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Limpar a Casa de Metáforas Antigas
Andava por aqui a limpar a casa de metáforas bolorentas, daquelas que acumulam pontos-cegos em rolos de pelo-pele a juntar-se nos cantos. Enquanto varria as metáforas poeirentas, algo brilhou no canto da sala. Ali a cintilar estava, esquecida, a metáfora do espelho. Birrenta de varrer esta metáfora, ali agarrada ao canto como se fizesse parte do chão. “O outro é um espelho teu”, canta ela baixinho. Fui buscar um pano embebido em vinagre a ver se a despego.
Esfrego com força, pois esta metáfora infiltra-se fundo e colapsa a alteridade real. Lavo, para que o outro possa existir como sujeito, território, história, opacidade e agência própria. Escovo teimosamente o canto para que “o outro” deixe de ser aprisionado em projeção psicológica. Entre vassoura, panos, água e vinagre, coço a cabeça com as mãos cansadas… afinal, isto é profundamente moderno… tudo regressa ao indivíduo, ao “meu processo”, ao “meu reflexo”, ao “meu crescimento”. A metáfora do espelho continua pegada ao canto, obstinada, enquanto continua a enfeitiçar quem a escuta: “fecha-te em ti; silencia o que é diferente; confirma sempre a tua identidade; psicologiza tudo em causalidades lineares… transforma tudo em auto-referência.”
Mas a cada bocado que salta, revela-se uma mini paisagem. Tão viva e densa. Continuo a esfregar e abre-se, aqui no canto da sala, um campo, uma reverberação, uma ecologia de impacto. Caramba, o espelho partiu-se em fragmentos e a canção mudou, “Que impactos produzimos uns nos outros nos campos relacionais que nos excedem?”
Este lugar atrás do espelho abre-se a muito mais complexidade e responsabilidade. Aqui, o outro não é meu espelho, o outro é outro. Circula, marca, reverbera em co-regulação e desregulação. Aqui há feridas que passam de corpo em corpo, mas também alegria que circula, sistemas que moldam encontros e tantas, mas tantas histórias que antecedem as relações.
Aqui no canto da sala, atrás da metáfora do espelho acumulada no canto, há um rio vivo: “Não somos espelhos uns dos outros, mas águas que se tocam.” Um rio em fluxo e movimento, que lembra que, quando algo cai na água, não há reflexo puro. Há ondas, correntes, turbulência, dissipação e memória do movimento.
Nesta mini paisagem há também os fios de micélio, frágeis e potentes, que cantam: “Não somos espelhos, somos nós de uma malha sensível.” Vibram na rede e nem tudo regressa como reflexo. Mas quase tudo produz consequências que atravessam corpos, tempos e relações de forma não linear.
Em muitas vozes a mini paisagem, que vou desvelando à medida que esfrego a metáfora no canto da sala, também canta: “Somos habitats uns dos outros.” Isto muda quase tudo, pois num habitat tanto posso nutrir como intoxicar; gerar chão ou erosão; tornar o campo mais respirável ou mais vigilante. Um habitat vivo que te força a mudar a pergunta de “o que isto diz sobre mim?” para: “O que está a ser co-criado entre nós?”
A mini paisagem que se revela está cheia de ecos, que não são identidade e preservam as diferenças. Propagação com transformação: “O outro não é o meu espelho e entre nós há ecos.” O eco altera-se no caminho, misturando-se com o território, pois depende da matéria. Chega diferente, tanto amplifica como desaparece. E isto é muito mais ecológico e menos narcísico.
Ao limpar o canto da sala, a teimosa metáfora do espelho revela-se como uma paisagem viva que o transforma numa metáfora de impacto e reverberação. Aqui reconhecemos a interdependência e preservamos a diferença, nutrimos a diversidade—mesmo em conflitos, dissensos e divergências. Admitimos a opacidade e a responsabilidade ecológica, pois sabemos agora que operamos sempre em sistemas e contexto. Entramos no processo vivo, pois a pergunta nunca foi “quem sou”, mas “como participo da vida”.
Varro agora os restos da metáfora fraturada do espelho. Fragmentos que continuam a perguntar “o que o outro espelha em mim?” Mas a mini paisagem que se revelou, plena de vida, água, micélio e ecos, já mudou a pergunta:
“Que tipo de rasto deixamos uns nos outros?”
“Que clima relacional criamos?”
“Que reverberações alimentamos?”
“Estamos a aumentar vida ou a consumir mundo?”
Até porque impacto não significa culpa total e muito menos controlo absoluto. Falamos de responsabilidade situada, a que humildemente reconhece que tantas vezes a intenção difere do efeito, que o contexto, poder, trauma e história importam e que os nossos gestos continuam a ter consequências.
Talvez seja mais difícil, mas é definitivamente mais honesto.
Agora que destapei esta mini paisagem no canto da sala pergunto como a consigo co-criar, como conseguirei suster lugares mais relacionais, ecológicos e maduros?

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