TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

O Conto da Memória Negra do Chão

{do livro A Agulha de Osso — Tecelagem das Virgens Negras; Edições Corpo-Lugar}

Contam os velhos que a Península nunca falou uma só língua. Falou muitas ao mesmo tempo, como rio de muitas ribeiras. E nessas falas todas, ditas em montes, vales, serras e fronteiras, apareciam mulheres escuras, achadas em penhas, fontes e raízes.

Chamaram-lhes Virgens, mas eram mais antigas do que o nome. A sua cor vinha da terra revolvida, do barro fértil, do húmus que dá sustento sem pedir licença.

Diziam que eram impuras, mas o povo sabia: era ali que morava a justiça funda. Enquanto os senhores pediam obediência branca, elas davam abrigo ao que não cabia, às línguas misturadas, corpos mestiços e memórias em trânsito.

Assim ficaram, atravessadas pelo tempo. Tentaram clareá-las, explicá-las com fumo e esquecimento, mas continuaram negras no sentir e no chamar. Quando vieram leis de sangue limpo e nomes infectos, elas guardaram o que não podia ser dito. Debaixo do manto, esconderam deuses, rezas, cantos e ritos antigos.

As avós dizem que por isso pesam tanto, carregam a terra inteira por dentro. Não são só santas, mas corpos-constelação de memórias. E enquanto houver quem as chame pelo nome escuro, a Península há de lembrar que nunca foi pura, nunca foi uma só e que da mistura nasce o que resiste.

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A Agulha de Osso — Tecelagem das Virgens Negras

O preço original era: 15,00 €.O preço atual é: 11,00 €.

Edição Limitada

Autografado pela autora

Edições Corpo-Lugar
ISBN: 9798903360956

Este livro não é um tratado de fé nem uma negação do sagrado. É uma escuta situada entre urtigas. A partir do território ibérico e europeu, convoca as Virgens Negras, Mouras e figuras escuras da paisagem como vestígios vivos de eco-mitos silenciados — presenças anteriores às doutrinas, sobreviventes às catequeses, portadoras de uma memória que insiste no corpo, na terra e no rito.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológica, totémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

Outros Contos

Outros Contos

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.