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Trabalhar com as Emoções como Sucessão Ecológica
Uma Prática em Cinco Momentos Vivos para guardar a Clareira
Durante muito tempo aprendemos a olhar para as emoções como acontecimentos internos que precisam de ser regulados, geridos ou resolvidos. Quando surge a tristeza, queremos ultrapassá-la. Quando o medo aparece, procuramos acalmá-lo. Quando sentimos raiva, tentamos controlá-la. A pergunta implícita parece ser sempre a mesma: como volto rapidamente ao equilíbrio?
Mas a ecologia oferece-nos uma perspectiva diferente.
Talvez possamos olhar para as emoções da mesma forma.
Em vez de perguntar “como me livro desta emoção?”, podemos perguntar: “que processo esta emoção está a tentar servir?” Ou ainda: “o que deixaria de acontecer se esta emoção desaparecesse demasiado cedo?”
Esta mudança de perspectiva convida-nos a deixar de ver as emoções densas e difíceis como obstáculos e a começar a reconhecê-las como participantes necessários na ecologia da vida.
A ecologia invisível das emoções
A sucessão ecológica ensina-nos que aquilo que parece fim é frequentemente uma fase intermédia de reorganização e o mesmo pode acontecer na nossa vida emocional.
Uma perda, uma ruptura, uma desilusão ou uma mudança profunda podem criar uma espécie de clareira interior. Algo deixou de existir, mas aquilo que virá ainda não tomou forma. É um território de incerteza, vulnerabilidade e espera.
A cultura contemporânea tende a interpretar estes momentos como problemas a resolver rapidamente. No entanto, a fertilidade futura depende, muitas vezes, da nossa capacidade de permanecer durante algum tempo nessa clareira.
Porque nem toda a tristeza precisa de ser curada e nem toda a confusão precisa de ser esclarecida imediatamente. Nem todo o luto precisa de ser ultrapassado. Tal como a floresta necessita de tempo para reorganizar as suas relações, também a paisagem emocional necessita de tempo para metabolizar aquilo que mudou.
Emoções como espécies de um ecossistema
Talvez o mesmo aconteça connosco, na esperança que não substitui a tristeza; na gratidão que não elimina a raiva. Ou mesmo na alegria, que não torna o medo desnecessário. Pois cada emoção desempenha uma função específica no ecossistema emocional.
A tristeza ajuda-nos a honrar o que foi perdido, enquanto o medo nos alerta para o que precisa de atenção. A raiva revela fronteiras violadas ou necessidades ignoradas. E a saudade mantém vivas ligações importantes. Ao mesmo tempo que a ternura protege aquilo que reconhecemos como precioso e a esperança abre possibilidades quando tudo parece fechado.
O problema raramente é a existência destas emoções. O problema surge quando tentamos construir monoculturas emocionais, aceitando apenas algumas e rejeitando todas as outras.
Tal como uma floresta dominada por uma única espécie se torna mais vulnerável, também uma vida emocional reduzida ao optimismo, à produtividade ou ao bem-estar permanente perde capacidade de adaptação.
A maturidade emocional talvez não seja sentir apenas emoções agradáveis. Mas desenvolver a capacidade de acolher uma maior diversidade emocional sem interromper os seus ciclos naturais.
O húmus da experiência
Existe uma sabedoria semelhante no luto.
Quando uma perda é vivida e testemunhada, ela não desaparece. Transforma-se. A experiência integra-se na nossa história, a relação altera-se de forma. A dor converte-se lentamente em profundidade, sensibilidade e capacidade de relação.
Pensemos no luto como o húmus da vida emocional e não como fim do processo. Mas como o que permite que algo novo encontre condições para nascer. Para que isso aconteça, a decomposição não pode ser interrompida demasiado cedo.
Pois é preciso permitir que algumas perguntas permaneçam sem resposta e aceitar que certas transformações aconteçam abaixo da superfície. Precisamos de confiar que a vida continua a trabalhar mesmo quando ainda não conseguimos ver os seus frutos.
Da gestão emocional à participação ecológica
As nossas emoções emergem sempre em relação: com outras pessoas, com as comunidades a que pertencemos, com os lugares que habitamos e com o mundo vivo do qual fazemos parte. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja: “O que está errado comigo?” Mas: “O que está esta emoção a tornar visível?” “O que precisa de atenção?” “Que transformação está a tentar acontecer?”
Quando deixamos de lutar contra as emoções e começamos a escutá-las como processos ecológicos, algo muda.
Passamos de gestores das emoções para guardiões dos seus ciclos. Deixamos a tentativa de controlar para a prática de acompanhar. Atravessamos da urgência de resolver para a capacidade de permanecer.
E é isto que a sucessão ecológica nos ensina… que nem sempre o nosso papel é acelerar o nascimento da nova floresta. Por vezes, o mais importante é simplesmente guardar a clareira e confiar no trabalho invisível que acontece no solo.
Recordando que a vida não floresce apesar da decomposição, mas através dela.
Prática em 5 momentos vivos
Fase 1 — A perturbação
incêndios
seca prolongada
tempestade
infestação
Árvores cortadas
O sistema vivo deixa de conseguir manter a configuração anterior. Em termos emocionais, pode ser o momento em que alguém toma consciência da policrise.
Lê um relatório.
Vê uma notícia.
Tem um filho.
Percebe a dimensão da extinção.
Reconhece que não existe um plano secreto que vai resolver tudo.
Algo rompe e a floresta antiga deixa de parecer estável. Frequentemente surge a eco-ansiedade, não como patologia, mas como sinal de perturbação.
Fase 2 — A clareira
medo
confusão
insónia
procura obsessiva de informação
sensação de impotência
perda de sentido
A cultura moderna tende a interpretar esta fase como um problema. Mas ecologicamente ela é inevitável, pois a clareira não é uma falha. É uma fase.
Fase 3 — Os decompositores chegam primeiro
a crença no progresso infinito
a fantasia de controlo
a separação humano/natureza
a ideia de que tecnologia resolverá tudo
a expectativa de segurança permanente
Aqui muitas pessoas sentem tristeza profunda, luto, raiva, desencanto.
Mas e se estas emoções são os fungos? Não estão a destruir-nos, mas a decompor estruturas que já não conseguem sustentar a realidade.
Fase 4 — As espécies pioneiras
curiosidade
procura de comunidade
activismo
arte
espiritualidade
cuidado do lugar
aprendizagem
Não são soluções, mas tentativas, experiências. Pequenos rebentos. Muitas vezes tão frágeis como resilientes.
Fase 5 — Diversificação
tristeza
amor
responsabilidade
prazer
medo
esperança
pertença
A paisagem emocional torna-se mais diversa. Mais semelhante a uma floresta madura do que a uma monocultura emocional.
O erro moderno
Algo como:
“Estou ansioso com o clima. O que faço para voltar a sentir esperança?”
Mas ecologicamente seria equivalente a dizer:
“A floresta ardeu ontem. Como volto a ter um bosque centenário amanhã?”
Mas a sucessão não funciona assim, pois há fases intermédias, decomposição, incerteza, solo exposto e espécies pioneiras.
Talvez a eco-ansiedade não seja algo a eliminar. Talvez, seja a primeira espécie que aparece quando uma cosmologia antiga começa a colapsar. A pergunta deixa então de ser:
Como me livro da eco-ansiedade?
E passa a ser:
Que sucessão ecológica esta eco-ansiedade está a iniciar em mim, na minha comunidade e na minha cultura?
Porque, vista assim, a eco-ansiedade não é o fim do processo. É apenas a primeira planta a nascer na clareira.
Referências
- Finding Refuge (Michelle Cassandra Johnson)
Climate, Psychology, and Change Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety (Ed: Steffi Bednarek)
Mourning Nature Hope at the Heart of Ecological Loss and Grief (Ashlee Cunsolo, Karen Landman)

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