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Há coisas só humanas?

 

A pergunta parece inocente, até legítima, mas esconde uma armadilha antiga. A constante tentativa de salvar um último território de excepcionalidade humana—o humano como diferente e superior, elevado acima do resto da vida.

Na verdade, a psicologia ocidental nasce dentro desta armadilha. Tenta preservar o pequeno recinto onde se continua a trabalhar como se o indivíduo fosse um sistema fechado, separado do mundo, das águas, dos alimentos, dos ritmos, das tecnologias, da linguagem, das instituições, dos ancestrais, das violências e dos lugares que o constituem.

A pergunta. “há coisas só humanas?”, quer saber se a ecopsicologia “serve” os problemas verdadeiramente humanos, como se a vida humana pudesse alguma vez acontecer fora da ecologia.

Este é um sintoma localizado, esta dificuldade moderna de abrir a porta ao entrelaçamento, de aceitar que aquilo que chamamos “humano” nunca foi apenas humano. A ansiedade, a vergonha, a depressão, a culpa, o desejo, a dissociação, a solidão, a sensação de insuficiência, a obsessão por controlo, até a ideia de auto-conhecimento, emergem em campos vivos — familiares, sociais, políticos, económicos, tecnológicos e inevitavelmente ecológicos.

Mas o indivíduo moderno tem sido treinado para se imaginar como centro e origem da sua própria experiência, só que esta autonomia é uma ficção neurocolonizada, uma forma de cortar os fios para depois chamar “interioridade” ao emaranhado amputado. A psicologia normativa ocidental tende a colocar o indivíduo no centro, enquanto o auto-cuidado moderno posiciona o eu como separado da comunidade e negligencia a responsabilidade relacional.

A ecopsicologia não desvia o olhar do indivíduo, recusa é empobrecê-lo.

A Ecopsicologia Relacional não diz que a dor humana “é só ecológica”, nem dissolve a experiência e identidade singular numa totalidade abstracta. Muito pelo contrário, devolve o valioso contexto, corpo, lugar e mundo ao que a modernidade isolou como sintoma privado. A pergunta “e os problemas exclusivamente humanos?” tenta manter intacto o edifício normopático que separa psique e planeta, trauma e território, corpo e história, sofrimento e estrutura—é uma pergunta-sintoma genuína, que reflecte a nossa real dificuldade e falta de referências em imaginar para além do indivíduo.

Mas esta pergunta é também uma subtil defesa contra a perda do encantamento moderno, este mundo onde o humano se julga excepcional, objectivo, separado e sempre inevitavelmente importante do que a teia que o sustenta.

Mas a terapia não significa fechar a porta ao não-humano para proteger a intimidade ou a definição do sujeito. Pode justamente significar escutar como esta intimidade tem sido moldada por relações que excedem o humano sem o apagar.

Porque, claro, há problemas profundamente humanos. Mas não há problemas humanos sem solo, sem ar, sem linguagem, sem economia, sem memória, sem espécie, sem clima, sem casa ou sem mundo.

O que a ecopsicologia oferece não é uma fuga do humano… mas a possibilidade de finalmente o escutar inteiro, como parte integrante da rede viva.

Ora escuta e nomeia silenciosamente tudo o que te está a sustentar neste momento. Electricidade. Cabos submarinos. Água. Minerais. Trabalho invisível. Árvores cortadas. Comida. Agricultores. Satélites. Fungos no solo. Oceanos. Polinizadores. Lítio. Corpos cansados. Nuvens.

Onde termina o “eu”? Nunca estiveste só. Apenas muito bem separado.

Talvez o desafio não seja falta de informação, mas excesso de separação.

Referências:

  • Batalha, Sofia. “Hiper-individualismo ou Individualismo Colectivo.” 5 de dezembro de 2025.
  • Bednarek, Steffi, ed. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2024.
  • Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, and Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association, 2024.
  • Dodds, Joseph. Psychoanalysis and Ecology at the Edge of Chaos: Complexity Theory, Deleuze|Guattari and Psychoanalysis for a Climate in Crisis. London: Routledge, 2011.
  • Fisher, Andy. Radical Ecopsychology: Psychology in the Service of Life. 2nd ed. Albany: State University of New York Press, 2013.
  • Kahn, Peter H., Jr., and Patricia H. Hasbach, eds. Ecopsychology: Science, Totems, and the Technological Species. Cambridge, MA: MIT Press, 2012.
  • Roszak, Theodore. The Voice of the Earth: An Exploration of Ecopsychology. New York: Simon & Schuster, 1992.
  • Simpson, Leanne Betasamosake. As We Have Always Done: Indigenous Freedom through Radical Resistance. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017.
  • Staunton, Tree, Jenny O’Gorman, Judith Anderson, and Caroline Hickman, eds. Being a Therapist in a Time of Climate Breakdown. London: Routledge, 2024.
  • Wahinkpe Topa (Four Arrows), and Darcia Narvaez. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2022.
  • Watkins, Mary, and Helene Shulman. Toward Psychologies of Liberation. New York: Palgrave Macmillan, 2008.

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