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O Eco-Fascismo NUNCA será Ecológico

 

Quero tocar em algo que me incomoda.. como sempre faço aliás. Desta vez trago a longa tradição eurocêntrica, meio invisível, mas muito viva do eco-fascismo.

O eco-fascismo emerge historicamente da fusão entre nacionalismo étnico, romantização da “natureza pura” e políticas autoritárias de controlo populacional, tendo antecedentes claros no movimento Blut und Boden (“Sangue e Solo”) da Alemanha nazi, onde terra, raça e identidade nacional eram tratados como uma unidade orgânica a proteger de “contaminação”.

O eco-fascismo é muito mais presente e está muito mais vivo do que posso parecer à primeira vista. O fascismo quer vestir a pele da Terra, mas sem entrar no seu metabolismo. Quer raízes sem micélio, floresta sem decomposição, comunidade sem diferença, pertença sem reciprocidade, limite sem justiça, sobrevivência sem luto, ordem sem escuta… E por isto mesmo, nunca é ecológico… porque a ecologia começa onde a fantasia de pureza se desfaz.

Para detectar como está vivo em nós, seguem-se alguns exemplos de frases e posicionamentos que parecem “ecológicos”, mas carregam lógica eco-fascistas (quem sabe até te podes identificar de tão normalizadas que estão):

  • “O planeta estaria melhor sem tanta gente.” — Parece uma preocupação ecológica, mas frequentemente desloca a atenção das estruturas coloniais, capitalistas e massivamente extractivistas para a existência de certos corpos humanos, sobretudo pobres, racializados ou do Sul Global.
  • “Temos de proteger os nossos recursos dos imigrantes.” — A crise ecológica transforma-se em justificação para fronteiras militarizadas e nacionalismo ecológico, onde água, terra ou segurança climática são pensadas como propriedade exclusiva de um povo e não como ecologia comum.
  • “A natureza funciona por selecção natural; os mais fortes sobrevivem.” — Usa uma leitura distorcida da ecologia para naturalizar hierarquia, competição constante, abandono social e violência, apagando cooperação, mutualismo e interdependência, que são igualmente centrais nos sistemas vivos.
  • “As populações indígenas sabiam viver em harmonia porque eram puras e próximas da natureza.” — Apesar de parecer elogiosa, pode congelar povos indígenas numa fantasia essencialista e anti-histórica, transformando-os em símbolos ecológicos em vez de povos vivos, complexos, diversos e contemporâneos.
  • “Precisamos de ordem e disciplina para salvar o planeta.” — À primeira vista parece pragmático, mas pode abrir caminho a soluções tecnocráticas, autoritárias e sacrificiais que ignoram justiça, pluralidade e participação colectiva.

O fio comum é quando a ecologia deixa de ser relação e responsabilidade partilhada e passa a ser pureza, controlo, triagem humana ou gestão violenta da escassez, começa a deslizar para imaginários ecofascistas.

*

Pois bem…  o ecofascismo é “eco” apenas como estética, medo ou gestão de recursos, mas é fascista na sua ontologia. Usa a linguagem da Terra, da sobrevivência, da pertença e da pureza, mas não suporta aquilo que a ecologia realmente exige, coisas como a interdependência, mistura, reciprocidade, vulnerabilidade, limite, pluralidade e responsabilidade.

O artigo Weaponizing Nature, Naturalizing Violence formula isto com nitidez, esta ideia que certos movimentos de direita passaram de negar a crise climática para a instrumentalizar, não para “salvar a Terra”, mas para a salvar “para pessoas específicas” e contra a suposta força “poluidora” de pessoas racializadas. Ou seja, a natureza é convertida em fronteira, arma e tecnologia de exclusão.

A diferença profunda é que a ecologia pensa em relação e o fascismo pensa em purificação e exclusão.

A ecologia real sabe que os sistemas vivos são compostos por complexas interdependências impuras, simbioses, decomposição, diversidade, perturbação, mutualidade e conflitos. O fascismo, pelo contrário, deseja um corpo social limpo, uno, homogéneo, obediente, imune ao outro. Onde a ecologia encontra mistura contaminação fértil em redes e limites recíprocos, o fascismo vê infeção e contágio hierárquicos e sonha com o domínio.

A partir da lente da neurocolonização, isto torna-se ainda mais claro. Ahenakew, Stein, Andreotti e co-autores descrevem a separabilidade como uma alienação imposta, que sacrifica a nossa incorporação no metabolismo vivo da Terra. Esta separabilidade corta os humanos da natureza, uns dos outros, de si mesmos e das suas responsabilidades, criando hierarquias entre espécies, culturas e indivíduos. Em contraste, o paradigma do entrelaçamento reconhece a interconexão inseparável com a teia mais ampla da vida. O fascismo é uma intensificação extrema da separabilidade, deste perverso “nós” contra “eles”, corpo puro contra corpo infecto, território próprio contra vida excedente.

Por isto mesmo, o ecofascismo não é uma ecologia radical, mas uma ecologia capturada pela ferida fascista da separação. Por vezes, até reconhece haver colapso ecológico, mas responde com a gramática do domínio, pela triagem, sacrifício, expulsão, controlo reprodutivo, militarização de fronteiras, privatização da água, da terra, da comida, da mobilidade.

A crise ecológica deixa de ser uma crise de relações despedaçadas e torna-se a desculpa para decidir quem merece viver.

O fascismo tem uma relação necropolítica com a vida ao amar uma Natureza abstracta, mítica, monumental, materna ou nacional, mas odeia a vida concreta quando ela é migrante, racializada, empobrecida, queer, deficiente, mestiça, excessiva, imprevisível ou indomesticável. Ama a floresta como símbolo da pátria, mas não necessariamente como assembleia viva de fungos, animais, decompositores, bactérias, águas, incêndios, sementes e povos. Ama a “Terra” enquanto propriedade identitária, mas não enquanto parente que descentra o humano.

Blume ajuda a fazer o contraste com outras perspectivas, nomeadamente indígenas. Ele refere que estas cosmologias trazem a Criação no centro da existência. As relações com a Criação estão no centro da saúde e do bem-estar e as relações não indicam hierarquia, mas pertença. Blume é explícito ao dizer as hierarquias produzem desequilíbrio num sistema interdependente: não há saúde psicológica em usar ou ferir outros para ganho próprio e respeitar a Criação implica respeitar todas as entidades como sagradas e interligadas. Isto é o inverso da lógica fascista:

  • O fascismo pode considerar-se naturalista, mas não ecológico. Pode invocar solo, sangue, floresta, animalidade, ordem natural, fertilidade, tradição, raízes. Mas fá-lo para fixar identidades e legitimar hierarquias.
  • Pode ser ambientalista, mas não ecológico. Pode defender conservação, austeridade, ruralidade, anti-consumo ou limites populacionais. Mas se o faz sem justiça, sem memória colonial, sem reparação e sem reciprocidade, transforma a ecologia numa administração violenta da escassez.
  • Pode falar de interdependência, mas não a suporta. Porque a interdependência verdadeira desfaz o centro soberano, obriga a responder pelo impacto, exige coexistência com diferença, impõe limites ao poder e revela que ninguém se salva sozinho.
  • Pode amar a Terra como mãe, mas não a escuta como sujeito. A Terra torna-se cenário, propriedade, origem mítica ou corpo feminino a proteger/controlar, não parente, agente, comunidade viva ou campo de obrigações recíprocas.

A ideia de Pluriverso lembra que a comunidade pode ser capturada por xenofobia, patriarcado ou paróquia, e por isso precisa de ser pensada criticamente, como processo vivo, inclusivo e relacional, não como essência fechada. O pluriverso é definido como “um mundo onde cabem muitos mundos”, em oposição à universalidade eurocêntrica e às falsas soluções que repetem a lógica do Um. O fascismo é precisamente uma máquina de monocultura e anti-pluriversal, pois só tolera um mundo, um povo, uma ordem, uma história, um corpo legítimo.

Na verdade o eco-fascismo é a tentativa de responder ao colapso ecológico sem abandonar e muito menos reconhecer a ontologia que o produziu: separabilidade, supremacia, escassez, propriedade, pureza e subjugação. Por isso, não é uma ecologia da vida, mas uma gestão da morte com vocabulário verde.

Deixo um pequeno eixo comparativo:

EcofascismoEcologia viva
Natureza como pátriaTerra como parente
Pureza identitáriaDiversidade interdependente
Fronteira e exclusãoRelação e responsabilidade
Escassez militarizadaLimites partilhados e justiça
Corpo social homogéneoComunidade plural e situada
Hierarquia naturalizadaMutualidade e reciprocidade
Sobrevivência dos “nossos”Continuidade da teia da vida
Morte sacrificial dos outrosReparação das relações quebradas


Há fascismos que se pintam de verde, mas a vida não cresce na pureza. Cresce no húmus, na mistura, no parentesco difícil, na diferença que obriga a maturidade.

Uma ecologia que precisa expulsar, purificar ou sacrificar para existir já deixou de ser ecologia: tornou-se medo organizado contra a vida.

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Referências:

  • Ahmann, Chloe, Mona Bhan, Alexandra Coțofană, Radhika Govindrajan, Julia Leser, Zeynep Oguz, Yuka Suzuki, and Noah Theriault. “Weaponizing Nature, Naturalizing Violence: Anthropologies of Ecofascism.” American Anthropologist (2025): 1–13. https://doi.org/10.1111/aman.70043.
  • Ahenakew, Cash, Sharon Stein, Vanessa Andreotti, Ninawa Inu Huni Kui, Lisa Taylor, Stacey Prince, Jaya Ramesh, Chelsea Williams, Rene Suša, Rose Vukovic, and Claudia Diaz-Diaz. “Decolonizing Mental Health in the Polycrisis: Pathways Toward Neuro-Decolonization.” American Psychologist 80, no. 8 (2025): 1297–1312. https://doi.org/10.1037/amp0001540.
  • Blume, Arthur W. A New Psychology Based on Community, Equality, and Care of the Earth: An Indigenous American Perspective. Santa Barbara, CA: Praeger, 2020.
  • Kothari, Ashish, Ariel Salleh, Arturo Escobar, Federico Demaria, and Alberto Acosta, eds. Pluriverse: A Post-Development Dictionary. New Delhi: Tulika Books, 2019.
  • Four Arrows, and Darcia Narvaez. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2022.
  • Machado de Oliveira, Vanessa. Outgrowing Modernity: Navigating Complexity, Complicity, and Collapse with Accountability and Compassion. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2025.
  • Batalha, Sofia. Preparação e Aprofundamento Sessão 5 EcoPsi EDT: Psicologias Indígenas. Material pedagógico interno do Curso de Introdução à Ecopsicologia, 2026.

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