Nabo Preto

{sonho}

Disseram-me que tinha de me apressar. Ou, pelo menos, senti uma urgência no meu corpo, enquanto a parte inferior das minhas costas já rangia de tanto me inclinar e do esforço constante. O campo estendia-se até ao horizonte. Nabos pretos a crescer por todo o lado. Uma tempestade aproxima-se, trazendo ventos e poeira, que se espalham cada vez mais rápido sobre o campo. O único som é o do vento, e o cheiro das nuvens pesadas e ameaçadoras pairava sobre a minha cabeça. Um rugido baixo e distante.

As minhas mãos têm terra em todas as fendas, debaixo das unhas, e pele arranhada de cavar e puxar os pesados nabos pretos. Cada um que eu arrancava do chão, teimosamente agarrado, transformava-se em cinza-preta assim que arrancado. Mais um. E outro. Cada um diferente, mas todos semelhantes. Silenciosos, mas densos. Nabos pretos e sombrios. Avança, disseram eles, apressa-te: «Ainda há muitos nabos». Sem pensar e numa emergência física, continuei a dobrar-me, a cavar, a puxar. A sentir vagamente o cheiro do fumo escuro a cada arrancada. Por entre a pressa, reparei que, enquanto a tempestade se aproxima, há uma rasgadura nas minhas costas. Uma dor antiga, implacavelmente presente. Silenciosamente visceral. Cada arrancada é tanto um alívio como uma pontada. Com as palmas das mãos a segurarem firmemente a parte inferior das costas, estiquei-me e olhei para o céu cinzento. Alívio. Os meus olhos pousaram no chão vazio onde os nabos pretos cresciam momentos antes. Nada. Húmido e árido. “Será que devo mesmo estar a fazer isto?”, mas não há ninguém aqui, por isso ninguém responde. Ainda há muitos mais nabos pretos logo à frente, mas vou parar por agora. A dor nas minhas costas inunda-me e, por acaso, vejo que as nuvens de tempestade escondem uma fenda no céu. As minhas costas rasgadas não passavam de um eco dessa fenda celestial. Com os pulmões cheios de cinza de nabo preto, agora teria de coser o céu.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.