Escrever para não esquecer

A escrita como abrigo e sintoma.

Sinto as ideias a desintegrarem-se em pó.

Esquecimento.

Digo muitas vezes que escrevo para não me esquecer.

Como quem rabisca caracteres pretos numa página branca já cheia de ruído. Escrevo porque a memória parece viver encurralada por urgências, notificações, tarefas, promessas de organização, aplicações que registam tudo, calendários que substituem o ritmo, arquivos que prometem guardar aquilo que já não conseguimos digerir. Na verdade, vivemos num mundo onde quase nada nos ajuda a lembrar.

Escrevo porque sinto que, se não fixar alguma coisa, ela se perde. Desfeita em pó. Que mundo tivemos de perder para que lembrar se tornasse um ato tão solitário?

Porque memória é muito mais que armazenamento na cloud ou arquivo na estante, é muito mais que dados, notas, fotografias, provas, listas ou lembretes. Porque a memória funda não vive apenas na cabeça, habita na repetição, nos caminhos feitos a pé, nos nomes dados às plantas, nos mortos lembrados em voz alta, nas estações reconhecidas pelo corpo, nos lugares onde se sabe quando a água muda de cheiro, onde a terra fala por sinais que não cabem nas redes sociais. A memória ecológica não se guarda apenas, habita-se em ciclos e marés. Território, relação, continuidade, obrigação, parentesco em transmissão, repetição, ritual, escuta e repouso necessários para que a memória se torne corpo. É uma forma de permanecer responsável diante do que veio antes e do que ainda não nasceu.

A modernidade, na sua pressa de ser portátil, expansível, eficiente e uniforme, desaprendeu esta espessura. Empreende memórias sem lugar, pertença sem enraizamento, inteligência sem reverência e mobilidade aparentemente sem perda. Tudo deve poder ser deslocado, traduzido, extraído, convertido e optimizado velozmente e sem raiz, numa ilusão de que não há impactos ou consequências. Porém, há memórias que não sobrevivem à portabilidade acelerada, pois perdem consistência e desintegram-se. Há saberes, legados e heranças que precisam da pedra, montanha, rio, língua, avós, estação, enterro, canto, cerimónia, silêncio e repetição. Sempre a repetição. Há conhecimentos que não podem ser descarregados, pois são inseparáveis dos vínculos que os sustentam.

Se calhar a minha escrita é sintoma.

Não esqueçamos as muitas culturas de continuidade atacadas com tanta violência pelas invasões coloniais e neo-coloniais. Porque não lhe bastou ocupar terras, mas também interromper linhagens de memória, quebrar as línguas, deslocar as crianças, ridicularizar os rituais e profanar os lugares sagrados. Transformar o próprio território em recurso, os parentes em mão-de-obra, a floresta em propriedade, os rios em infraestrutura, as montanhas em mina e humilhar o espírito como superstição. O colonialismo sempre soube, mesmo quando fingia não saber, que a memória funda é força política.

Quem se lembra com o território não é tão facilmente capturado por mundos que prometem progresso enquanto devoram a vida.

Honrar as culturas guardiãs de memórias fundas é muito mais que celebrar “tradições”. É reconhecer formas de inteligência que sobreviveram a omnicídios, deslocamentos, catequizações, epistemicídios, escolarizações violentas e economias de morte. É reconhecer que muitos povos e comunidades guardam, ainda, uma memória territorial e ecológica que não é nostalgia, folclore ou pureza perdida. Em continuidades feridas, mas vivas. Uma memória que sabe que o sagrado não está fora do mundo, mas no modo como se responde ao mundo, de como se pede licença e se devolve, de como se sabe que a terra e cada lugar não são cenário da história humana, mas parente, arquivo vivo, corpo comum, testemunha e juiz.

A nossa cultura, pelo contrário, tornou-se muitas vezes uma cultura da actualização permanente e da infância prolongada. Sempre ligada, mas raramente vinculada. Regista tudo, mas lembra pouco e relaciona ainda menos. Informa-se sem se deixar transformar e desloca-se sem pedir licença. Consome futuros em nome de conveniências imediatas. E assim vai produzindo uma mente imatura … que se acha fora dos impactos reais, que exige acesso sem responsabilidade e novidades sem consequências, liberdade sem dívida, presença sem corpo, memória sem território. .

Deixámos de co-criar para consumir. E quem perde a memória do território torna-se mais facilmente governável pela velocidade de extracção.

A modernidade ensinou-nos a guardar tudo, mas desaprendeu as condições vivas do lembrar. A exaustão contemporânea é também alimentada por demasiados registos e pouca continuidade. Envoltos em muito ruído e estímulos e com ausência de transmissão lenta e enraizada. Andamos perdidos em arquivos excessivos na cloud e sem anciãs vinculadas que nos guiem no território. Dispersos em excessos de opinião e muito (muito, muito) pouca escuta. A mente ecológica precisa de repouso, de retorno e de demora, precisa de ciclos, de histórias contadas mais do que uma vez e de lugares revisitados até começarem a responder. Precisa de não ser arrancada a cada segundo por violentos puxões de atenção dispersa e vazia. Porque uma mente sempre interrompida dificilmente se torna responsável, constantemente a romper a continuidade.

E uma cultura sem memória funda torna-se perigosa, pois facilmente acredita que tudo começa consigo, que tudo lhe pertence, que a nada terá de prestar contas.

Quando digo que escrevo para não me esquecer, parece-me ser uma confissão de que venho de uma cultura que se esqueceu das suas próprias condições de lembrança e de memória anterior e além dos impérios. Escrevo porque já não há, à minha volta, suficientes fogueiras, ritos, pausas, aldeias, continuidades, escutas e territórios preservados que carreguem comigo aquilo que importa. Escrevo para não deixar que tudo se evapore na velocidade. Mas que a escrita não substitua a memória viva… que me devolva a ela. Que me faça lembrar que a memória é o que aceito voltar a servir, proteger, reparar e escutar.

Porque lembrar é uma prática de resistência, como quem se recusa a ser completamente capturado pela pressa. Podemos voltar a perguntar: que terra me lembra? Que mortos me habitam? Que águas sabem mais do que eu? Que histórias foram interrompidas para que eu pudesse viver como vivo? Que territórios continuam a guardar aquilo que os impérios tentaram apagar?

Escrevo para não me esquecer, para reaprender que a memória não é minha, que sempre foi relação, território, dívida e cuidado. É uma forma de continuar a pertencer sem possuir. Que em vez de apenas pó, sejamos húmus.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.