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Da regulação emocional à reparação moral

Angústia e trauma moral.

Caramba! No meio da minha persistente falta de palavras por tudo o que está a acontecer a uma velocidade e violência vertiginosas, encontrei recentemente um artigo fundamental: “Do moral evaluations of climate change threaten mental health?” De Susan Clayton e Elizabeth Marks.

Este estudo pode implicar uma mudança funda na compreensão das emoções ecológicas—para mim, houve muitas peças que se encaixaram. Os conceitos de angústia e trauma moral não acrescentam apenas mais uma emoção ao vocabulário da ecopsicologia, mas alteram parte do que entendemos ser o próprio “problema” que chega à relação terapêutica.

Eco-ansiedade e luto ecológico já permitem sair da leitura psicopatológica centrada no indivíduo—posso estar ansiosa porque existe perigo e posso estar de luto porque algo amado está realmente a desaparecer. Mas a angústia moral acrescenta que podemos estar em sofrimento porque assistimos, participamos ou somos obrigadas a participar numa ordem relacional que reconhecemos como profundamente errada. Clayton e Marks sublinham precisamente esta dimensão de injustiça, traição, desigualdade de poder e cumplicidade—uma pessoa pode experimentar-se simultaneamente como testemunha e participante num sistema causador de dano.

AAAAAAAAAHHHHH, faltava-me mesmo esta peça do puzzle!

Do “o que sentes?” para “o que foi violado?”

A primeira grande deslocação é que, na eco-ansiedade, a pergunta pode ser formulada pela ameaça que se sente. Já no luto ecológico, olhamos bravamente para o que perdemos ou para o que já desapareceu. Mas na angústia moral, tocamos na ferida sistémica ao questionar que relação, obrigação, valor ou compromisso fundamental está a ser violadoé claro que isto diz profundamente respeito não só ao ecocídio, mas também ao genocídio e às múltiplas camadas e violentas de opressão e desapropriação ao longo da história. E, bem, isto abre-nos a uma panóplia de perguntas inevitavelmente políticas:

  • Quem causa o dano?

  • Quem tem capacidade para o interromper?

  • Quem suporta as consequências?

  • Quem beneficia?

  • Quem não consegue deixar de participar?

  • Que responsabilidade é realmente minha e qual me está a ser indevidamente transferida?

Clayton e Marks recusam uma psicologia que atribua toda a responsabilidade ao indivíduo. Mostram que o sofrimento pode emergir precisamente da discrepância entre responsabilidade e poder, enjaulando a possibilidade de açãoalguém pode querer agir eticamente e estar preso a infraestruturas, instituições e normas que tornam a ação quase impossível. O contexto deixa de ser apenas “contexto” da emoção e entra no território vivo.

Da regulação emocional à reparação moral

A pergunta deixa de ser “como podemos continuar psicologicamente bem num mundo em colapso?” e torna-se “como podemos permanecer eticamente relacionais num mundo que continuamente nos convida, obriga ou recompensa por participar na ruptura das relações que sustentam a vida?”

Interessam-me mudanças que fecundem a práxis, na forma como teorizamos e praticamos. Então, se conceptualizamos a dificuldade como ansiedade, podemos tender a pensar em ansiedade → regulação → capacidade de funcionamento.

Se, por outro lado, a compreendemos como ferida moral, o arco torna-se diferente: violação 🕸️ testemunho 🕸️ discernimento 🕸️ responsabilidade 🕸️ reparação 🕸️ agência e participação relacional (sempre imperfeita e nunca final)

Mas é essencial perguntar: e quando não há reparação possível? E quando não sabemos distinguir completamente a responsabilidade da cumplicidade? Quando responder a uma relação implica abandonar outra? Quando qualquer ação disponível continua a alimentar aquilo a que tentamos resistir?

Utilizei a teia de aranha (🕸️), pois não se trata de um processo linear ou unidirecional, mas sim de um campo de tensões, em que testemunho, impotência, recusa, cumplicidade, reparação, luto e ação regressam repetidamente como ondas na praia, sem necessariamente culminarem em “agência”. Porque não há uma saída limpa da modernidade ao estarmos simultaneamente dentro dela, sustentados por ela e feridos pelas suas estruturas.

Por outro lado, Clayton e Marks utilizam explicitamente a ideia de reparação moral. Argumentam que precisamos de restaurar alguma confiança na capacidade própria e colectiva de agir moralmente, sem cair na fantasia de que cada indivíduo é responsável por resolver a crise climática (ou todas as outras crises coadjuvantes). O desafio é precisamente fortalecer a agência sem inflacionar a responsabilidade individual, sem centralizar o indivíduo.

Podemos continuar zangadas, profundamente tristes ou a sentir a situação como intolerável. E, no entanto, podemos estar mais inteiras. Porque a bússola de transformação deixa de ser a ausência de sofrimento, mas uma relação menos fragmentada entre o que reconheço, o que valorizo e ao que consigo responder (por mais pequeno que aparente ser).

A raiva deixa de ser apenas uma emoção difícil

E ainda bem, porque tenho muita raiva, talvez seja por isso que me identifiquei tanto com esta ideia de angústia e trauma moral. Clayton e Marks separam emoções morais como culpa, vergonha, raiva e indignação. Quando a violação é atribuída ao próprio, surgem frequentemente culpa e vergonha, mas quando é atribuída a autoridades, instituições ou sistemas, predominam raiva, traição e perda de confiança. Isto faz-me lembrar o que já foi salientado pelos ativistas do Sul global: que a emoção predominante no Norte global é a ansiedade, mas no Sul global é a raiva.

A minha proposta é que deixemos de perguntar como podemos regular a raiva numa práxis ecopsicológica. Mas o que esta raiva sabe sobre o mundo? Atenção que isto não significa sacralizar toda a raiva nem transformá-la em verdade. Mas permite não silenciar imediatamente a sua inteligência ética… e bem o mesmo acontece com a culpa e o luto. Deixamos de aliviar a culpa e de perceber se ela corresponde à minha responsabilidade real ou se carregamos individualmente uma responsabilidade produzida estruturalmente.

Cartografar o poder

A investigação de Clayton e Marks é muito clara ao situar o sofrimento moral em relações de poder, injustiça, posição social e interdependência. As autoras referem também que o sofrimento pode resultar da percepção de falha no cuidado e da negação da interdependência.

Uma práxis ecopsicológica orientada pela angústia e trauma moral precisa de se abrir a perguntar não apenas “onde está o indivíduo?”, mas onde está esta pessoa no metabolismo material da crise. Porque não são psicológica nem eticamente equivalentes:

  • uma jovem que teme o futuro;

  • alguém desalojado por um incêndio;

  • um cientista climático obrigado a assistir décadas de inação;

  • alguém que trabalha numa indústria extractiva porque não tem alternativa económica;

  • um executivo que decide expandir extração fóssil;

  • uma comunidade que perdeu território;

  • alguém do Norte Global que reconhece simultaneamente privilégio, dependência estrutural e reduzida capacidade individual de alterar o sistema.

Colocá-los na mesma categoria de “eco-ansiedade” pode apagar precisamente aquilo que gera grande parte do sofrimento. BAM! Mas não nos podemos esquecer das nossas próprias e inevitáveis implicações: Onde sou coagida? Onde beneficio? Onde resisto? Onde desejo o que digo rejeitar? Que perdas concretas implicaria viver mais perto daquilo que afirmo valorizar? Quem pagaria o preço dessa mudança?

E a perturbadora “esperança obscena” ?

Vou voltar ao texto que já referi noutros artigos, o de Thornton, Stratford e Louverdis. Os autores falam de educação, não de psicoterapia, pelo que a transposição deve ser assumida como uma inferência pessoal. Eles argumentam que a esperança se torna obscena quando funciona como promessa de mudança sem passagem material para a mudança: pede paciência, resiliência e espera, enquanto as estruturas produtoras do dano permanecem intactas. Em certos contextos, torna-se um “aguenta, acredita, um dia será diferente”.

Cuidadosa e desconfortavelmente abrimos como, na ecopsicologia, o terapeuta pode tornar-se, involuntariamente, outro agente da traição moral. Por exemplo:

Cliente: “Os governos sabem e continuam.”

Ecopsicólogo: “Mas precisamos de manter esperança.”

Cliente: “Não quero adaptar-me a isto.”

Ecopsicólogo: “Precisamos de construir resiliência.”

Cliente: “Isto é intolerável.”

Ecopsicólogo: “Vamos trabalhar estratégias para que isto não te afecte tanto.”

Uma intervenção aparentemente cuidadora pode converter uma dor e denúncia ética num problema de regulação emocional. Este posicionamento terapêutico arrisca-se a reproduzir a própria estrutura que causa a ferida: alguém vê uma violência e outra autoridade pede-lhe que se adapte melhor a ela.

Afinal, o Krishnamurti já andava a dizer mesmo há muito tempo.

Thornton e colegas são deliberadamente provocadores ao propor abandonar o binário entre esperança e desespero. Em vez de garantir um idealizado futuro bom, propõem solidariedade, pensamento ecológico e um pragmatismo de “fazer o que podemos” sem garantias.

Para mim, esta postura é muito fecunda para a ecopsicologia: não precisamos de esperança para justificar cuidado. Num mundo cada vez mais violento e polarizado é radical centrar o cuidar.

Cuidar de uma floresta sem saber se sobreviverá.

Proteger uma criança sem lhe garantir um mundo seguro.

Combater uma injustiça sem precisar acreditar que vencerei.

Reparar uma relação precisamente porque não sei o que acontecerá.

A ação deixa, então, de ser uma estratégia para produzir esperança e torna-se uma expressão madura de relação e responsabilidade. E isto interessa-me profundamente, por ser plantio fecundo fora do redutor binário esperança/desespero.

Mudar a postura

Isto talvez possa resumir:

  • Na Eco-ansiedade, a pergunta tende a ser: Como viver com a ameaça? E o horizonte terapêutico é a regulação/capacidade.

  • No Luto ecológico, a pergunta tende a ser: Como viver com a perda? E o horizonte terapêutico é a elaboração/testemunho.

  • Na Angústia moral, a pergunta tende a ser: Como viver quando aquilo que acontece viola profundamente o que considero justo? E o horizonte terapêutico é a integridade, a agência e a reparação.

  • No Trauma moral, a pergunta tende a ser: Como reconstruir confiança e relação depois de uma violação moral profunda? E o horizonte terapêutico é a reparação moral/relacional.

Naturalmente que não são fases nem categorias exclusivas, ao poderem coexistir na mesma pessoa ao mesmo tempo. Mas acrescentar a angústia e o trauma moral impede-nos de tratar estas experiências como simplesmente “emoções ecológicas”. Algumas são também avaliações éticas do mundo.

A práxis torna-se mais colectiva

Clayton e Marks trazem o envolvimento com comunidades que partilham valores, o que pode reduzir o sofrimento moral, aumentar a pertença e fortalecer a percepção de agência colectiva. As autoras sugerem que a reconstrução da confiança em si e nos outros, enquanto actores morais, pode fazer parte da reparação.

Nada disto é linear, como “Estás ansioso? Torna-te activista.” Esta conversão pode ser apenas outra instrumentalização do sofrimento. Mas isso significa que algumas feridas não podem ser reparadas exclusivamente intrapsiquicamente, porque nunca foram exclusivamente intrapsíquicas, mas profundamente contextuais e sistémicas. Precisam de:

  • testemunho colectivo;

  • nomeação pública do dano;

  • Solidariedade;

  • rituais de luto;

  • reparação material;

  • restauração de relações;

  • participação política;

  • acção comunitária;

  • reciprocidade com território;

  • Resistência;

  • recusa.

A floresta deixa de ser o sítio onde vou regular o sistema nervoso e torna-se a relação cuja violação estou a aprender a testemunhar e à qual estou a reaprender a responder. E esta diferença é gigantesca.

O não-humano passa de recurso terapêutico a comunidade moral

Há ainda uma consequência ecopsicológica que o artigo abre, embora não a desenvolva em profundidade. Clayton e Marks levantam a hipótese de que pessoas que atribuem maior estatuto moral à natureza possam experimentar mais angústia moral climática.

Fascina-me que expandir o Self ecológico pode não produzir apenas bem-estar, pois pode produzir mais responsabilidade, mais dor e maior exposição à violação moral.

Quanto mais uma floresta deixa de ser “ambiente” e se torna parente, lugar, comunidade ou sujeito, mais a sua destruição pode ser experienciada não apenas como perda ambiental, mas como traição, violência, falha de cuidado e quebra de reciprocidade.

A ecopsicologia com que trabalho nunca promete: “Reconecta-te à Natureza e sentir-te-ás melhor.” Porque pode acontecer exactamente o contrário. Reconectar-nos a lugares feridos pode doer mais, mas também pode tornar-nos menos dissociadas.

Práxis para “acompanhar respostas”

Deixo uma sugestão de práxis em cinco movimentos, não necessariamente sequenciais, nem finais 🕸️:

  1. Testemunhar — O que aconteceu? O que está a acontecer? Sem converter imediatamente a experiência em sintoma.
  2. Nomear a violação — O que aqui é vivido como injustiça, traição, degradação, abandono, cumplicidade ou quebra de reciprocidade?
  3. Cartografar responsabilidade e poder — O que depende de mim? O que não depende? Onde participo? Onde sou coagida? Quem possui muito mais agência?
  4. Restaurar capacidade de resposta — Não “salvar o mundo”, mas descobrir formas proporcionais de responder sem negar os limites reais do contexto, colectivo e pessoa.
  5. Reparar a relação — Com pessoas, comunidade, território, não-humano, valores, instituições quando possível. Sabendo que algumas reparações exigem transformação material e política, não apenas processamento psicológico. E outras são impossíveis de reparar.

A eco-ansiedade deixa de ser medo, o luto deixa de ser perda e a ferida moral revela uma terceira dimensão. A dor de saber que alguma coisa não devia estar a acontecer — e de estarmos, de alguma forma desigual e contraditória, dentro do mundo que a faz acontecer.

Aqui, a “esperança” deixa de ser a resposta mais rica (ou o único horizonte reconhecido como válido), pois o contraponto ao desespero pode nem ser a esperança. Mas ser integridade (sempre imperfeita), solidariedade, reciprocidade e capacidade de resposta sem garantia de resultado.

E isto, para mim, altera bastante a práxis da ecopsicologia. Passando de uma prática que nos ajuda a suportar a crise, para uma prática que nos ajuda a permanecer em relação com o que a crise exige moralmente de nós — sem transformar essa exigência em culpa individual impossível, nem anestesiá-la com esperança obrigatória.

Na verdade, O Dia a Seguir da Tempestade é sobre cuidar sem garantias:

Referências do Artigo

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