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Da APP ao Sensorium

Precisamos de reabrir o sensorium

O sensorium vivo, relacional, ecológico e incorporado

Precisamos de fissurar a normopatia sensorial

Não num romance anti-tecnológico

Mas na recuperação da porosidade relacional que a modernidade anestesia

{…Anestesia… sempre esta dormência…}

Empobrece o corpo, treinando-o a viver em abstração, medição, velocidade e separação

*

Sugiro uma APP,

A.tenção P.oesia P.olítica

Trazemos o corpo-lugar à recordação da ecologia, da percepção em reencantamento e implicações reais

*

Afinal, quando deixaste de saber cheirar a chuva?

Quando foi a última vez que soubeste que ia chover sem olhar para uma app?
O que no teu corpo sabia? Pele? Pressão? Cheiro? Som? Ossos?

O que nos acontece quando deixamos de confiar no sensorium e entregamos a percepção do mundo a interfaces, ecrãs, baterias e algoritmos?
O que deixámos de saber sentir porque aprendemos apenas a medir?

*

Ou talvez seja uma APP de

A.nimismo P.ele P.resença

Animismo não como crença, mas como percepção da vitalidade relacional do corpo-lugar.
Em presença de múltiplas atenções e percepções.

*

Porque, e se perdêssemos os números?

Imagina que amanhã desapareciam as horas, percentagens, likes, notificações, calorias, passos, produtividade, rankings.
Não saberíamos medir o mundo, mas talvez houvesse espaço para nos relacionarmos com ele de novo.

Saberias ainda quando o teu corpo está cansado?
Quando a terra precisa de água?
Quando uma árvore está doente?
Quando o silêncio pede cuidado?
O que continuarias a saber?
O que deixarias de conseguir sentir?

*

Mas o teu corpo
já está cheio de rios antigos,
metais extraídos,
línguas herdadas,
bactérias,
fantasmas,
plantas mortas,
sopro vivos,
trabalho invisível,
respirações que não são só tuas.

O teu lugar é feito de ancestralidade, abrandamento, ancoragem e assombro.

Para além da amnésia imposta.

{…Assombro…}

*

Talvez a crise não seja apenas ecológica.

Mas sensorial.

Possivelmente desaprendemos como pertencer
Antes mesmo de desaprendermos como pensar.

*

Mas o cheiro da terra ainda aqui está
As pernas cansadas também
Os sonhos visitam-nos todas a noites
A pele ainda canta ao toque
O vento ainda sussurra vivo

Talvez ainda possamos recordar outros ritmos

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.