idade e o tamanho das mulheres. A hierarquia de espécie cruza-se com a hierarquia patriarcal humana. O animal torna-se uma gramática através da qual relações de poder são exercidas.
São palavras tão habituais que quase deixámos de ouvir o que dizem. Mas que raio fizeram estes animais para merecer isto? Quero trazer a perspetiva dos animais como outros seres, com modos próprios de existir, e não como alegorias da nossa moral.
Deixo um pequeno bestiário contra-antropocêntrico:
Que possamos brincar com a possibilidade de recuperar os nomes como parentescos, admirações ou qualidades, e não apenas insultos, abusos ou provocações.
És uma baleia — guardas caminhos imensos, atravessas oceanos, comunicas para lá do nosso alcance.
És uma porca — curiosa, inteligente, sociável, atenta ao mundo pelo focinho.
És uma vaca — ruminas com tempo, reconheces companheiras, cuidas e permaneces.
És uma burra — não avançarás só porque alguém te empurra; avalias o chão antes de dar o passo.
És uma cobra — mudas de pele, conheces o chão com o corpo inteiro.
És uma loba — cooperas, ensinas, brincas, dependes da matilha sem deixares de ser singular.
És uma corva — recordas rostos, resolves problemas, aprendes com outras.
És uma elefanta — transportas memória, reconheces os mortos, proteges crias que não são apenas tuas.
És uma abelha — a tua vida não cabe na ficção do indivíduo, és relação, alimento e comunidade.
És uma aranha — sabes que nenhuma coisa existe sozinha, fazes mundo tecendo relações.
És uma minhoca — transformas morte em fertilidade sem pedir aplauso.
És uma hiena — complexa, social, poderosa… talvez apenas difamada por quem nunca te conheceu.
És um rato — adaptável, inteligente, cuidadora, extraordinariamente capaz de sobreviver às ruínas que os humanos produzem.
És uma lesma — recusas a velocidade como medida do valor.
És uma toupeira — conheces mundos que não dependem da luz.
És mesmo polvo — pensas com o corpo inteiro e desafias a nossa própria definição de inteligência.
Afinal, somos animais! O problema foi termos transformado “animal” numa queda de estatuto.
Referências
Ahenakew, Cash, Sharon Stein, Vanessa Andreotti, Ninawa Inu Huni Kui, Lisa Taylor, Stacey Prince, Jaya Ramesh, Chelsea Williams, Rene Suša, Rose Vukovic, and Claudia Diaz-Diaz. 2025. “Decolonizing Mental Health in the Polycrisis: Pathways Toward Neuro-Decolonization.” American Psychologist 80 (8): 1297–1312. https://doi.org/10.1037/amp0001540.
Asenbaum, Hans. 2026. “Theorizing With Nonhumans.” In The Oxford Handbook of Grounded and Engaged Normative Theory, edited by Brooke A. Ackerly, Luis Cabrera, Monique Deveaux, Fonna Forman, Genevieve Fuji Johnson, Gina Starblanket, and Antje Wiener, 173–185. Oxford: Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/9780197766927.003.0019.
Narvaez, Darcia. 2021. “Principles of an Indigenous Way of Being.” Psychology Today, May 9, 2021. https://www.psychologytoday.com/intl/blog/moral-landscapes/202105/principles-indigenous-way-being.
Wahinkpe Topa (Four Arrows), and Darcia Narvaez. 2022. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books.

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