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O Tabu e o Assoberbamento
Evitamos tocar no que dói.
Trago uma das zonas mais delicadas da ecopsicologia em contextos relacionalmente erodidos, a realidade de que não estamos apenas perante falta de informação ecológica, mas num gigantesco embate em defesas da percepção. No tabu social de falar sobre a eco-ansiedade ou o eco-luto, de calar, envergonhar e humilhar as pesadas emoções ecológicas como sensibilidade em excesso.
Aqui, na modernidade, temos vindo a ser treinadas, durante décadas, geração após geração, a sobreviver numa realidade estreita… ser funcional, não sentir demais, não perturbar a família, não “dramatizar”, não falar da morte e muito menos do colapso, não tocar na colonialidade nem nomear a perda de mundos. E depois chegamos à ecopsicologia à espera de “nos sentirmos bem com a natureza”, porque esse é o único contrato emocional aceitável que a nossa cultura ainda tolera.
Mas, neste trilho ecopsicológico, não oferecemos a natureza como calmante ao indivíduo moderno. Aventuramo-nos a co-criar um caminho, lento e relacional, para desfazer a fantasia de que alguma vez estivemos separados.
A ecopsicologia despeja a realidade a conta-gotas sobre corpos privilegiados e anestesiados (ou seja, os que ainda não sentiram directamente na pele os impactos devastadores das múltiplas crises já aqui), numa arte de acordar da anestesia relacional. O que nos aconteceu para que a Terra, o ar, a água, o calor, o alimento, o ruído, o território e o futuro deixassem de ser sentidos como parte da sua vida psíquica? Para podermos criar lugares onde a dor do mundo possa finalmente deixar de ser uma ameaça silenciada, secreta e privada, tornando-se matéria de vínculo, lucidez e responsabilidade colectiva. Para que nos possamos abrir colectivamente às conversas difíceis.
Reconhecemos que o tabu é uma defesa colectiva e não uma falha individual
O tabu de falar da policrise não é apenas apatia ou ignorância. É uma defesa contra a dor, a impotência, a culpa, a vergonha histórica, a perda de futuro e o medo de que, se olharmos mesmo, a vida que conhecemos deixe de ser habitável. É um tabu que pesa toneladas de emoções não processadas.
A literatura sobre ansiedade e luto ecológico mostra que estas respostas não são patológicas em si mesmas, pois podem ser respostas razoáveis perante perdas ecológicas reais, antecipadas e desigualmente distribuídas. Cunsolo e colegas sublinham que a ansiedade e o luto ecológico emergem em relação a perdas físicas, perda de conhecimento ambiental e perdas futuros antecipados, e que estes impactos atingem de modo desigual povos indígenas, agricultores, jovens, cientistas do clima e outros grupos mais expostos.
A pergunta torna-se: como criamos colectivos suficientemente maduros para que sentir a realidade não seja vivida como colapso privado?
Que mundo teve de ser apagado para não sentires?
Em contextos de apatia e dissociação, perguntar directamente “o que sentes perante a crise climática?” pode ser desorientador, assustador e assoberbante. A negação e a defesa/ataque rapidamente assumem o controlo da situação sentida como ameaçadora. A verdade é que a dissociação é, muitas vezes, uma forma de sobrevivência. Pelo peso do tabu social, associado à densidade emocional de tudo isto, muitas de nós não temos ainda linguagem, corpo, comunidade ou autorização interna para responder. Mas tentemos perguntar de outra forma:
- “Quando ouves falar da crise ecológica, o que acontece no corpo?”
- “O que em ti quer mudar de assunto?”
- “Que parte tua acha que isto é exagero?”
- “Que lealdades familiares, culturais ou sociais te pedem para não sentir isto?”
- “O que seria demasiado doloroso reconhecer?”
A ecopsicologia não serve para “convencer”, mas para mapear defesas com ternura e precisão, para amparar e abraçar questões complexas e muito carregadas emocionalmente. Joseph Dodds, ao cruzar psicanálise e ecologia, trabalha precisamente neste limiar entre eco-ansiedade, negação, defesas, humor, culpa, dissociação, fantasia de controlo, clivagem e o modo como a crise ecológica confronta o sujeito moderno com limites que ele não sabe metabolizar.
Começamos pelas discrepâncias
Num contexto onde “ecologia” ainda parece abstracta, talvez o primeiro gesto seja revelar a inversão … pois o ar que respiramos, a água que bebemos, o ruído que nos atravessa, o calor que nos exaure, a comida que nos chega à mesa, a ansiedade sem causa aparente… são concretos! A casa, o salário, o território, o medo, o cansaço, o isolamento, o ecrã, o sono fragmentado, tudo isto é ecológico. E, no entanto, como tenho vindo a apontar, chamamos “real” ao indivíduo abstracto, isolado, autónomo, separado do mundo!
Só que a policrise nunca foi um tema lá fora, mas um campo relacional já presente nas nossas vidas e corpos.
Co-criar um Refúgio
Em contextos privilegiados e anestesiados, a verdade sem recipiente torna-se violência ou activa mais negação, sobrecarregando e levantando defesas e dissociação. Pela ecopsicologia podemos criar recipientes de escuta seguros, mas não confortáveis no sentido moderno. Que tragam verdade sem esmagar. Com gentileza e lentidão, sem adormecer ou dissociar.
Michelle Cassandra Johnson escreve sobre o luto colectivo como algo que a cultura ocidental tende a individualizar e a apressar… há pouco (ou nenhum) espaço para chorar perdas culturais, raciais, históricas e colectivas. Quando a dor aparece, é frequentemente tolerada por pouco tempo e, depois, devolvida ao indivíduo, “toma isto é só teu”. Isto cruza-se directamente com o tabu da policrise, pois não temos apenas medo da crise, perdemos foi cultura para ficar juntos quando a crise entra no corpo.
Por isso, uma prática ecopsicológica é um lugar onde podemos começar a sentir um pouco mais da realidade, sem termos de a carregar sozinhas.
Trabalhar a fantasia de “sentir bem com a natureza”
A expectativa de “sentir bem com a natureza” é compreensível, mas precisa de ser cuidadosamente complexificada. A natureza, quando deixa de ser cenário terapêutico, não é apenas calmante, é parente, corpo, ferida, alteridade, mistério, conflito, morte, alimento, decomposição, interdependência, perda e regeneração…
A ecopsicologia não nega a dimensão restaurativa ou inspiradora da natureza, mas abre a relação, possibilitando outras perguntas: “Que me pede este lugar?” “Que dor deste território ainda não sei escutar?” “Que parte de mim quer natureza sem mundo, sem conflito, sem política, sem perda?”
As psicologias pluriversais e decoloniais ajudam aqui porque recusam uma psicologia descolada de terra, história e poder. Afirmam claramente que a luta decolonial pela terra é também uma luta sobre sistemas de relações recíprocas e obrigações, e que a psicologia ocidental tem frequentemente ignorado a terra como nutriente da alma, da cultura, da comunidade e da identidade.
Porque a ecopsicologia não é terapia com paisagem bonita, mas uma reconfiguração da psique como território relacional, entre assombro, lutos, traumas, contaminações, destruições, encantamentos e muito amor.
A dissociação como perda de mundo, não como defeito moral
Em contextos coloniais, conservadores e normopáticos, muitas pessoas vestem uma armadura que não foi escolhida livremente; foi herdada, premiada e necessária para pertencer. Pela ecopsicologia, não queremos arrancar a armadura e ficar em carne viva, mas escutá-la e perguntar-lhe o que tem protegido.
Pois, talvez, esteja a impedir o contacto com a própria vida.
Digo muitas vezes em aula, que não há vergonha neste processo, não é falha ou erro pessoal, nem é uma acusação, mas a nomeação do nosso contexto colectivo. A pedagogia da policrise traz firmeza sem humilhar, porque a tua anestesia não é culpa tua. Mas agora que começas a vê-la, torna-se responsabilidade.
Fazer da dor uma competência colectiva
Camille Sapara Barton mostra que o luto não precisa de ser apenas algo privado ou clínico. Pode ser uma prática comunitária, uma força generativa, uma forma de criar intimidade, confiança e interdependência. Barton critica precisamente a tendência ocidental para ajudar as pessoas a “seguir em frente” e voltar à produtividade, em vez de reconhecer o luto como força de transformação e vínculo. É preciso cultivar e nutrir estas outras formas de relacionar com emoções densas, pois sem elas, a dor cristaliza-se em pânico, cinismo, colapso ou superioridade moral.
Com recipiente ou refúgio colectivo, a dor pode tornar-se vínculo, lucidez, ternura feroz, responsabilidade e acção localizada.
Isto é uma chave enorme para a Ecopsicologia, pois sentir a policrise não é o fim da capacidade de agir, mas pode ser o início de uma agência menos fantasiosa.
Ah, que bom que chegaste até aqui ❤️.
Re-educamos o sistema nervoso!
Talvez a função da ecopsicologia, nestes contextos, seja humilde e generosamente acompanhar uma travessia em camadas:
- Da natureza como cenário para a natureza como relação.
- Do bem-estar individual para a saúde relacional.
- Da ansiedade como problema privado para sintoma do campo de forças.
- Da crise como abstracção para o corpo-lugar-história.
- Da culpa paralisante para a responsabilidade situada.
- Da esperança como anestesia para o compromisso sem garantia.
- Da armadura para a porosidade com margens.
- Da dissociação fantasiosa para o contacto em transformação.
E isto precisa de ritmo e compromisso, de presença imperfeita, de coragem e alguma dose de loucura carinhosa, apesar do tabu e das cargas emocionais em que estes temas se enredam, e de estarmos assoberbadas. O relógio moderno exige “resultados”, só que acordar da anestesia não é produtividade. É uma reeducação do sistema nervoso, da imaginação e da pertença.
Bibliografia:
- Barton, Camille Sapara. Tending Grief: Embodied Rituals for Holding Our Sorrow and Growing Cultures of Care in Community. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2024.
- Bednarek, Steffi, ed. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2024.
- Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, and Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association, 2024.
- Cunsolo, Ashlee, Sherilee L. Harper, Susan Minor, Katie Hayes, Kimberley G. Williams, and Courtney Howard. “Ecological Grief and Anxiety: The Start of a Healthy Response to Climate Change?” The Lancet Planetary Health 4, no. 7 (2020): e261–e263.
- Cunsolo, Ashlee, and Neville R. Ellis. “Ecological Grief as a Mental Health Response to Climate Change-Related Loss.” Nature Climate Change 8 (2018): 275–281. https://doi.org/10.1038/s41558-018-0092-2.
- Cunsolo, Ashlee, and Karen Landman, eds. Mourning Nature: Hope at the Heart of Ecological Loss and Grief. Montreal: McGill-Queen’s University Press, 2017.
- Dodds, Joseph. Psychoanalysis and Ecology at the Edge of Chaos: Complexity Theory, Deleuze|Guattari and Psychoanalysis for a Climate in Crisis. London: Routledge, 2011.
- Doherty, Thomas. Surviving Climate Anxiety: Coping, Healing and Thriving on a Changing Planet. New York: Little, Brown Spark, 2025.
- Johnson, Michelle Cassandra. Finding Refuge: Heart Work for Healing Collective Grief. Boulder, CO: Shambhala, 2021.
- Johnson, Rae. Embodied Activism: Engaging the Body to Cultivate Liberation, Justice, and Authentic Connection. Berkeley, CA: North Atlantic Books, 2023.
- Parra-Valencia, Liliana, Saulo Fernandes, and Dolores Galindo. Psicología y descolonialidad: Saberes para curar en palenques y quilombos (Colombia-Brasil). Bogotá: Editorial Universidad Cooperativa de Colombia, 2022. https://doi.org/10.16925/9789587603637.
- Wray, Britt. Generation Dread: Finding Purpose in an Age of Climate Anxiety. New York: The Experiment, 2022.

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