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Revelar o Sobrenatural
A perspectiva de uma palavra-escadote.
Etimologicamente, sobrenatural, vem do latim medieval supernaturalis: super = acima, além, sobre; natura = natureza. A palavra entra no português pelo francês/latim medieval, inicialmente com significados ligados ao divino, à revelação, ao que excede a ordem natural. Só mais tarde, a partir do século XIX, se tornou mais associada a fantasmas, oculto e paranormal. (etymology online)
Não podemos perder de vista que natura vem de uma família lexical ligada a nascimento, origem, aquilo que nasce ou vem a ser. “Natureza” deriva do latim natura, associado a natus e nasci, “nascer”. (wiktionary) Portanto, no fundo, super-natural ou sobre-natural, significa aquilo que está acima ou para além do que nasce, do que emerge, do que tem corpo, ciclo, geração, crescimento e morte.
E trau, já estamos dentro da ferida de novo… mas agora de escadote montado.
Sobrenatural não é apenas sobre “haver mais do que conseguimos ver”. A própria palavra argumenta haver uma ordem natural e outra superior à natureza. O sagrado passa a ser imaginado como aquilo que está acima do mundo, em vez do que pulsa dentro do mundo. O mistério e o mundo deixam de ser úberes e imanentes — rio, osso, vento, húmus, sonho, morte, animal, relâmpago, ancestralidade, fungo, parto, decomposição — e são deslocados para um andar de cima.
É uma palavra vertical, cheia de degraus, que só sobem.
Esta verticalidade e ascensão são decisivas. Porque reorganizam a percepção numa ideia de inferioridade da matéria, do corpo, do instinto, do ciclo, da finitude, da inferioridade, ou seja, da “natureza”; e, nos degraus lá em cima, de forma sobranceira e superior, encontramos o espírito, a transcendência, o milagre, a verdade, a salvação, ou seja, o sobrenatural. Acima da natureza e dos ciclos, fora da espessura do mundo.
A mesma escada e verticalidade surgem nos antónimos dimensionais: supernal e infernal. Supernal, hoje caído em desuso, guardava a direção ascendente do “celestial”, do que pertence ao alto; infernal, pelo contrário, permaneceu vivo como marca de condenação, associando o baixo, o chão profundo e o submundo ao demoníaco. Assim, a própria linguagem herdada conserva o corte: o alto como pureza, luz e salvação; o baixo como queda, perigo e maldição. Não esqueçamos que antes desta moralização vertical, o submundo não era apenas inferno, mas o ventre escuro, húmus, caverna, raiz, decomposição e iniciação — lugar de fermentação e transformação fecunda.
Pertencente a este legado, a palavra-escadote, sobrenatural, abandona o corpo, a terra, o animal e o visível cá em baixo, elevando o espírito, o céu, o humano e o invisível ao topo como “mais real”. A consequência é subtil, mas muito profunda… o sagrado fica exilado da matéria. A demonização do em baixo não separou apenas céu e terra, mas empobreceu a nossa capacidade de reconhecer que muita vida nasce precisamente onde a modernidade aprendeu a temer a descida. Mesmo quando usado como assombração, é o lugar sobranceiro que acolhe o que que nunca poderia pertencer e ser-mundo—fantasmas, oculto e paranormal.
Ora nas cosmologias onde o sagrado é território, rio, montanha, floresta, animal-parente, fogo, casa, ancestral, vento ou alimento, o termo “supernatural” ou “sobrenatural” pode falhar, porque estas culturas não separam o espiritual do ecológico e a alma do território. O que a modernidade chama “sobrenatural” pode ser, noutros mundos, simplesmente relacional, ancestral, não-humano, vivo, sagrado, territorial, o presente espesso e a fervilhar de vida visível e invisível.
A palavra sobrenatural não abre apenas a revelação divina, mas também uma incapacidade moderna de só conseguirmos reconhecer o mistério quando o arrancamos da Terra—se é sagrado, não pode ser apenas água, tem de ser “mais do que água”. Rutura. Talvez a água nunca tenha sido “apenas” água.
Porque “sobrenatural” nasce de uma ontologia onde a natureza já foi previamente empobrecida, esgaçada e separada da sua senciência e agência.
Reduzimos a natureza a matéria muda, mecanismo, recurso, cenário, exterioridade e depois, quando algo nela ainda nos assombra, temos de inventar uma categoria acima dela para conter esse excesso. Mas este excesso pode não estar acima da natureza… pode ser a própria natureza a transgredir a grelha moderna de percepção, redutoramente racionalista.
Esta palavra-escadote, “sobrenatural”, funciona como estrutura de separação porque:
- Descarna o sagrado — O espírito deixa de ser respiração da matéria e passa a pertencer a um domínio separado, lá no degrau mais acima, sem tocar o chão.
- Desvaloriza a natureza — A natureza torna-se o plano inferior, aquilo que precisa de ser ultrapassado para aceder ao mistério.
- Cria uma hierarquia vertical — Acima/abaixo substitui e apaga as dobras do dentro/com/entre.
- Transforma relação em crença — O vínculo com rios, montanhas, animais, ancestrais e lugares pode ser reinterpretado como “crença sobrenatural”, em vez de ser reconhecido como ontologia relacional.
- Facilita a colonialidade epistemológica — Muitos mundos espirituais-territoriais são lidos pelo olhar de cima do escadote como superstição, mito, animismo infantil ou folclore, precisamente porque não obedecem à separação entre natureza e transcendência.
O sobrenatural só se torna necessário quando a natureza já foi desencantada.
Que voltemos a considerar que o mistério não habita apenas acima da natureza, mas está entrelaçado, no rio, no corpo, no sonho, no animal, na montanha, no morto, na semente, na tempestade e no próprio território.

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