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Um lugar não é só terra nem água

 

Era uma vez, dizem os velhos à lareira, um lugar que não era só terra nem só água. Era beira. Era ponta. Era o sítio onde o chão acaba e o sal começa a falar. Ali, no fim da Europa, o mar batia como quem pergunta e volta, pergunta e volta, e a terra respondia com silêncio antigo. Chamavam-lhe Portugal, mas o nome era bem recente; antes disso era apenas um Lugar, um corpo estendido ao vento, de veias de água e coluna de pedra, costas curvadas de tanto esperar. Quem ali nascia aprendia cedo que toda a chegada é também partida, e que o tempo anda em roda, como as marés.

Contam os velhos que o Lugar guardava saudade como quem guarda sal em saco de pano, para conservar e para arder. Saudade do que foi levado em barcos, do que foi arrancado à força, do que ficou por chorar. Dizem que ali se juntaram lutos que nunca tiveram vigília, promessas ditas alto e cumpridas baixo, e um sonho perverso para caber no corpo, como se fosse missão, império, mas era apenas universalismo sem espelho. O mar ouviu tudo. O mar sabe. Por isso, quando o vento sopra de norte, traz memórias… quando sopra sul, traz futuro que ainda não se sabe aconchegar.

Havia também mulheres antigas, muitas e sem nome, que viviam na dobra da falésia e no fundo das fontes. Eram deusas antes de serem santas, serpentes antes de serem reflexo. Ophiussa enrolava-se nas pedras quentes e as Virgens Negras sentavam-se no escuro fértil, mas depois vieram nomes novos para reprimir o que não se deixava domar. “Catalogar é prender”, murmurava o vento. “Nomear é amarrar”, respondiam as ondas. E ainda assim, elas, as serpentes e as mulheres ficaram, mudaram de rosto, não a raiz.

Havia sabedorias que corriam de boca em boca.

Primeiro, quem quisesse partir tinha antes de aprender a escutar, porque o mar só abre caminho a quem sabe esperar.

Segundo, quem quisesse ficar tinha de aprender a mudar, como a serpente que muda de pele, como a rocha lambida pelo vento e pelo mar.

Terceiro, quem quisesse nomear tinha de lembrar que o corpo é lugar, e ninguém caminha só, cada passo é dado com rios, com mortos, com futuros por nascer.

Dizem as velhas que o Lugar aprendeu a resistir. Às vezes endureceu demais, confundindo cuidado com medo e outras vezes abriu-se tanto que esqueceu as próprias feridas. Entre tradição e vanguarda, esquerda e direita, norte e sul, o Lugar tremeu. Mas o mar ensinou-lhe uma coisa mansa, que há fluxo, mas não há pureza. Há mistura, remoinhos e ondas em voragem. Há correntes que se cruzam. Há tempestades que remexem. Há mãos que cuidam melhor quando não apontam.

E assim ficou o Lugar, o da ponta, a fazer de ponte. Quem por aqui passa arrepia-se, é tanto bom como mau. É o passado a pedir luto e o futuro a pedir corpo. O vento volta a contar a história, o mar volta a perguntar e a terra volta a responder. E quando a lareira se apaga, a história não acaba, sempre recomeça, como as marés. Porque o Lugar não se cumpre: escuta-se. E escutando, muda.

{conto orignalmente escrito para a sessão pedagógica Kutsaka}

A intenção pedagógica deste conto é deslocar o imaginário sobre Portugal para fora das narrativas coloniais e imperiais, do excepcionalismo heróico e da fantasia de um destino universal — incluindo as suas persistências na ideia do “Quinto Império”. Em vez de substituir uma narrativa de grandeza por outra, o conto procura abrir espaço para imaginar este território a partir de temporalidades mais antigas, ecológicas e relacionais: como corpo atravessado por águas, pedras, ventos, seres, mortos e futuros, e não como centro soberano de uma história humana. Através do mito, da memória e da paisagem, convida-se quem lê a permanecer também junto das feridas, contradições e lutos que as narrativas nacionais tendem a encobrir, interrogando o que herdámos e o que continuamos a reproduzir. Não se trata, portanto, de encontrar uma identidade portuguesa mais “pura” ou verdadeira, mas de desaprender a necessidade de pureza, centralidade e destino, cultivando uma relação mais humilde, situada e responsável com o lugar e com as muitas vidas e histórias que o constituem.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológicatotémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

Outros Contos

Outros Contos

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.