
TEMPO DE LEITURA – 6 MINUTOS
“Não percebo nada do que dizes”
Ou a expectativa defraudada (que nem sabias que tinhas).
Se alguma vez sentiste que “não percebes nada” do que eu digo ou escrevo, este artigo é para ti. ❤️
Há anos que, principalmente com o público português, pessoas dizem-me frustradas: “Não percebo nada do que dizes”. Numa expectativa e exigência (inocente e invisível) e frustração (bem funda), como se algo estivesse desalinhado ou muito pouco claro. Naturalmente que não tem a ver com a incompreensão das palavras (muito menos comigo a assumir que sou sempre compreensível). Vejo-o mais como sintoma de que a compreensão está a ser feita por uma estrutura de sentido diferente daquela em que o pensamento foi construído.
Assim numa espécie de incomensurabilidade entre gramáticas. A leitura normativa (e não questionada, ao ser tida como a norma única) é feita pela estrutura e fluxo do indivíduo → problema → emoção → método/solução → ação. Contudo, eu falo de relações 🕸️ contexto 🕸️ postura e posicionalidade 🕸️ cumplicidade e implicação 🕸️ metabolismo e metamorfose 🕸️ habilidade de resposta (que pode ser uma pergunta e não uma conclusão fechada e bonita). Cada conceito que trago pode ser perfeitamente inteligível isoladamente e, ainda assim, o pensamento inteiro não tem onde pousar e criar raiz.
Repara que não tem a ver com falha, incapacidade ou limitação na capacidade de compreensão de cada um. Mas relaciona-se com hábitos culturais e educativos (normativos e invisíveis) de leitura, particularmente fortes no contexto português (que também atravessam, inevitavelmente, quem escreve, ou seja, eu também não estou fora deles). A incompreensão não é deficiência do leitor, mas um fenómeno relacional a investigar e a ter em conta.
A questão torna-se: “que hábitos de leitura e de produção de sentido fazem com que certas linguagens relacionais, sistémicas ou decoloniais sejam traduzidas imediatamente para categorias mais familiares?”
Abaixo, deixo uma lista de alguns destes hábitos e armadilhas que evitam (ou mesmo recusam) a compreensão do que escrevo. Atenção que não são falhas pessoais, mas invisíveis rotinas culturais:
Psicologização — a tendência normativa (e redutora) de traduzir questões históricas, culturais, políticas, ecológicas ou relacionais em estados psicológicos individuais. Uma questão sobre como estamos posicionados transforma-se facilmente em como nos sentimos.
Universalização — a procura imediata do que é “humano” e comum a todos. Embora possa criar identificação, esta manobra inconsciente também apaga as diferenças de contexto, história, poder, privilégio, vulnerabilidade e responsabilidade.
Descontextualização — ler uma ideia separada das suas condições históricas, sociais, económicas, ecológicas e políticas que lhe dão sentido. Sem contexto, conceitos relacionais tornam-se facilmente abstrações ou metáforas pessoais.
Individualização — procurar sempre o indivíduo como unidade principal de sentido: o que significa isto para mim? o que faço com isto? como me curo? Tornando muito mais desafiante de perceber fenómenos cuja unidade mínima não é o indivíduo, mas a relação, o sistema, o território ou o colectivo.
Despolitização — retirar as relações de poder do que está a ser dito. Dominação, colonialidade, classe, género, patriarcado, capitalismo ou antropocentrismo podem ser traduzidos em categorias aparentemente neutras, como comportamento humano, ego, trauma, medo ou falta de consciência.
Procura de identificação em vez de posicionamento ou postura — estamos muito habituados a perguntar “identifico-me com isto?”. Mas uma leitura relacional pede: “onde estou situado e como me relaciono, mesmo quando não me identifico com nenhuma das personagens que reconheço?”
Proteção da inocência — algumas leituras permitem compreender uma questão sem nos implicarmos nela. Mas, para mim, a implicação não é neutra nem opcional. É muito diferente reconhecer sofrimento, injustiça ou destruição e reconhecer as formas quotidianas pelas quais participamos em relações que, inadvertidamente, também produzem dano.
Confusão entre metáfora e argumento — quando uma linguagem reflete por meio de imagens, mito, ecologia ou corpo, o leitor pode agarrar-se à imagem mais reconhecível e tomá-la pelo assunto. Falar de raízes não significa necessariamente falar de pertença ou falar de decomposição não significa necessariamente falar de luto.
Necessidade de uma mensagem ou solução — existe uma expectativa cultural muito forte e insidiosa de que um texto explique qual é o problema, qual é a solução e o que devo fazer. Como aplicar o método sem errar. Mas as linguagens que trago procuram permanecer na complexidade, deslocar uma posição ou alterar a qualidade da atenção podem, então, parecer vagas ou incompreensíveis.
Leitura binária — exaustiva e rapidamente procurar (exigir) e saber qual é o lado certo, quem é vítima e quem é perpetrador, qual é a prática boa e qual é a má. Uma linguagem que trabalha com cumplicidade, paradoxo, complexidade, ambivalência, contradição e participação torna-se difícil de encaixar ao rejeitar o dualismo hierárquico.
Tradução prematura para categorias conhecidas — perante algo pouco familiar, não permanecemos tempo suficiente com a estranheza, o absurdo ou a falta de referências. Traduzimos: «ah, isto é sobre trauma»; «isto é sobre luto»; «isto é espiritualidade»; «isto é desenvolvimento pessoal». Esta tradução inconsciente permite compreender algo, mas pode impedir-nos de encontrar aquilo para o qual ainda não temos categoria, nem mapa ou nome.
Literacia relacional pouco exercitada — uma das questões mais profundas. Grande parte da educação moderna treina-nos para reconhecer coisas, indivíduos, causas, categorias e resultados. Mas não perceber campos relacionais, reciprocidades, interdependências, padrões históricos, posições e processos emergentes. Quando a própria unidade de pensamento muda do indivíduo para a relação, pode parecer que se fala outra língua.
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