
TEMPO DE LEITURA – 6 MINUTOS
O que se torna possível quando a inocência já não tem de ser defendida?
Sobre narrativas que continuam a funcionar depois dos seus pressupostos terem falhado.
O maior absurdo da modernidade colonial pode não ser o próprio colonialismo, mas a encenação interminável e aparentemente necessária para evitar falar honestamente sobre ele. Todas as defesas e armadilhas ao longo do caminho. Conversas inteiras que se transformam em danças intrincadas em torno da responsabilização, não porque os factos sejam contestados, mas porque reconhecê-los ameaça a narrativa da inocência e do progresso.
O resultado é teatral, enfurecedor, divertido e triste ao mesmo tempo.
Todas as discussões tendem a provar quem não é responsável, em vez de questionar quais as responsabilidades que emergem das relações em que já vivemos. O absurdo não reside no facto de as histórias coloniais serem complicadas. O absurdo é tanta energia intelectual ser dedicada a impedir que a complexidade se transforme em responsabilização. Tal como as personagens de Beckett à espera de Godot, continuamos à espera da inocência histórica perfeita que nunca chega, antes mesmo de permitir que a conversa comece… muito menos se desenvolva.
Imaginemos, só por um momento, que esta exaustiva encenação acabasse.
Imaginem se o discurso já não tivesse de proteger identidades de impactos e implicações.
Quanta criatividade foi sacrificada para manter narrativas de pureza?
Quantas possibilidades políticas, imaginações ecológicas, relações reparadoras e formas de parentesco permaneceram por nascer ou foram exiladas porque cada convite à responsabilização é imediatamente traduzido em acusação?
O próprio reflexo defensivo pode ser o absurdo.
Na verdade, e através do colapso, a realidade continua a pedir-nos que nos tornemos mais relacionais, mas as nossas narrativas herdadas redirecionam-nos continuamente de volta para a inocência individual. A construção de sentido colonial continua a funcionar muito depois de os seus pressupostos terem falhado.
É por isso que o absurdo importa.
O tolo, o malandro e o diabo popular não resolvem as contradições… em vez disso, expõem os estranhos rituais que realizamos para evitar vê-las. Eles riem-se não da responsabilidade, mas do esforço bizarro necessário para escapar dela. Talvez o que persiste do outro lado da inocência não seja a vergonha, mas a própria imaginação — não a auto-aniquilação, mas um tipo diferente de maturidade.
Assim que o discurso deixa de se ocupar em sustentar monólogos de autodefesa ou a ficção da pureza (enquanto fantasia com a pseudo-estabilidade e a diversidade da monocultura), a atenção fica disponível para algo infinitamente mais exigente e mais vivo. Posso agora perguntar como poderemos reparar relações, assumir o dever sem paralisia, e participar verdadeiramente em futuros que já não exigem que ninguém finja estar fora da teia que está a tentar curar.
Por isso, recorro ao absurdo não como um diagnóstico de colapso, mas como uma porta de entrada através da qual novas possibilidades relacionais podem finalmente surgir. Não para produzir niilismo, mas para interromper os reflexos herdados e manter-nos em relação quando os velhos mapas já não funcionam.
Pois a verdadeira tragédia não é que as pessoas se sintam culpadas ou estejam de luto. Mas sim que tanta inteligência cultural seja consumida para manter uma ficção de inocência, em vez de ser libertada para o trabalho de uma reparação profunda, lenta e coletiva.

Ler artigos relacionados
{Ecopsicologia}
-

O que se torna possível quando a inocência já não tem de ser defendida?
-

«Não fomos nós que inventámos o colonialismo»
-

Eu Enxame
-

Trabalhar com as Emoções como Sucessão Ecológica
-

Como chego aqui
-

O Tabu e o Assoberbamento
-

Desaprender a Anestesia
-

A Separação como Perda de Mundo
-

Quando não é um problema de comunicação
-

Há coisas só humanas?
-

Ser Singular não é estar Separado
-

O Ecofascismo Nunca será Ecológico
-

Limpar a casa de metáforas antigas
-

Práxis – Praticar ser Holobionte
-

Metabolismo
-

O Hóspede que Ocupa o Teu Corpo
-

O Cão Negro
-

Linguagem Psicológica vs Linguagem Ecológica
-

Quando Aprender Não é Acrescentar, Mas Deslocar
-

E se a Consciência Arranhar?
-

Dois Espelhos
-

Coisas que Nunca de Diria
-

Se queres sentir a terra, vais sentir o luto
-

Coerção Silencia a Relação
-

O que se torna possível quando a inocência já não tem de ser defendida?
-

«Não fomos nós que inventámos o colonialismo»
-

Eu Enxame
-

Trabalhar com as Emoções como Sucessão Ecológica
-

Como chego aqui
-

O Tabu e o Assoberbamento
-

Desaprender a Anestesia
-

A Separação como Perda de Mundo
-

Quando não é um problema de comunicação
-

Há coisas só humanas?
-

Ser Singular não é estar Separado
-

O Ecofascismo Nunca será Ecológico
-

Limpar a casa de metáforas antigas
-

Práxis – Praticar ser Holobionte
-

Metabolismo
-

O Hóspede que Ocupa o Teu Corpo
-

O Cão Negro
-

Linguagem Psicológica vs Linguagem Ecológica
-

Quando Aprender Não é Acrescentar, Mas Deslocar
-

E se a Consciência Arranhar?
-

Dois Espelhos
-

Coisas que Nunca de Diria
-

Se queres sentir a terra, vais sentir o luto
-

Coerção Silencia a Relação






































