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Espiritualidade vs Ontologia de Separação
Território, corpo, espírito, ancestralidade, alimento, rito, cura e responsabilidade nunca estiveram separados.
Como corpo herdeiro do legado hegemónico colonial, como perguntadeira e eterna aprendiz de outras formas de ser-mundo, sinto que há uma confusão na prática e relação espiritual entre a modernidade e as múltiplas tradições indígenas, originárias, nativas ou aborígenes.
Pois, para muitas psiques modernas, o espiritual é aquilo que se separa da matéria para ganhar essência, inocência e pureza. Mas para muitas cosmo-convivências indígenas, o espiritual é aquilo que revela que a matéria nunca esteve morta, muda ou disponível, porque o sagrado não paira acima do território… respira com e através dele. O território é o lugar onde a espiritualidade acontece, porque a relação espiritual é indissociável da relação ecológica.
A quem comigo partilha deste legado moderno-colonial, peço que se ajoelhe no chão vivo e leve um pouco de terra ao peito. Sem pressa de resultados. Apenas em presença e respiração conjunta.
Abrimo-nos à possibilidade de que, em contextos pluriversais de tradições ancestrais ligadas ao território, “espiritualidade” não é uma camada simbólica por cima da vida, mas uma ontologia de relação em que território, corpo, espírito, ancestralidade, alimento, rito, cura e responsabilidade não estão, nunca estiveram, separados.
De joelhos no chão, baixamos o peito à terra, para sentir o seu rumor pulsante antigo, aquele que atravessa o tempo e os corpos.
Na psique moderna ocidental, sobretudo depois das grandes separações entre natureza/cultura, corpo/mente, matéria/espírito, humano/mundo, a espiritualidade tende a ser imaginada como algo que “sobe”, transcende, purifica, abstrai, eleva-se para fora do corpo, da terra, da lama, da política, da ecologia. O espírito tende a associar-se ao invisível descarnado, ao íntimo privado, à crença individual ou à salvação fora do mundo. Mesmo quando fala de “natureza sagrada”, a modernidade facilmente a transforma num ornamento, numa metáfora terapêutica, numa paisagem inspiradora, sem nunca se atrever a tocar na ferida profunda de separação.
Mas em muitas cosmo-convivências indígenas, com todas as diferenças entre povos, línguas e territórios, o sagrado não é uma “ideia sobre a natureza”. O sagrado é a relação viva com a Criação, com a Terra, com os seres, com os ciclos, com os antepassados, com o invisível e aquilo que excede a compreensão humana sem deixar de estar aqui. É uma espiritualidade que vive em atenção e acção respeitosa com toda a Criação, relacionando-se todas as coisas como sagradas e inerentemente valiosas. Em responsabilidade, reciprocidade e respeito.
Ou seja, nestes legados coletivos o espírito nunca esteve fora da matéria; porque a matéria não está morta, inerte ou sem agência ou consciência; o território nunca foi apenas cenário, nem o corpo recipiente e, muito menos, a ecologia apenas recurso. O espírito é relacional, situado, incorporado e profundamente territorial. O sagrado não é uma fuga do mundo, mas uma intensificação da obrigação de participar nele com reverência, reciprocidade e cuidado—cuidando dos limites, consequências e impactos, seguindo protocolos de respeito e integridade. O sagrado está nos interstícios e mistérios do entrelaçamento, de como somos mundo em conjunto.
Já nos começam a doer os joelhos e vem a comichão por ter o peito cheio de terra.
A realidade é que isto é realmente difícil para psiques modernas, pois desestabiliza duas fantasias centrais. A primeira é a fantasia de que o real é apenas aquilo que pode ser objectificado, medido, extraído ou administrado. A segunda é a fantasia inversa, mas complementar, de que o espiritual só é “puro” quando se separa do corpo, da terra, do conflito, da política e da história. Ambas mantêm a separação, enquanto uma dessacraliza a matéria, a outra desmaterializa o sagrado.
Nas cosmologias indígenas, que tocamos com respeito e responsabilidade, o grande mistério da Criação não é uma entidade abstracta no alto. É uma profundidade imanente que está e é o rio, o vento, a planta, o animal, o alimento, a montanha, o ventre, o sangue, o sonho, o rito, a comunidade, a memória dos mortos e a responsabilidade para com os que ainda não nasceram. Porque o espírito interior nunca foi separado do corpo, da mente, das tomadas de decisão, da família, da comunidade e do lugar.
De joelhos e costas doridas, deitamos agora a testa na terra—talvez se derramem pensamentos, grilhões, expectativas e inocências, talvez a terra engula e composte.
Porque quero desestabilizar uma leitura “new age” ou puramente terapêutica deste “espiritual”, principalmente quando apropriado e extraído sem relação ou responsabilidade a partir de tradições que não nos pertencem. Porque o território sagrado não é apenas aquilo que me regula, inspira ou cura, mas é parente, agente, memória, lei, obrigação, ferida e continuidade. Por isso, quando se fala de território sagrado, não se pode saltar por cima da terra roubada, da demarcação, da expulsão, da mineração, da catequização, do racismo, da destruição das línguas, da domesticação dos rios e do esventramento das matas. O sagrado também é político, pois a violência contra o território é crueldade contra relações espirituais, ancestrais, corporais e comunitárias. A literatura de psicologia decolonial lembra precisamente que “descolonizar” não pode tornar-se uma metáfora confortável se não tocar a restituição, a rematriação e a restauração das relações espirituais e ancestrais com a Terra.
Por isso, quando dizemos “o sagrado é o território”, não estamos a romantizar a natureza, mas a deslaçar um pouco de uma dolorosa mutilação ontológica.
Reconhecemos que a terra, o corpo, o espírito, a comunidade, os antepassados e o futuro não são domínios separados. Ferir a terra é ferir uma relação espiritual e defender a terra é defender uma ecologia de parentesco, memória e continuidade.
Porque, na modernidade, o espírito foi muitas vezes exilado da Terra. Nas cosmo-convivências indígenas, a Terra nunca deixou de ser espiritual.
Afinal, a terra cravada nos teus joelhos, peito e testa, mesmo cansada e contaminada, abençoou-te.
Referências:
- Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, e Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association, 2024.
- Narvaez, Darcia. “Principles of an Indigenous Way of Being.” Psychology Today, 9 de maio de 2021.
- Waitoki, Waikaremoana. “Indigenous Psychology in Aotearoa.” Em Te manu kai i te mātauranga: Indigenous psychology in Aotearoa/New Zealand, editado por W. Waitoki e M. Levy, 115–133. Wellington: Roopu Mātai Hinengaro, New Zealand Psychological Society, 2016.

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