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Quando não é um problema de comunicação
Mas identidade em crise
Há inúmeros estudos e artigos sobre a dificuldade de comunicar realidades difíceis ou complexas. Mas aqui quero trazer que talvez a dificuldade não esteja apenas em comunicar melhor a ecopsicologia, a policrise ou a abertura a outras cosmologias. Mesmo que encontremos as palavras mais claras, metáforas mais acessíveis ou uma pedagogia mais eficaz, as dificuldades persistem.
Falo de uma incompreensão que não nasce da falta de informação, mas da ameaça que essa informação faz à estrutura identitária que nos sustenta—o que reconhecemos como eu.
No contexto da ecopsicologia, quando dizemos que a psique nunca foi apenas humana, que o sofrimento individual é também ecológico, histórico, relacional e político, não estamos a acrescentar contexto ou camadas. O que pode surgir é um abalo tectónico da própria fantasia moderna de separação. E esta fantasia não é superficial, mas toda uma estrutura interna, onde muitos de nós aprendemos a reconhecer-nos como indivíduos, sujeitos racionais, autónomos, neutros, objectivos e separados do mundo que observam.
Este torna-se um encontro directo com uma defesa civilizacional, porque não é sobre tentar comunicar conteúdos difíceis. Mas tocar numa camada funda onde a identidade moderna se protege de perder o seu chão: “eu sou separado”, “eu vejo a realidade como ela é”, “a minha cultura é neutra”, “ecologia é ambiente lá fora”, “psicologia é o humano cá dentro”. Quando esta estrutura é perturbada, a resposta pode vir como estupefacção, confusão, intelectualização, acusação de abstracção ou assoberbamento.
Não porque o conteúdo seja necessariamente demasiado abstracto—afinal estamos a regressar ao corpo-lugar vivo–, mas porque ameaça tornar visível o que estava invisível.
Por isso, a abertura a outras cosmologias não é leve ou “uma questão de comunicação” intercultural ou de linguagem inclusiva. Porque pode despoletar uma crise existencial, empurrando-nos a perder o mundo onde nos julgávamos centro, medida e excepção. Obrigando-nos a confrontar que o que chamávamos “humano” se sustentava por exclusões, seja da Terra, dos corpos, como dos outros seres, dos povos considerados “menos racionais”, dos saberes locais, das histórias que a modernidade classificou como crença, mito ou atraso. Mas também pode parecer abstracto como consequência de uma perda civilizacional de vocabulário, contacto, ritual, lugar e experiência directa.
A policrise dos problemas super-perversos não desafia apenas os nossos modelos políticos ou económicos. Atropela a identidade produzida por esses modelos e instituições. Não estamos perante uma falha de literacia, mas na presença de uma profunda ferida ontológica. O sujeito moderno é convidado a reconhecer que nunca esteve fora da teia viva, que nunca pensou sem corpo ou lugar, e que nunca foi independente. A sua liberdade, como a imaginou, pode ter sido construída sobre uma violenta amputação relacional.
Afinal, a dificuldade talvez não esteja apenas no conteúdo. Pode haver partes de nós que escutam “ecologia” e pensam logo em árvores, reciclagem ou natureza exterior, ou mesmo em algo abstracto, ou filosófico. Ou quando escutamos “outras ontologias e cosmologias” e sentimos que entrámos num território demasiado abstracto.
Sim, pode parecer abstracto, pois fomos ensinadas a sentir ecologia como algo fora da vida íntima, afinal, aprendemos que o nosso sofrimento é só nosso. E ao escutar “o humano nunca foi apenas humano” a mente ressente-se: “mas então onde fico eu?” Estas reacções não são um erro, mas sintoma. Timidamente, começamos a reconhecer que a psicologia nunca esteve fora da ecologia. É que nem precisamos de acreditar em nada disto, só precisamos de reparar no que acontece quando outras possibilidades são colocadas—o que surge primeiro? Resistência? Alívio? Irritação? Cansaço? Confusão? Medo de perder o foco no indivíduo?
O problema não é sentirmo-nos assoberbados, mas a cultura que nos deixou sem músculos para sentir interdependência.
Isto porque a modernidade não vive apenas nas ideias que defendemos. Vive também nas perguntas que conseguimos fazer, nos limites do que nos parece realista, nas coisas que sentimos como óbvias, ridículas, densas ou impossíveis. Por isso, quando tudo te parece assoberbante, talvez não seja só por haver demasiados conceitos. Talvez seja porque estamos a tocar numa estrutura naturalizada que nos ensinou a separar, humano e natureza, corpo e mundo, indivíduo e sistema, psicologia e ecologia, razão e pertença. A pergunta pode começar a transformar-se: “que parte de mim precisa que a visão moderna continue a ser a única real?”
Afinal a negação também é uma ecologia
Em alguns contextos, não encontramos primeiro eco-ansiedade, eco-luto ou dor ecológica. Encontramos camadas anteriores, a da negação, intelectual ou visceral, de que a vida humana esteja ecologicamente implicada. Esta negação não é apenas ignorância, mas uma adaptação cultural. Protege o sujeito moderno de uma perda enorme: a perda da fantasia de separação.
Curiosamente, quando a ecopsicologia parece “abstracta”, talvez estejamos diante de uma inversão, onde o mais concreto e material — corpo, lugar, ar, casa, alimento, território, ruído, calor, trabalho, água, pertença — se tornou difícil de sentir como psicológico, real ou visceral.
E o mais abstracto — o indivíduo isolado, neutro, universal, separado do mundo — tornou-se aquilo que chamamos “realista”. Desfazer esta inversão tem um potencial enorme de desaprendizagem.
Aqui na Ecopsicologia não dizemos que a tua experiência individual não é real, inválida ou inferior, mas perguntamos que relações a tornaram possível. Porque a ecopsicologia não tira o indivíduo do centro para o abandonar… tira-o do isolamento para o devolver ao mundo. Porque o indivíduo não desaparece quando ganha contexto, ganha corpo, lugar e mundo.
Referências
- Andreotti, Vanessa Machado de Oliveira. Hospicing Modernity: Facing Humanity’s Wrongs and the Implications for Social Activism. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2021.
- Batalha, Sofia. “Hiper-individualismo ou Individualismo Colectivo.” 5 de dezembro de 2025.
- Bednarek, Steffi, ed. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2024.
- Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, and Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association, 2024.
- Dodds, Joseph. Psychoanalysis and Ecology at the Edge of Chaos: Complexity Theory, Deleuze|Guattari and Psychoanalysis for a Climate in Crisis. London: Routledge, 2011.
- Johnson, Michelle Cassandra. Finding Refuge: Heart Work for Healing Collective Grief. Boulder, CO: Shambhala Publications, 2021.
- Johnson, Rae. Embodied Activism: Engaging the Body to Cultivate Liberation, Justice, and Authentic Connection. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2023.
- Narvaez, Darcia. Neurobiology and the Development of Human Morality: Evolution, Culture, and Wisdom. New York: W. W. Norton, 2014.
- Simpson, Leanne Betasamosake. As We Have Always Done: Indigenous Freedom through Radical Resistance. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017.
- Staunton, Tree, Jenny O’Gorman, Judith Anderson, and Caroline Hickman, eds. Being a Therapist in a Time of Climate Breakdown. London: Routledge, 2024.
- Topa, Wahinkpe (Four Arrows), and Darcia Narvaez. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2022.
- Vergès, Françoise. A Decolonial Feminism. Translated by Ashley J. Bohrer. London: Pluto Press, 2021.
- Watkins, Mary, and Helene Shulman. Toward Psychologies of Liberation. New York: Palgrave Macmillan, 2008.

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