Quando o solo se recusa a ficar quieto

Emaranhado entre sistemas climáticos e tectónicos

Imagem: terramoto de Lisboa de 1755.

 

Tenho andado a pensar num livro que li há décadas e que relacionava fenómenos meteorológicos invulgares com sismos. Não me lembro do título do livro, mas essa ligação ficou-me na memória. Os sismos destrutivos das últimas semanas — desde a Venezuela, Espanha, Japão, Colômbia ou Indonésia — oferecem um ponto de partida para outro tipo de atenção ecológica e levam-me a questionar a relação entre o clima e o solo que treme. O que abana a fantasia cultural de que a geologia, o clima, a água e a vida habitam mundos separados.

De facto, ao viver perto de uma falha sísmica, tenho-me sentido profundamente perturbada com tantos terramotos de uma só vez. Com medo do que está para vir e de luto por todas as perdas asfixiadas sob os escombros.

Antes de continuar, quero também incluir a cultura neste emaranhado, pois fomos abalados para novas formas de pensar anteriormente. De facto, o terramoto de Lisboa de 1755 tornou-se uma das grandes perturbações intelectuais do Iluminismo europeu, abalando as explicações sobrenaturais para a catástrofe e acelerando a busca por causas racionais e naturais. Esta foi uma abertura importante, mas não inocente nem neutra. Na verdade, vivemos sob os seus impactos e escombros. A autoridade emergente da Razão universal acabaria também por se entrelaçar com a classificação colonial, as hierarquias raciais e uma forma de conhecer o mundo que adota cada vez mais a posição do observador distante, em vez da do participante responsável.

Mas bem, afinal, supõe-se que o solo seja aquilo que menos se move. Acontece, que apesar de todas as nossas exigências de permanência, Terra nunca foi um pano de fundo sobre o qual o clima, a água e a vida simplesmente acontecem. É um corpo em movimento, composto por pressões, fissuras, pesos, fluidos e fraturas. A ciência começa a descrever alguns destes entrelaçamentos com mais cuidado, como as consequências das mudanças climáticas podem fazer o chão tremer.

Fiz uma breve investigação sobre artigos científicos que relacionam o clima com os terramotos, e há muitos! Não estudei em profundidade, até porque não sou da área, mas tirei algumas notas sobre como estes dois sistemas, o climático e o tectónico, se podem influenciar. Como o derretimento dos glaciares pode libertar um peso enorme sobre a crosta terrestre (Wang 2025; Masih 2018), ou como a subida do nível do mar pode redistribuí-lo (Bohnhoff et al. 2024). Como a chuva, a seca e as águas subterrâneas podem alterar a pressão no interior de rochas já sob tensão (Wang 2025; Bohnhoff et al. 2024).

Na Indonésia, a temperatura global mais elevada registada coincidiu com o maior número de sismos, embora a relação não seja direta e um terceiro fator possa estar na origem de ambos (Mtambo e Tao 2024). Nada disto significa que os terramotos que abalam a Colômbia, a Indonésia, o Japão ou a Venezuela tenham sido causados pelas alterações climáticas—a relação entre o calor e a sismicidade é complexa e bidirecional. Mas notam que não existe uma fronteira nítida entre a atmosfera acima de nós e a rocha sob os nossos pés.

Não apresento os terramotos como uma mensagem, um aviso ou um castigo, pois não precisamos de transformar a Terra, mais uma vez, num símbolo que fale exclusivamente sobre nós. Quero entrelaçá-los num emaranhado, potente e temível, que interrompa um dos devaneios mais profundos da modernidade: que o solo é inerte, o clima é pano de fundo, a água é um recurso, e que cada sistema da Terra pode ser alterado sem perturbar os outros. Um planeta que treme não comprova uma única narrativa causal, tornando a fantasia da separação mais difícil de sustentar.

Por baixo das nossas categorias, o planeta continua a trocar peso, pressão, calor, água e movimento, não numa coleção de sistemas isolados, mas numa geologia inquieta de relações. E o solo voltará a mover-se.

Referências de estudos para aprofundar:

  • Bohnhoff, M., P. Martínez‐Garzón, and Y. Ben‐Zion. “Global Warming Will Increase Earthquake Hazards through Rising Sea Levels and Cascading Effects.” Seismological Research Letters (2024). https://doi.org/10.1785/0220240100.

  • Bürgmann, R., K. Chanard, and Yuning Fu. “Climate-and Weather-Driven Solid-Earth Deformation and Seismicity.” (2023).

  • Cheng, Changxiu, Chun Hui, Jing Yang, and Shi Shen. “The relationship between heat flow and seismicity in global tectonically active zones.” Open Geosciences 12 (2020): 1430 – 1439. https://doi.org/10.1515/geo-2020-0195.

  • Chiodini, G., C. Cardellini, F. Di Luccio, J. Selva, F. Frondini, S. Caliro, A. Rosiello, G. Beddini, and Guido Ventura. “Correlation between tectonic CO2 Earth degassing and seismicity is revealed by a 10-year record in the Apennines, Italy.” Science Advances 6 (2020). https://doi.org/10.1126/sciadv.abc2938.

  • Cui, Jing, Jun Liu, Weiyu Ma, Yalan Huang, Chenyu Ma, and Xinqian Wang. “Analysis of the Multilayer Atmospheric Temperature Rise of Yushu and Subsequent Earthquakes in Qinghai in 2010.” IEEE Transactions on Geoscience and Remote Sensing 63 (2025): 1-12. https://doi.org/10.1109/tgrs.2025.3583416.

  • Daneshvar, M. Mansouri R., F. Freund, and M. Ebrahimi. “Spatial and Temporal Analysis of Climatic Precursors before Major Earthquakes in Iran (2011–2021).” Sustainability (2023). https://doi.org/10.3390/su151411023.

  • Kadafi, K., Dimas Dwi Saputro, M. M. Leman, Aslinar, B. B. Nasution, D. T. Anantyo, N. Puspaningtyas, et al. “Global climate change issues, natural disasters and their impact on Indonesian children.” Pediatric Sciences Journal (2022). https://doi.org/10.51559/pedscij.v3i1.35.

  • Lobkovsky, L., A. Baranov, I. Garagash, M. Ramazanov, I. Vladimirova, Y. Gabsatarov, D. Alekseev, and I. Semiletov. “Large Earthquakes in Subduction Zones around the Polar Regions as a Possible Reason for Rapid Climate Warming in the Arctic and Glacier Collapse in West Antarctica.” Geosciences (2023). https://doi.org/10.3390/geosciences13060171.

  • Lobkovsky, L. “Seismogenic-Triggering Mechanism of Gas Emission Activizations on the Arctic Shelf and Associated Phases of Abrupt Warming.” Geosciences (2020). https://doi.org/10.3390/geosciences10110428.

  • Maji, Chiranjit, Bikash Sadhukhan, S. Mukherjee, Saroj Khutia, and H. Chaudhuri. “Impact of climate change on seismicity:a statistical approach.” Arabian Journal of Geosciences 14 (2021). https://doi.org/10.1007/s12517-021-08946-8.

  • Masih, A. “An Enhanced Seismic Activity Observed Due To Climate Change: Preliminary Results from Alaska.” IOP Conference Series: Earth and Environmental Science 167 (2018). https://doi.org/10.1088/1755-1315/167/1/012018.

  • Mtambo, Lukundo, and Xingxiang Tao. “Seismology and Climatology: A Study of Seismological Impacts of Climate Change in Indonesia.” Atmospheric and Climate Sciences (2024). https://doi.org/10.4236/acs.2024.142013.

  • Nutu, C. “On a potential relationship between climate change and seismic activity of Earth, explained by a general model.” Technium: Romanian Journal of Applied Sciences and Technology (2023). https://doi.org/10.47577/technium.v18i.10298.

  • Viterito, A. “The Correlation of Seismic Activity and Recent Global Warming.” Journal of Earth Science & Climatic Change 7 (2016). https://doi.org/10.4172/2157-7617.1000345.

  • Voosen, P. “Glacial melt due to global warming is triggering earthquakes..” Science 389 6755 (2025): 15-16. https://doi.org/10.1126/science.aea2480.

  • Wang, Renxu. “The Interactions between Earthquakes and Climate.” Applied and Computational Engineering (2025). https://doi.org/10.54254/2755-2721/2025.20066.

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