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Quando o Calor Queima por Dentro
O que o calor extremo faz ao corpo, à psique e às relações.
Aqui, no território que habito, o calor tem deixado de ser apenas uma estação passando a ser uma presença que entra em casa, atravessa o sono, encurta a respiração e permanece no corpo mesmo depois do sol desaparecer. E sou alentejana, o meu corpo conhece desde sempre os caprichos do calor nos verões quentes, das sestas na hora do calor, das janelas fechadas para não deixar entrar calor e do alívio ainda quente das noites!
Sob temperaturas extremas, não é apenas a paisagem que perde água ou fluência …também nós perdemos repouso, concentração, paciência e capacidade de fluir com o que sentimos. A irritabilidade, o cansaço, o burnout, a ansiedade e a sensação de cerco não são falhas individuais perante o Verão, mas respostas de organismos obrigados a viver para além dos seus limites ecológicos.
O calor altera o bem-estar emocional, perturba o sono e parece interferir nos sistemas fisiológicos que participam na regulação do humor e da atenção.
Porque quando o mundo aquece, a psique não permanece fresca e intacta, a observar de longe.
Há estudos (vê abaixo uma lista que podes querer ler) que associam as temperaturas elevadas ao aumento da raiva, da hostilidade, da impulsividade e de alguns comportamentos agressivos. Mas o calor não possui uma moral simples, nem transforma mecanicamente uma pessoa em violência—tal como o fogo, também ele exige que guardemos as suas múltiplas cambiantes. A evidência não é igual em todos os estudos, e nenhuma temperatura absolve escolhas, apaga relações de poder ou substitui a responsabilidade.
No entanto, o calor parece estreitar o espaço interior entre o estímulo e a resposta, pois torna o corpo mais cansado, a pele mais sitiada, o ruído mais intrusivo e o encontro com os outros mais difícil de metabolizar—fogo lento que consome energia, concentração, motivação e deixa lastro de irritação. As emoções extremas talvez sejam, neste contexto, emoções sem sombra, água, noite reparadora e sem espaço suficiente para assentarem. Não nascem apenas “dentro” de uma pessoa, da sua história e memória. Acontecem entre o corpo sobreaquecido, o quarto que não arrefece, o ambiente hostil, a perturbação do sono e um mundo que continua a exigir produtividade, contenção e normalidade.
O calor extremo também traz uma tristeza própria.
Há o luto pelas árvores queimadas de pé, pelas águas que recuam, pelos animais que procuram abrigo, pelas casas onde já não se consegue dormir e pelos lugares familiares que se tornam inabitáveis. Como refiro muito por aqui, estas são experiências de eco-ansiedade, luto ecológico, solastalgia ou trauma climático, embora o conhecimento sobre a relação específica entre calor e luto ainda esteja a formar-se.
Na verdade o que acho importante é não apressar estas emoções para as transformar em serenidade, adaptação ou resiliência individual.
Uma psique relacional não pergunta apenas como permanecer calma enquanto tudo aquece … pergunta quem não tem acesso à frescura, quem fica sozinho no calor, que vidas estão a ser empurradas para o limite e que relações precisamos de reconstruir para voltar a produzir sombra, humidade e frescura.
Porque o fogo no território é também o calor extremo que queima por dentro. E o que arde dentro de nós não está separado daquilo que está a morrer de sede e cinza à nossa volta. É uma continuidade entre corpo, território e emoção.
Referências de Estudos
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