TEMPO DE LEITURA – 10 MINUTOS

O corpo não acaba na pele.
Feito de mil mundos, mil bocas, mil respirações.
Não é o corpo que vive na terra… mas a terra que vive nele.

Come tempo, tristeza e restos.
E tudo o que come transforma.
O corpo fervilha, borbulha, desfaz-se e refaz-se.
Movimenta-se e muda.

É rio que passa e margem que cede,
é vento que entra e minhoca que lavra,
é lobo que corre e terra que come.

O corpo desfaz-se e refaz-se,
num trabalho escondido, lento, antigo
como raiz no escuro.

Aprende devagarinho a re-tecer-se com o mundo
como quem cose uma ferida que nunca foi só sua.

Metabolismo

Mergulhamos nas raízes emaranhadas da nossa existência, numa palavra que nos ensinaram na aula de biologia, mas cujo significado pode ser a chave para compreender o nosso tempo: metabolismo.

*

Para Lá da Biologia

Quando pensamos em metabolismo, a imagem que nos vem à cabeça é, provavelmente, a da digestão ou da taxa de calorias. E, de facto, a palavra, vinda do grego metabolē, significa “mudança”. No sentido fisiológico, é a soma das mudanças químicas que mantêm a vida, renovando ou transformando o nosso protoplasma.

Mas o uso moderno desta definição tende a reduzi-lo a uma função quantificada – eficiência, taxas, diagramas termodinâmicos. Achata a vida em transações químicas, despidas de significado ou ritual.

Mas e se o metabolismo não fosse apenas uma função química, mas uma lógica de vida? Um emaranhado vivo de multiplos corpos?

Na sua essência, o metabolismo honra os processos ocultos que sustentam a vida. Implica transformação, decadência, renovação e excreção – não apenas crescimento. E lembra-nos de que nada é estático, a vida mantém-se através da mudança.

Se a vida é mudança contínua, que outras palavras poderíamos usar para descrever este processo profundo, caótico, estocástico e desarrumado?

Convido palavras “parentes” para a mesa, tirando o metabolismo do laboratório e devolvendo-o à terra, a que fica teimosamente debaixo das unhas e nas rugas finas da pele:

  • Fermentação, uma transformação viva e lenta, catalisada por micróbios. A fermentação recusa a limpeza, cheira, borbulha e é a prova de que o que apodrece ainda pode alimentar o futuro.
  • Compostagem, a arte sagrada da decomposição que se torna a nutrição da própria vida.
  • Re-tecelagem Micorrízica, a linguagem do que é subterrâneo, demorado e que, no entanto, mantém os ecossistemas unidos sem glória.

O metabolismo, visto assim, não é só sobre nós. É sobre tempo, relação e transformação.

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Cultura e Indivíduo como Campo Metabólico

Se expandirmos o conceito, chegaremos à ideia de que a cultura é metabólica. Não como algo estático, num arquivo de regras fixas, quantificadas ou simbólicas, mas algo que é digerido, absorvido, excretado e regenerado, fluindo em nós como memória de sangue ou cerimónia neuroquímica. Falamos de ritmo, movimento, fluxo e ciclo. É vida em movimento, é verbo. O que quer dizer que não há uma meta, mas processo vivo a desdobrar-se. Isto significa que a cultura:

  1. Digere o luto: Os rituais, longe de serem acessórios, são enzimas para transmutar o indizível.
  2. Excreta o excesso: O descanso sazonal e os atos de recusa são mecanismos vitais de limpeza.
  3. Tem de apodrecer: Quando partes de uma cultura se tornam rígidas ou extrativistas, exigem compostagem, não reforma.

Podemos separar o que sentimos dentro de nós das feridas e ritmos do mundo à nossa volta?

A perspetiva hiper-individualista moderna diz que sim: “A tua cura é só sobre ti”. Esta visão transforma a cura num produto final, em vez de a ver como um processo numa rede de relações vivas. É a crença de que a liberdade ou o sucesso dependem apenas da nossa vontade ou da nossa perspetiva interna.

Mas, como temos visto, a individualidade não existe num vácuo. Somos seres biológicos constantemente fertilizados pela meteorologia, pela história, pelas flutuações de poder e por toda a ecologia que nos forma. Na verdade, o que chamamos de “interior” é, na verdade, uma rede de raízes e vínculos em constante transformação. O dentro é já o mundo a atravessar-nos.

Acontece que o metabolismo não é um processo pessoal. É intrinsecamente relacional, ecológico, espiritual e político. Emaranhado e entranhado. Uma rede múltipla e viva. A transformação acontece na fricção, na comunidade, na complexidade, e ir “para dentro” precisa de ser renomeado para ir “para dentro da teia e do emaranhado”.

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O Sequestro Metabólico e o Enredamento Traumático

Entendendo que o metabolismo é coletivo e relacional, podemos agora enfrentar a questão mais sombria: o que acontece quando este processo vital é sequestrado?

O sistema moderno, colonial-capitalista, não destrói o metabolismo… captura-o, domestica-o, exila-o, achata-o e o reprograma-o para servir a sua própria reprodução. O metabolismo deixa de ser a improvisação fervilhante da vida para ser o protocolo de manutenção da modernidade. Isto manifesta-se no sequestro do nosso corpo e cultura:

  1. Individualização da dor: A cultura dominante diz “tens o teu trauma”, “tens de gerir as tuas emoções”. Isto acontece enquanto o sistema beneficia da nossa desregulação, criminaliza o luto coletivo e desmantela os metabolizadores comunitários (como os rituais e o tempo lento).
  2. Controlo Algorítmico: Processos vitais como o luto e o crescimento são convertidos em lógicas de otimização, como o “burnout como um problema de produtividade”. A tecnologia, por exemplo, metaboliza a nossa atenção, transformando a presença em dados para alimentar a máquina.

E aqui chegamos a um paradoxo doloroso, que podemos chamar Dupla Ligação Metabólica. Sabemos, intelectualmente, que esta cultura simulada de controlo não é a realidade profunda. Mas o nosso corpo, o nosso metabolismo poroso e vivo, ainda responde como se fosse real. As nossas hormonas de stress não verificam a metafísica do sistema. As nossas vias neurais não questionam se um prazo corporativo é ontologicamente justificado.

Secretamos cortisol em resposta a emails e produzimos dopamina em scroll infinito. O nosso corpo está a tentar sobreviver numa ecologia distorcida.

Isto não é uma falha pessoal. É uma evidência de uma inteligência metabólica mais profunda que tenta sobreviver num ambiente artificial e sequestrado.

Ainda mais fundo, a simulação persiste porque foi reforçada epigeneticamente. A força bruta, a humilhação e vergonha inquisitorial e o medo, que dogmatizaram a escassez e violaram sistematicamente os corpos (humanos, não-humanos, água, terra), são o trauma epigenético que mantém a simulação no lugar. A escassez foi transformada numa doutrina: “Não há o suficiente. Tu não és o suficiente”.

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A Amputação e a Postura de Testemunha

O preço desta captura é bem alto. Se somos forçados a amputar o metabolismo, exilamos a terra viva, as ecologias específicas e o próprio corpo. Esta é a arca colonial-capitalista fechada com sete chaves. A amputação de-sincroniza a vida das cadências alinhadas com a Terra, criando pessoas sem lugar, numa cultura de urgências, e a isso chamamos “progresso”.

Então, como podemos começar a re-alfabetizar a nossa sensibilidade metabólica?

A resposta não passa por “resolver” o colapso, mas por mudar a nossa postura relacional.

Em vez de nos fixarmos na lógica do aperfeiçoamento individual — “tornar-me na melhor versão de mim mesmo” — somos convidados a assumir o compromisso de aprender a estar numa relação mais profunda e sem certezas. O crescimento interior torna-se integridade relacional. A cura, neste contexto, expande-se para a responsabilidade ancestral e futura. Tornamo-nos alguém que aprende continuamente a habitar o mundo com responsabilidade, escuta e cuidado. E falhamos e não sabemos como, mas tentamos de novo. Isto exige que nos recusemos a ser produto ou marca, e que recusemos a ilusão de que a transformação é um “trabalho interno”.

Como podemos começar a desaprender o império da individualidade e a cura como produto de consumo?

Podemos começar por abraçar a individualidade como emaranhamento plural, a cura como reparação relacional, e o crescimento como um retorno à responsabilidade. Isto leva-nos a outros protocolos relacionais:

  • A Terra precisa de companheirismo no colapso, não de ser salva.
  • Testemunhar a Terra é ligarmo-nos ao seu destino, não através da intervenção, mas através da inter-existência. Aqui.
  • Isto implica abster-se do resgate salvacionista e, em vez disso, comover numa presença inabalável ao lado de uma Terra que morre e se transforma.

A verdadeira jornada é sobre deixar que o mundo mude o nosso interior, decompondo a ilusão de um eu separado para que se torne algo fértil.

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O Convite da Complexidade

O metabolismo, no sentido alargado, é o nosso convite. Mostra-nos que o nosso indivíduo está emaranhado na cultura, e que ambos estão profundamente enraizados na ecologia, mesmo que essa relação tenha sido sequestrada e simulada.

A nossa tarefa, no meio desta complexidade, não é encontrar uma verdade interior pura, mas habitar o desconforto e a incerteza do “entre”. É re-aprender a respirar na teia maior que já nos respira, lembrando que o que pulsa na nossa pele pulsa também nas florestas decepadas e nas múltiplas violências que sustentam o nosso conforto.

Ao recusar a lógica da otimização e ao abraçar o metabolismo como fluxo criativoo ser a refazer-se em movimento – abrimos a possibilidade de viver com tudo o que vive. Sem triunfo, mas com presença.

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Referências

  1. Livro O Dia a Seguir da Tempestade.
  2. “A ilusão do auto-desenvolvimento” – crítica ao hiper-individualismo e à transformação como responsabilidade relacional.
  3. “Temos de ir para dentro” – crítica ao “dentro” como arquitetura moderna e o convite ao “entre”.
  4. Dentro” – ilusão de que “tudo se passa dentro” e a importância do contexto.
  5. “Não sou marca ou produto” – recusa em ser produto e o ser como pessoa em emaranhamento.
  6. “Linguagem Psicológica vs Linguagem Ecológica”
  7. O Hóspede que Ocupa o Teu Corpo {Fragmentos Surpreendentes sobre o Patriarca Interno}
  8. Kauffman & Roli: https://iai.tv/articles/biology-not-physics-holds-the-key-to-reality-auid-3163

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🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.