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Metacrise eco-existencial
Crise existencial ecológico-relacional ou ruptura onto-relacional da existência – ou seja, estamos mega lixados.
Ao longo dos anos muitas pessoas me classificaram a mim e ao meu trabalho de “existencialista.” Uma categoria que não concordo em absoluto apesar de não negar o carácter melancólico de algumas partes de mim, sendo que outras são bastante raivosas e outras transbordam humor negro.
Mas vamos sair da hegemonia e exclusividade humana…
Apesar da diversidade de pensadores (bem, são maioritariamente homens brancos vá), esta noção eurocêntrica e moderna de crise existencial é demasiado circunscrita para nomear os campos vivos que nos atravessam.
Neste contexto ocidental, a ideia de crise existencial parte de um indivíduo eurocêntrico autónomo que perde o sentido, questiona a sua identidade ou confronta a mortalidade: Quem sou? Para que vivo? Como suportar a finitude? Mesmo quando fala de absurdo, alienação ou ausência de sentido, conserva o humano como centro da crise e o mundo como cenário onde a crise acontece. O que colide de frente com o corpo-lugar e psique ecológica em que somos co-tecidos.
A pergunta existencial clássica é: Como pode o indivíduo humano viver perante a morte, a liberdade e a ausência de sentido?
Mas a pergunta eco-existencial passa a ser: Como podem colectivos humanos e não-humanos continuar a fazer mundo quando estão a ser destruídas as relações ecológicas, territoriais, culturais e intergeracionais que tornam a existência possível?
O meu argumento não é apenas que o existencialismo se esqueceu da natureza, mas que tomou o indivíduo humano como unidade ontológica da crise, quando uma crise de extinção exige tomar como medida a relação, o território e o colectivo multiespécies. É inerentemente animista.
Porque quando a existência é compreendida ecológica e relacionalmente, não existe primeiro o indivíduo e só depois as suas relações. Cada um de nós é constituído por território, parentes humanos e não-humanos, língua, águas, mortos, histórias, práticas, obrigações e gerações futuras. A destruição destes vínculos não traz apenas sofrimento psicológico a um sujeito supostamente separado, ao atingir as próprias condições relacionais que permitem que alguém, comunidade ou espécie continue a existir como o que é. A crise deixa de ser sobre o sentido da vida e é uma crise das relações que fazem a vida possível e significativa.
E isto muda tudo.
Tudo.
T U D O.
Pois na timeline demente que partilhamos temos no horizonte próximo, o deslaçar e extinção da vida como a conhecemos (vê aqui, aqui e aqui). Por isso proponho chamar-lhe crise existencial ecológico-relacional ou, a ruptura onto-relacional da existência. Porque o que está ameaçado não é apenas o bem-estar, a identidade ou a sobrevivência biológica, mas o próprio modo de ser-com: quem pode ser parente, quem pode responder, quem pode transmitir memória, quem pode regressar, que mortos podem ser honrados e que futuros ainda podem nascer.
Estas são crises que nos deixam sem saber como continuar a viver, são rupturas fundas, em que a própria teia de relações que deixa de poder continuar a fazer mundos.
Quando desaparecem línguas, rios, espécies, cerimónias, caminhos ancestrais e responsabilidades de parentesco, não é apenas o humano que perde sentido. São interrompidas as relações pelas quais humanos e não-humanos se reconheciam, respondiam uns aos outros e transmitiam ciclos de vida. Esta não é uma crise existencial perante o colapso, mas uma ruptura onto-relacional, uma ferida nas condições partilhadas da existência. Extinção.
Da crise existencial à ruptura onto-relacional
A Crise existencial moderna é um legado eurocêntrico centrado no indivíduo humano, aquele que pergunta pelo sentido da “sua” vida. É frequentemente concebida como episódio biográfico, onde a morte individual constitui o horizonte principal e o sofrimento encontra-se “dentro” da pessoa. A resposta tende a ser autenticidade, escolha ou adaptação.
Mas a Ruptura existencial ecológico-relacional acontece no tecido de relações entre seres, lugares e tempos e pergunta pela continuidade de mundos partilhados. Pode durar gerações e ser produzida por estruturas coloniais continuadas, incluindo extinções biológicas, culturais, linguísticas, territoriais e cosmológicas. Este é um sofrimento que circula entre corpos, territórios, instituições, ancestrais e descendentes. A resposta exige reparação, restituição, responsabilidade e regeneração das relações.
Esta “metacrise eco-existencial” pode ser insuficiente se significar apenas a soma de muitas crises que ameaçam a humanidade, pois a policrise moderna nasce de uma separabilidade socialmente produzida — a ilusão de que os humanos existem fora do metabolismo vivo da Terra — e essa separabilidade é gravada nos modos de perceber, sentir, desejar e relacionar. Neste enquadramento, o colapso ecológico e o colapso psicológico não são duas crises paralelas, mas manifestações diferentes de uma mesma desorganização relacional.
A extinção deixa de ser pensada para além do desaparecimento final de uma espécie, pois começa muito antes da última morte…
quando um rio deixa de poder sustentar as relações que dependiam dele;
quando uma ave desaparece de uma cerimónia, de uma estação ou de uma língua;
quando uma planta medicinal permanece biologicamente viva, mas já não pode ser encontrada, colhida ou transmitida;
quando crianças deixam de aprender os nomes e as obrigações que ligavam a comunidade ao território.
Falamos de extinção das relações, nas suas camadas biológica, territorial, linguística, cultural, espiritual, intergeracional e imaginativa. O que morre não é apenas cada parte separadamente, mas a possibilidade de continuarem a constituir-se umas às outras.
Não nos esquecendo que a vulnerabilidade é partilhada, mas a responsabilidade não é simétrica. Falar da “crise da teia da vida” não deve dissolver colonialismo, capitalismo, supremacia humana e violência estatal numa humanidade abstrata. A teia pode estar ferida em conjunto, mas nem todos produziram a ferida, nem todos beneficiaram dela, nem todos sofreram os seus fins do mundo da mesma maneira. E a resposta, por isso, não pode limitar-se a ajudar indivíduos a tolerar psicologicamente um mundo intolerável. É preciso participar na interrupção das violências e na reparação das relações que ainda podem voltar a sustentar mundos.
Muda a unidade de análise da crise
Na crise existencial moderna, a unidade de análise é o indivíduo: a sua identidade, mortalidade, liberdade, escolha e perda de sentido. Numa metacrise eco-existencial, entendida como crise de extinção, a unidade mínima já não pode ser o organismo isolado, humano ou não-humano. Mas a relação que permite a continuidade da vida, entre uma espécie e o seu habitat, uma comunidade e o seu território, uma língua e os seres que ela nomeia, uma geração e as memórias que recebeu, uma planta e os polinizadores de que depende, os vivos e os mortos, o presente e os futuros possíveis. O colectivo, neste sentido, não é um conjunto de indivíduos, mas a comunidade multiespécies, territorial e intergeracional.
A metacrise eco-existencial deixa de ser uma categoria ampliada de sofrimento humano e torna-se uma categoria ecológica, política e relacional da existência.
A armadilha da angústia universal
A mente moderna ocidental critica automaticamente esta postura ao dizer “ah, mas todos os humanos têm crises existenciais”. O primeiro cuidado é distinguir entre uma vulnerabilidade existencial potencialmente partilhada e a alegação de que existe uma forma universal de viver, interpretar e responder a essa vulnerabilidade. Todos os seres vivos podem estar expostos à perda e à morte, mas daí não se segue que todas as culturas concebam a existência, a pessoa, a morte, o território ou o sofrimento da mesma maneira. O problema colonial começa precisamente quando uma experiência histórica e culturalmente situada — frequentemente a do indivíduo moderno, secularizado, separado do mundo e confrontado com a sua mortalidade — passa a ser apresentada como estrutura universal da condição humana.
Por isso não quero tomar a angústia existencial como uma experiência humana universal na sua forma moderna ocidental. Pode existir uma vulnerabilidade partilhada perante a morte, a perda e a descontinuidade, mas os seres que se entende estarem a morrer, as relações consideradas ameaçadas e as respostas eticamente exigidas variam entre ontologias, histórias e territórios. Para uma pessoa que se concebe como indivíduo autónomo, a crise pode surgir como perda privada de sentido. Mas para uma comunidade cuja existência se constitui através do território-corpo-casa, a destruição de um rio, de uma floresta, de uma língua ou de uma espécie pode significar a amputação das relações que permitem ao colectivo reconhecer-se, alimentar-se, recordar e continuar.
Universalizar ambas como “angústia humana” arrisca psicologizar a violência, apagar a colonialidade e reduzir a extinção de mundos a uma perturbação interior do indivíduo.
Temperaturas acima do 1.5º e ecossistemas destruídos em 2030
A angústia eco-existencial reconhece que a continuidade está ameaçada, e essa ameaça não é neutra, inevitável nem eticamente inocente. A crise de extinção não é apenas um perigo ecológico ou perda futura, mas uma ruptura ética das relações que constituem a vida colectiva.
Não falo de medo da extinção, mas da percepção de que podem desaparecer as relações que permitem a um colectivo humano e não-humano continuar a fazer mundos. Da extinção resultante de decisões conhecidas, sistemas extractivos, abandono institucional ou destruição deliberada. Não sofremos apenas porque a floresta pode morrer, mas porque está a ser morta, porque alguém beneficia dessa morte, porque as instituições que deveriam protegê-la participam na destruição e porque nós próprias podemos depender materialmente da ordem que a devora.
Referências
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Bednarek, Steffi, ed. 2024. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books.
Bhatia, Sunil, Jesica Siham Fernández, and Christopher C. Sonn, eds. 2026. Decolonial Psychology: Academic and Activist Perspectives. New York: Routledge. https://doi.org/10.4324/9781003492214.
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