O dia em que a água parou

 

Mergulhada em mar, imaginei o que aconteceria se a água parásse, se deixásse de circular. Do silêncio ensurdecedor pela ausência das marés, ondas, corrente e espuma. Sem vento. Dos corpos de coração seco e sem pulsar, as veias erodidas. Apesar da memória dos fluxos e movimentos ainda ecoar na dureza das rochas e troncos retorcidos.

Porque no dia em que a água verdadeiramente parásse, ao deixar de circular, a vida como a conhecemos começaria a desfazer-se. Pois a água não sustenta a vida apenas como substância, mas também como movimento entre corpos, tempos e lugares.

O ciclo da água é uma gigantesca respiração planetária de evaporação, condensação, chuva, infiltração, escoamento, transpiração das plantas, rios que chegam ao mar e águas subterrâneas que reaparecem noutro lugar. Se este ciclo se quebrasse, deixaria de redistribuir água doce. Alguns lugares secariam rapidamente, outros ficariam com água acumulada e estagnada. Os solos perderiam humidade, as plantas deixariam de transpirar e de participar na formação de nuvens, os rios diminuiriam ou desapareceriam, aquíferos deixariam de ser recarregados. A própria regulação térmica do planeta seria profundamente alterada.

E se também parassem as correntes oceânicas, outra circulação vital seria interrompida. Os oceanos levam calor, oxigénio, nutrientes e organismos através do planeta. As correntes profundas levam oxigénio às zonas abissais e devolvem nutrientes à superfície. Sem esta difusão, vastas regiões oceânicas tornar-se-iam pobres em oxigénio, as cadeias alimentares marinhas colapsariam e a distribuição do calor planetário mudaria radicalmente. O oceano continuaria a existir, mas seria cada vez menos um corpo vivo em circulação e cada vez mais uma massa cristalizada. Muda. Quieta. Numa serenidade mortífera.

Numa escala minúscula disto, em cada organismo, a água também circula em sangue, linfa, seiva, e em fluidos celulares. Num solo saudável, a água infiltra-se, atravessa poros, encontra raízes, fungos e microrganismos. Num pântano, numa nascente, numa árvore, num corpo, num continente … a vida depende menos da simples presença de água do que da possibilidade de ela chegar, atravessar, transformar e partir. Movimentar. Dançar.

A água parada é relação que deixou de acontecer.

Porque a água nunca foi recursouma quantidade armazenável num depósito, barragem ou garrafa. Ecologicamente, a água não é apenas algo que , mas é algo que passa, que viaja e se transforma. Transporta sedimentos, minerais, temperatura, sementes, resíduos, memória química, corpos e nutrientes. Liga as montanhas aos estuários, as florestas às nuvens, atmosferas aos aquíferos e o corpo ao território.

Se a água parásse as relações deixariam de circular e a vida desintegrar-se-ia.

Podemos ter H₂O, mas a água totalmente imóvel é uma contradição ecológica, um mundo fragmentado. Afinal, o contrário da seca não é só abundância de água, mas circulação e devolver-lhe caminhos vivos.

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