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Desaprender a Anestesia

Despir a armadura para devolver o “eu” ao mundo.

Haja paradoxos fecundos! Este é um desses, bem doloroso (*), mas fértil…o da ambiguidade da ecopsicologia que parece “abstracta” porque desorganiza o que a modernidade treinou como evidência e a única verdade possível.

A questão é que, para uma psique moderna, “realidade” é falar de indivíduo, auto-regulação, sintomas, escolhas, narrativas internas e produtividade emocional. Mas falar de ar, ruído, calor, alimento, território, água, casa, ancestralidade, colonialidade, vizinhança, trabalho e ecossistema como componentes da psique parece “confuso” porque convida a mudar o próprio chão do que conta como psicológico.

A armadura da resistência é a modernidade a proteger-se deste embate, numa defesa contra a confusão, em que o eu separado tenta preservar o seu estatuto central na realidade.

O indivíduo isolado, é uma abstracção elegante e sofisticada, naturalizada como realidade. Já o corpo e os lugares vivos, materialmente concretos, respirantes e inevitavelmente entrelaçados, foram mutilados, exilados e olvidados da psique. Na verdade, chamamos abstracto ao que não nos habita o corpo, algo sem forma ou não traduzido na nossa experiência da realidade.

*

Então, antes de arrancar a armadura e acordar da anestesia, podemos distinguir três camadas do desafio ao trilhar pelos meandros da ecopsicologia:

  1. Linguística: há palavras novas, sim (mundos antigos-novos diria eu).
  2. Perceptiva: porque há relações que foram desaprendidas e tornadas invisíveis.
  3. Ontológica: há um “eu” que sente que pode perder centralidade e não tem referências sobre o que isto quer sequer dizer.

Sendo que a terceira é a mais profunda e dolorosa, onde precisamos cultivar paciência e carinho. Precisamos de calor e colo, porque o eu separado não se transforma por argumentos, mas pode mudar de pele, aos poucos, quando encontra experiências de pertença suficientemente seguras para não se recolher e colapsar em susto da fusão, do medo da desintegração, da culpa ou da defesa.

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Sustentemos a pergunta, que pode parecer um desafio: que tipo de psicologia só se tornou possível depois de separar e remover a ecologia da psique?

Atenção que não estamos a tentar substituir a psicologia por ecologia, no entanto, temos de assumir que a modernidade chama “realista” ao sujeito mais abstracto que alguma vez inventou—um indivíduo sem território, sem ancestralidade, sem metabolismo, sem dívida ecológica, sem dependência, sem mundo.

Felizmente, e como digo muitas vezes, ando nos ombros de gigantes, de autores, praticantes e investigadores que têm colocado estas questões, o que ajuda a trazer aqui referências que nomeiam este paradoxo.

Ahenakew, Stein, Andreotti e colegas definem a separabilidade como uma alienação socialmente imposta e internalizada da nossa inserção no metabolismo vivo da Terra. Estes autores dizem não se tratar de apenas individualismo, mas de uma ruptura entre humanos e natureza, humanos entre si, humanos consigo próprios e humanos com as suas responsabilidades perante a Terra. Chamam a isto uma base onto-epistemológica da policrise e ligam-na à neurocolonização, à domesticação e modelação dos modos de pensar, sentir, perceber, relacionar, desejar e imaginar segundo separação, superioridade e subjugação. É assim que deixamos de lidar com os impactos e consequências reais dos nossos actos.

Ora, quando, ao falar de ecologia ou de como as nossas emoções não são só nossas, a reação é “isto é muito abstracto”, e apesar de haver uma reação também ao vocabulário “difícil”, o que está realmente a acontecer é que há uma defesa perceptiva a ser levantada, um incómodo a tentar ser evitado, mesmo um “preciso de mais tempo”. O que é legítimo e faz parte do processo de desaprendizagem.

Porque o que está a ser pedido não é só compreender uma ideia nova, mas abandonar temporariamente o abrigo inocente do “eu interno separado” como lugar soberano da realidade psicológica—facilmente confundida com a realidade ela mesma. A ecologia torna-se “abstracta” porque ameaça tornar psicológico tudo aquilo que a modernidade ensinou a manter fora—a cidade, a água, a exaustão, a comida, a história colonial, o clima, o ruído, a terra, os mortos, os não-humanos, os ritmos do corpo. O que parece abstracto é a tentativa de devolver corpo, lugar e mundo a uma mente treinada para se imaginar sem chão, sem teia e sem lugar.

A ecopsicologia radical já intuiu isto quando Andy Fisher fala da necessidade de “virar a psique do avesso”, pois tanto a psique humana tem exterioridade, quanto o mundo não-humano tem interioridade, agência, profundidade e criatividade. A tarefa ecopsicológica não é acrescentar “natureza” à psicologia convencional, mas desfazer o dualismo moderno que divorciou mente e natureza, incluindo o próprio corpo e principalmente a própria cultura.

Porque a ecopsicologia não é abstracta, torna é novamente visível o concreto que foi removido da categoria de psique.

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Voltando ao desconforto que isto causa, não podemos ignorar que, para muitas pessoas, mudar de referências é sentido como uma perda de estabilidade e até de identidade. As palavras “território”, “parentesco”, “interdependência”, “não-humano”, “colonialidade”, “lugar”, “Criação”, “metabolismo vivo” não são apenas conceitos novos, mas convites a deslocar o centro da realidade. Já não é o “meu mundo interno” que explica tudo e o sofrimento deixa de caber apenas na biografia individual. Agora a ansiedade assume a sua relação com precariedade, velocidade, calor, ruído, isolamento, extracção, colapso ecológico, falta de comunidade, perda de mundo. Isto pode provocar alívio, mas também uma grande vertigem.

Arthur Blume ajuda a aprofundar esta viragem ao propor, a partir de uma psicologia indígena da Ilha da Tartaruga (Turtle Island, actual EUA e Canadá), que a saúde psicológica não começa no indivíduo, mas na Criação como comunidade mais ampla. O cuidado de si começa pelo cuidado da Criação, pois identidade, sentido, pertença e bem-estar dependem dessas relações. Ele critica precisamente o enviesamento antropocêntrico e hierárquico das sociedades coloniais, que privilegiam o humano e o indivíduo em detrimento do todo vivo e relacional.

Então, quando a armadura de defesa é vestida, a confusão precisa ser honrada como sintoma de transição ontológica. A confusão, desconforto e o incómodo podem ser o momento em que a moldura antiga já não serve, mas a nova ainda não tem corpo.

O desafio é que a psique moderna tenta rapidamente resolver esta instabilidade exigindo o conhecido: “mas o que é que isto tem a ver comigo?”, “qual é a prática?”, “como aplico isto?”, “que técnica levo daqui?”. São perguntas genuínas, mas também podem funcionar como tentativa de domesticar a travessia pelo desconhecido e rapidamente voltar a transformar a ecologia em ferramenta para o eu.

Então, quando te parecer abstracto, podes perguntar: abstracto para que parte de mim? Para a mente habituada a conceitos separados? Ou para o corpo que respira ar, come alimento, vive numa casa, atravessa ruído, depende de água, sente solidão e pertence a uma Terra ferida?

Pode haver uma parte de nós que prefere que a ecologia continue abstracta, porque se se tornar íntima, haverá uma metamorfose na forma como sentimos, cuidamos, sofremos, responsabilizamos e pertencemos. E isto é muito mais exigente do que “aprender conceitos”, pois quando nos aventuramos a tirar a armadura e a expor a pele frágil e porosa ao mundo, também desaprendemos a anestesia que nos mantém cativos.

(*) Contextualizo que este paradoxo é especialmente doloroso no meu contexto cultural onde ainda há muito poucas referências a outras formas de ser-mundo (existem bolhas e colectivos que felizmente excedem a normalidade, claro). Este é um contexto normativo hegemónico colonial e conservador, que evita ao máximo tocar onde nos dói a todos. De forma geral, quem me chega ainda nem sequer tem palavras, muito menos aceitação ou referências, para a severidade das crises entrelaçadas, e a expectativa é “sentir bem com a natureza”. Trago este contexto por ser importante para informar que estou aqui a dirigir-me a uma camada cognitiva que ainda nem se permitiu tirar a armadura e muito menos acordar da anestesia.

 

 

Referências:

  • Ahenakew, Cash, Sharon Stein, Vanessa Andreotti, Ninawa Inu Huni Kui, Lisa Taylor, Stacey Prince, Jaya Ramesh, Chelsea Williams, Rene Suša, Rose Vukovic, and Claudia Diaz-Diaz. “Decolonizing Mental Health in the Polycrisis: Pathways Toward Neuro-Decolonization.” American Psychologist 80, no. 8 (2025): 1297–1312. https://doi.org/10.1037/amp0001540.
  • Blume, Arthur W. A New Psychology Based on Community, Equality, and Care of the Earth: An Indigenous American Perspective. Santa Barbara, CA: Praeger, 2020.
  • Fisher, Andy. Radical Ecopsychology: Psychology in the Service of Life. 2nd ed. Albany: State University of New York Press, 2013.
  • Fisher, Andy. “What Is Ecopsychology? A Radical View.” In Ecopsychology: Science, Totems, and the Technological Species, edited by Peter H. Kahn Jr. and Patricia H. Hasbach. Cambridge, MA: MIT Press, 2012.

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