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Trabalhar com as Emoções como Sucessão Ecológica

Uma Prática em Cinco Momentos Vivos para guardar a Clareira

Durante muito tempo aprendemos a olhar para as emoções como acontecimentos internos que precisam de ser regulados, geridos ou resolvidos. Quando surge a tristeza, queremos ultrapassá-la. Quando o medo aparece, procuramos acalmá-lo. Quando sentimos raiva, tentamos controlá-la. A pergunta implícita parece ser sempre a mesma: como volto rapidamente ao equilíbrio?

Mas a ecologia oferece-nos uma perspectiva diferente.

Num ecossistema saudável, o objectivo não é permanecer sempre estável. A vida organiza-se através de ciclos contínuos de crescimento, perturbação, decomposição, regeneração e transformação. Uma floresta madura não existe porque evita a mudança. Existe porque aprendeu a atravessá-la.

Talvez possamos olhar para as emoções da mesma forma.

Em vez de perguntar “como me livro desta emoção?”, podemos perguntar: “que processo esta emoção está a tentar servir?” Ou ainda: “o que deixaria de acontecer se esta emoção desaparecesse demasiado cedo?”

Esta mudança de perspectiva convida-nos a deixar de ver as emoções densas e difíceis como obstáculos e a começar a reconhecê-las como participantes necessários na ecologia da vida.

A ecologia invisível das emoções

Quando uma árvore cai numa floresta, não acontece uma recuperação imediata. Há um período de decomposição. Fungos, insectos e bactérias iniciam um trabalho silencioso. A matéria antiga regressa ao solo. Abre-se uma clareira. A luz alcança lugares que antes estavam à sombra. Novas espécies encontram espaço para emergir.

A sucessão ecológica ensina-nos que aquilo que parece fim é frequentemente uma fase intermédia de reorganização e o mesmo pode acontecer na nossa vida emocional.

Uma perda, uma ruptura, uma desilusão ou uma mudança profunda podem criar uma espécie de clareira interior. Algo deixou de existir, mas aquilo que virá ainda não tomou forma. É um território de incerteza, vulnerabilidade e espera.

A cultura contemporânea tende a interpretar estes momentos como problemas a resolver rapidamente. No entanto, a fertilidade futura depende, muitas vezes, da nossa capacidade de permanecer durante algum tempo nessa clareira.

Porque nem toda a tristeza precisa de ser curada e nem toda a confusão precisa de ser esclarecida imediatamente. Nem todo o luto precisa de ser ultrapassado. Tal como a floresta necessita de tempo para reorganizar as suas relações, também a paisagem emocional necessita de tempo para metabolizar aquilo que mudou.

Emoções como espécies de um ecossistema

Outra consequência desta perspectiva é abandonar a ideia de emoções isoladas. Tal como numa floresta saudável, não é composta apenas pelas espécies que consideramos mais bonitas ou úteis, pois a sua vitalidade depende da diversidade das relações que a constituem.

Talvez o mesmo aconteça connosco, na esperança que não substitui a tristeza; na gratidão que não elimina a raiva. Ou mesmo na alegria, que não torna o medo desnecessário. Pois cada emoção desempenha uma função específica no ecossistema emocional.

A tristeza ajuda-nos a honrar o que foi perdido, enquanto o medo nos alerta para o que precisa de atenção. A raiva revela fronteiras violadas ou necessidades ignoradas. E a saudade mantém vivas ligações importantes. Ao mesmo tempo que a ternura protege aquilo que reconhecemos como precioso e a esperança abre possibilidades quando tudo parece fechado.

O problema raramente é a existência destas emoções. O problema surge quando tentamos construir monoculturas emocionais, aceitando apenas algumas e rejeitando todas as outras.

Tal como uma floresta dominada por uma única espécie se torna mais vulnerável, também uma vida emocional reduzida ao optimismo, à produtividade ou ao bem-estar permanente perde capacidade de adaptação.

A maturidade emocional talvez não seja sentir apenas emoções agradáveis. Mas desenvolver a capacidade de acolher uma maior diversidade emocional sem interromper os seus ciclos naturais.

O húmus da experiência

Na natureza, nada se perde verdadeiramente. As folhas que caem tornam-se solo. Os troncos que apodrecem tornam-se fertilidade. O que desaparece continua presente sob outra forma.

Existe uma sabedoria semelhante no luto.

Quando uma perda é vivida e testemunhada, ela não desaparece. Transforma-se. A experiência integra-se na nossa história, a relação altera-se de forma. A dor converte-se lentamente em profundidade, sensibilidade e capacidade de relação.

Pensemos no luto como o húmus da vida emocional e não como fim do processo. Mas como o que permite que algo novo encontre condições para nascer. Para que isso aconteça, a decomposição não pode ser interrompida demasiado cedo.

Pois é preciso permitir que algumas perguntas permaneçam sem resposta e aceitar que certas transformações aconteçam abaixo da superfície. Precisamos de confiar que a vida continua a trabalhar mesmo quando ainda não conseguimos ver os seus frutos.

Da gestão emocional à participação ecológica

Talvez uma das maiores mudanças desta perspectiva seja compreender que as emoções não são apenas acontecimentos privados.

As nossas emoções emergem sempre em relação: com outras pessoas, com as comunidades a que pertencemos, com os lugares que habitamos e com o mundo vivo do qual fazemos parte. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja: “O que está errado comigo?” Mas: “O que está esta emoção a tornar visível?” “O que precisa de atenção?” “Que transformação está a tentar acontecer?”

Quando deixamos de lutar contra as emoções e começamos a escutá-las como processos ecológicos, algo muda.

Passamos de gestores das emoções para guardiões dos seus ciclos. Deixamos a tentativa de controlar para a prática de acompanhar. Atravessamos da urgência de resolver para a capacidade de permanecer.

E é isto que a sucessão ecológica nos ensina… que nem sempre o nosso papel é acelerar o nascimento da nova floresta. Por vezes, o mais importante é simplesmente guardar a clareira e confiar no trabalho invisível que acontece no solo.

Recordando que a vida não floresce apesar da decomposição, mas através dela.

 

Prática em 5 momentos vivos

Pensemos na eco-ansiedade como um processo sucessional inteiro, não como uma emoção isolada. Por exemplo:

Fase 1 — A perturbação

Numa floresta pode haver:
  • incêndios

  • seca prolongada

  • tempestade

  • infestação

  • Árvores cortadas

O sistema vivo deixa de conseguir manter a configuração anterior. Em termos emocionais, pode ser o momento em que alguém toma consciência da policrise.

Lê um relatório.
Vê uma notícia.
Tem um filho.
Percebe a dimensão da extinção.
Reconhece que não existe um plano secreto que vai resolver tudo.

Algo rompe e a floresta antiga deixa de parecer estável. Frequentemente surge a eco-ansiedade, não como patologia, mas como sinal de perturbação.


Fase 2 — A clareira

Depois da perturbação, a floresta não se recompõe imediatamente. Há vazio, exposição, luz em excesso, cinzas, solo despido, ruínas e desorientação. Emocionalmente isto pode parecer:
  • medo

  • confusão

  • insónia

  • procura obsessiva de informação

  • sensação de impotência

  • perda de sentido

A cultura moderna tende a interpretar esta fase como um problema. Mas ecologicamente ela é inevitável, pois a clareira não é uma falha. É uma fase.


Fase 3 — Os decompositores chegam primeiro

Antes das grandes árvores regressarem, aparecem fungos, bactérias, insectos e processos de decomposição. A matéria antiga começa a desfazer-se num trabalho invisível e silencioso. Isto é fascinante por corresponder ao momento em que certas certezas começam a morrer:
  • a crença no progresso infinito

  • a fantasia de controlo

  • a separação humano/natureza

  • a ideia de que tecnologia resolverá tudo

  • a expectativa de segurança permanente

Aqui muitas pessoas sentem tristeza profunda, luto, raiva, desencanto.

Mas e se estas emoções são os fungos? Não estão a destruir-nos, mas a decompor estruturas que já não conseguem sustentar a realidade.


Fase 4 — As espécies pioneiras

Depois aparecem plantas pioneiras. Não são a floresta madura. Mas as primeiras capazes de viver naquele terreno transformado. Emocionalmente, talvez surja:
  • curiosidade

  • procura de comunidade

  • activismo

  • arte

  • espiritualidade

  • cuidado do lugar

  • aprendizagem

Não são soluções, mas tentativas, experiências. Pequenos rebentos. Muitas vezes tão frágeis como resilientes.


Fase 5 — Diversificação

Com o tempo, a paisagem torna-se mais complexa, com mais espécies e relações, com mais camadas e maior resistência. A eco-ansiedade pode continuar presente, mas já não ocupa todo o campo. Pois agora coexistem:
  • tristeza

  • amor

  • responsabilidade

  • prazer

  • medo

  • esperança

  • pertença

A paisagem emocional torna-se mais diversa. Mais semelhante a uma floresta madura do que a uma monocultura emocional.


O erro moderno

A cultura moderna frequentemente tenta saltar da Fase 1 para a Fase 5.

Algo como:

“Estou ansioso com o clima. O que faço para voltar a sentir esperança?”

Mas ecologicamente seria equivalente a dizer:

“A floresta ardeu ontem. Como volto a ter um bosque centenário amanhã?”

Mas a sucessão não funciona assim, pois há fases intermédias, decomposição, incerteza, solo exposto e espécies pioneiras.

Talvez a eco-ansiedade não seja algo a eliminar. Talvez, seja a primeira espécie que aparece quando uma cosmologia antiga começa a colapsar. A pergunta deixa então de ser:

Como me livro da eco-ansiedade?

E passa a ser:

Que sucessão ecológica esta eco-ansiedade está a iniciar em mim, na minha comunidade e na minha cultura?

Porque, vista assim, a eco-ansiedade não é o fim do processo. É apenas a primeira planta a nascer na clareira.

 

Referências

  • Finding Refuge (Michelle Cassandra Johnson)
  • Climate, Psychology, and Change Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety (Ed: Steffi Bednarek)

  • Mourning Nature Hope at the Heart of Ecological Loss and Grief (Ashlee Cunsolo, Karen Landman)

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{Ecopsicologia}

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.