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Como chego aqui
Investigação incorporada, pedagógica, ecológica, ética e quotidiana.
A Month’s Darning by Enoch Wood Perry, Original public domain image from The MET
Gosto de me situar com honestidade e, no início de cada (des)formação, digo sempre: não sou psicóloga. Não tenho esse diploma, nem me apresento como terapeuta clínica ou como alguém que vem substituir esse campo profissional. Digo isto não como uma confissão de insuficiência, mas como uma questão de rigor, cuidado e responsabilidade. Não falo a partir da clínica psicológica, mas de uma aprendizagem e investigação incorporada, pedagógica, ecológica, ética e quotidiana.
A vulnerabilidade que isto me traz é real. Pois vivemos numa cultura que reconhece mais facilmente a especialização certificada do que a experiência incorporada, o estudo independente, a atenção quotidiana ou a maturação lenta de uma relação com o mundo. Interrogo precisamente que formas de saber são autorizadas e outras diminuídas, e o que perdemos quando só reconhecemos como válido aquilo que cabe nos regimes formais de legitimação.
A minha relação com a ecopsicologia nasce deste corpo-lugar, da experiência diária de viver num tempo em que a crise ecológica deixou de ser uma ideia distante e passou a atravessar o corpo, o sono, o amor, a maternidade, a imaginação e como conseguimos, ou não, estar no mundo.
Chego como alguém com muitas perguntas, a quem alguns poderiam chamar de “muito sensível”, que estuda continuamente estes campos desde há quase duas décadas, fazendo formações, investigando-os com seriedade, cruzando-os com educação profunda, pensamento decolonial e ecológico, crítica da modernidade, espiritualidade imanente, luto climático, ética relacional e práticas de presença; e acompanhando outras pessoas nos seus processos, seja em aulas ou sessões individuais. Mas chego também como alguém que vive isto na pele dos dias e das estações, nas tempestades internas e externas, nas violências passadas e futuras.
A minha aproximação à ecopsicologia passa pela reverência quotidiana pelos dentes-de-leão que irrompem no alcatrão. Pela escuta de uma ribeira contaminada que, mesmo ferida, continua a correr. Pelo amor às minhas filhas. Pelos terrores cataclísmicos que, a cada mês, me atravessam com uma nitidez quase insuportável quando imagino o futuro delas (sim, porque o que já é presente devastador em muitos lugares, aqui ainda parece futuro). Pela tristeza de habitar um mundo ferido. E também pela estranha, humilde e persistente possibilidade de ainda estarmos aqui.
Ainda estamos aqui.
Caramba…. AINDA ESTAMOS AQUI!
Num mundo imperfeito, devastado, contraditório, belo, contaminado e profundamente vivo. Um mundo onde todos os dias somos chamados não apenas a “gerir emoções”, mas a reaprender o que significa ser humano em conjunto, com outros humanos, com os lugares e os ciclos, com os seres não-humanos, com as ruínas e com as possibilidades que ainda respiram.
Também quero dizer com clareza que a forma como abordo estes temas não assenta nas fantasias neoliberais da responsabilidade individual, nem na ideia de que a resposta à crise ecológica passa apenas por escolhas de consumo, estilos de vida verdes ou aperfeiçoamento pessoal. Isso, muitas vezes, é parte do próprio problema.
A ecopsicologia que me interessa não serve para nos tornarmos indivíduos mais ajustados a um mundo em colapso ou salvadores de alguma coisa. Serve para começarmos a sentir a profundidade da separação que herdámos e para percebermos que a nossa dor não é privada. Para reconhecermos que muito do que chamamos ansiedade, luto, impotência ou desorientação pode ser também uma forma de contacto com a realidade.
Nada disto significa romantizar o sofrimento, nem transformar a dor ecológica numa identidade. Significa abrir espaço para perguntas fundas: que tipo de mundo produz esta dor? Que estruturas, histórias, economias e formas de vida nos trouxeram até aqui? E que outras formas de presença, responsabilidade, comunidade e pertença ainda podemos praticar, mesmo sem garantias?
Por isso, a minha abordagem à ecopsicologia, seja em (des)formações, acompanhamentos individuais ou em supervisão, não é, nem vem de, uma formação clínica em psicologia. É um percurso de aprendizagem, desaprendizagem e investigação relacional. Um compromisso e um convite a pensar, sentir e praticar a ecopsicologia como campo vibrante e vivo, pelos meandros do corpo e do território, entre a crise íntima e a crise civilizacional, pelo meio do luto e da imaginação, entre aquilo que foi despedaçado e o que ainda pode ser cuidado.
Não ofereço respostas simples. Mas podemos chegar a uma clareira onde possamos, com rigor e ternura, ficar com algumas perguntas difíceis. Juntas.

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