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Ser Singular não é estar Separado
Notas sobre o medo moderno do colectivo, o endeusamento da autonomia e a possibilidade de uma singularidade enraizada.
O sujeito moderno teme ser dissolvido pelo comum porque, muitas vezes, só conhece colectivos organizados pela obediência, pela homogeneização, pela produtividade ou pela moral do consenso. Mas essa imagem não é universal. É uma memória cultural localizada. Claro que o desafio é assumir que a modernidade tende a projectar-se como norma da humanidade, quando revela, sobretudo, falta de imaginação e de capacidade de escuta de outras formas de ser indivíduo em pertença. O que aparece como independência é, na verdade, uma forma neurocolonizada de dependência invisível.
Porque nenhum indivíduo (sim, mesmo o moderno) nunca foi independente, mas sempre co-produzido por instituições, mercados, escolas, famílias, linguagens terapêuticas, tecnologias de auto-imagem e forças que o moldam enquanto lhe dizem que ele se fez a si próprio.
A ignorância colonial moderna sobre a diversidade de culturas indígenas e comunitárias torna difícil imaginar que o colectivo não precise de devorar o indivíduo. Em muitos mundos relacionais, o comum não é uma massa indiferenciada que exige sacrifício da singularidade, mas um campo vivo que oferece lugar, ritual, história, responsabilidade e chão para que cada ser se actualize em pertença ecológica e contextual (e não, nada disto extingue ou apaga conflitos, atritos ou crises; na verdade, esperar que assim seja é romantismo desvinculado que apaga a complexidade das coisas).
Nestes contextos, a singularidade não é apagada, mas é enraizada, torna-se mais densa, mais responsável, mais capaz de responder ao corpo-lugar que a sustém. O que o hiper-individualismo lê como ameaça identitária — vínculo, obrigação, reciprocidade, ancestralidade, pertença — pode ser precisamente o chão que impede o indivíduo de se tornar uma abstracção vazia e ansiosa, sempre incompleta, sempre a desempenhar valor.
O paradoxo é que o sujeito moderno teme perder-se no colectivo, mas já está profunda e inevitavelmente enredado num colectivo que não reconhece como tal — um colectivo institucional, extractivo e normopático, que o fabrica como consumidor, competidor e projecto infinito de auto-optimização.
Talvez possamos alterar a pergunta de “se o colectivo apaga o indivíduo” para: “que tipo de colectivo nos está a fazer existir, que vínculos nos tornam mais inteiros e que mundos precisamos de desaprender para que a singularidade possa voltar a ter corpo, lugar e parentesco?”

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