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Há coisas só humanas?
A pergunta parece inocente, até legítima, mas carrega uma armadilha antiga. A constante tentativa de salvar um último território de excepção humana. Preservar um pequeno recinto onde a psicologia possa continuar a trabalhar como se o indivíduo fosse um sistema fechado, separado do mundo, das águas, dos alimentos, dos ritmos, das tecnologias, da linguagem, das instituições, dos ancestrais, das violências e dos lugares que o constituem.
A pergunta quer saber se a ecopsicologia “serve” para os problemas verdadeiramente humanos, como se a vida humana pudesse alguma vez ter acontecido fora da ecologia.
Este é um sintoma, a dificuldade moderna de abrir a porta ao desencantamento, de aceitar que aquilo que chamamos “humano” nunca foi apenas humano. A ansiedade, a vergonha, a depressão, a culpa, o desejo, a dissociação, a solidão, a sensação de insuficiência, a obsessão por controlo, até a ideia de “autoconhecimento”, emergem em campos vivos — familiares, sociais, políticos, económicos, tecnológicos e inevitavelmente ecológicos. O indivíduo moderno foi treinado para se imaginar como centro e origem da sua própria experiência, mas esta autonomia é uma ficção neurocolonizada, uma forma de cortar os fios para depois chamar “interioridade” ao emaranhado amputado. A psicologia tradicional tende a colocar o indivíduo no centro, enquanto o auto-cuidado moderno posiciona o eu como separado da comunidade e negligencia a responsabilidade relacional.
A ecopsicologia não desvia o olhar do indivíduo; recusa é empobrecê-lo.
Não diz que a dor humana “é só ecológica”, nem dissolve a experiência singular numa totalidade abstracta. Pelo contrário, devolve o valioso contexto, corpo, lugar e mundo ao que a modernidade isolou como sintoma privado. A pergunta “e os problemas exclusivamente humanos?” pode ser uma forma de manter intacto o edifício normopático que separa psique e planeta, trauma e território, corpo e história, sofrimento e estrutura-é uma pergunta-sintoma da nossa real dificuldade e falta de referências em imaginar para além do indivíduo.
É também uma defesa contra a perda do encantamento moderno, este mundo onde o humano se julga excepcional, objectivo, separado, e sempre mais importante do que a teia que o sustenta.
Mas trabalhar terapeuticamente não precisa de significar fechar a porta ao não-humano para proteger a intimidade da pessoa. Pode justamente significar escutar como esta intimidade foi moldada por relações que excedem o humano sem o apagar. Há problemas profundamente humanos, sim. Mas não há problemas humanos sem solo, sem ar, sem linguagem, sem economia, sem memória, sem espécie, sem clima, sem casa, sem mundo.
O que a ecopsicologia oferece não é uma fuga do humano… é a possibilidade de finalmente o escutar inteiro.
Referências:
- Batalha, Sofia. “Hiper-individualismo ou Individualismo Colectivo.” 5 de dezembro de 2025.
- Bednarek, Steffi, ed. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2024.
- Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, and Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association, 2024.
- Dodds, Joseph. Psychoanalysis and Ecology at the Edge of Chaos: Complexity Theory, Deleuze|Guattari and Psychoanalysis for a Climate in Crisis. London: Routledge, 2011.
- Fisher, Andy. Radical Ecopsychology: Psychology in the Service of Life. 2nd ed. Albany: State University of New York Press, 2013.
- Jordan, Martin. Nature and Therapy: Understanding Counselling and Psychotherapy in Outdoor Spaces. London: Routledge, 2015.
- Kahn, Peter H., Jr., and Patricia H. Hasbach, eds. Ecopsychology: Science, Totems, and the Technological Species. Cambridge, MA: MIT Press, 2012.
- Roszak, Theodore. The Voice of the Earth: An Exploration of Ecopsychology. New York: Simon & Schuster, 1992.
- Simpson, Leanne Betasamosake. As We Have Always Done: Indigenous Freedom through Radical Resistance. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017.
- Staunton, Tree, Jenny O’Gorman, Judith Anderson, and Caroline Hickman, eds. Being a Therapist in a Time of Climate Breakdown. London: Routledge, 2024.
- Wahinkpe Topa (Four Arrows), and Darcia Narvaez. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2022.
- Watkins, Mary, and Helene Shulman. Toward Psychologies of Liberation. New York: Palgrave Macmillan, 2008.

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