A Sabedoria do Fogo Anda Esquecida

A cinza como memória ou a ruína de uma comunidade.

 

Aqui, no território que habito, há gerações que desaprendemos a viver com o fogo. Encerrámo-lo em máquinas, condutas e interruptores, reduzindo-o a energia disponível, sem rosto, vontade ou limite. Ao mesmo tempo, abandonámo-lo pelos territórios, entre monoculturas inflamáveis, solos secos e exaustos, matos sem cuidado, aldeias esvaziadas e verões cada vez mais extremos.

Tem sido difícil habitar esta nova realidade sem que o corpo permaneça em sobressalto—a eco-ansiedade não é uma sensibilidade excessiva perante um perigo imaginado, mas uma resposta coerente a um mundo em que tudo parece derreter, arder e morrer de sede. Este é um medo que não nasce apenas daquilo que poderá acontecer num futuro difuso e longínquo, mas do que está a acontecer (há gerações debaixo dos nossos pés), enquanto as estações perdem ritmo, as árvores ardem de pé e a chuva deixa de chegar, ou vem com uma violência que a terra já não consegue acolher.

O fogo não se tornou uma besta esfomeada por ter perdido a sua natureza, mas porque nos esquecemos da relação que sabia alimentá-lo sem o deixar devorar tudo. Deixámos de o respeitar e cuidar.

O fogo devora porque também deixámos de saber plantar água. Plantar água é cuidar do território para a chuva poder entrar, demorar-se e infiltrar-se. Alimentando raízes, fungos, nascentes e águas subterrâneas, em vez de escorrer rapidamente sobre solos nus, compactados e exaustos. Quando arrancamos sebes, drenamos zonas húmidas, corrigimos linhas de água, sacrificamos e simplificamos ecossistemas e abandonamos os pequenos gestos comunitários de retenção e cuidado, não perdemos apenas água. Perdemos humidade, sombra, diversidade, tempo e resistência ao fogo. A paisagem deixa de guardar água e tudo se torna inflamável e combustível.

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Nos contos tradicionais, o fogo nunca é apenas uma coisa. É sempre múltiplo, antigo e presente, tanto aquece como fere, cozinha e consome, ilumina e denuncia, transforma como destrói. Não é benigno nem maligno. É uma força diante da qual é preciso aprender a ter medida, presença e responsabilidade.

Na Borralheira, o fogo aparece transformado em cinza. A heroína vive junto ao lume da cozinha, coberta pelos restos negros da combustão, próxima do chão, do trabalho invisível e do calor que sustenta, aquece e alimenta a casa. A cinza guarda aquilo que ardeu sem desaparecer por completo—memória, matéria, alimento futuro, vestígio de uma forma anterior. Felizmente os contos não nos deixam repousar numa única interpretação. A cinza pode ser húmus de transformação, mas também marca de humilhação, exclusão e perda. A sabedoria da Borralheira não é o abandono das cinzas para ascender a uma vida mais luminosa, mas conhecer intimamente o que termina, o que resta e o que continua a pedir cuidado.

No forno, o fogo torna-se ventre e túmulo. É onde a massa ganha corpo, mas também onde bruxas, roupas encantadas e figuras das margens são consumidas. Os contos entregam ao fogo a tarefa perigosa de purificar, castigar ou quebrar um fado, como se queimar o mal devolvesse a ordem ao mundo. Mas toda a combustão deixa resíduos e nenhuma comunidade sai inocente do que decidiu lançar às chamas. O fogo sábio não apaga as relações que produziram a violência, mas obriga-nos a perguntar quem ateou, quem alimentou, quem beneficiou, quem não pôde fugir e quem ficará a cuidar do que resta—… do que resta, porque sempre resta, mesmo que catastroficamente destruído e esquecido.

A transformação deixa de ser uma fantasia individual de renascimento para se tornar uma responsabilidade perante a matéria, os mortos, os vivos e o território.

Já nas velas, a chama é pequena, mas guarda destinos inteiros. Pode conter uma vida, prolongar um encantamento, impedir uma casa de acordar ou revelar o que devia permanecer escondido. Basta um sopro para terminar uma existência, basta um pingo de cera para alterar uma história. A chama recorda-nos que a vida nunca se sustenta sozinha, que precisa de ar, matéria combustível, abrigo e atenção. Também a psique talvez não seja uma propriedade encerrada no indivíduo, mas uma chama mantida entre corpos, lugares, antepassados, animais, águas, histórias e gestos de cuidado.

Transformar-se em pertença não é arder mais intensamente e muito menos tornar-se uma luz excepcional.

É aprender a receber calor sem consumir o mundo que o oferece.

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Diante dos gigantescos incêndios que atravessam territórios, não podemos transformar todas as cinzas em metáfora de regeneração. Depois de perder a casa, a paisagem e os vestígios de uma vida, ouvi alguém no telejornal a dizer: “Tudo o que os nossos antepassados nos deixaram e construíram ficou reduzido a cinzas, reduzido a nada.”

Há cinzas que não são começo, nem purificação, mas luto e violenta ruptura de continuidade entre gerações.

Recuperar a sabedoria do fogo exige guardar esta diferença. Exige saber quando alimentar a chama, quando deixar a terra arder nos seus ritmos próprios, quando interromper o incêndio e quando permanecer junto de quem perdeu tudo. Gosto de pensar que uma psique transformada em relação se pareça menos com uma fogueira triunfante e mais com uma lareira cuidada colectivamente… capaz de dar calor sem negar o perigo, ao guardar a memória sem romantizar a devastação e aberta a compreender que nenhuma chama vive separada do mundo que pode aquecer ou destruir.

A ligação entre psique, pertença, terra e responsabilidade relacional relembra-nos que o bem-estar não é separado da comunidade nem da Criação. E que o fogo no território também queima por dentro.

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Podes querer ler os seguintes contos:

  • Gata Borralheira / Maria Borralheira: A heroína recebe o nome por se sentar junto ao lume da cozinha, muitas vezes vestida de trapos e coberta de cinzas.
  • O Rapaz de Cinzas: Variante masculina da Borralheira, comum em tradições eurasiáticas, onde o herói vive junto à lareira antes da sua ascensão.
  • A Criança Queimada: Conto onde o simbolismo do fogo se liga ao “fantasma da mãe” e à provação da heroína.
  • O celeiro está a arder (ATU 1562A): um patrão ensina nomes estranhos ao seu criado para designar objetos comuns. Quando o gato pega fogo à casa ou ao celeiro, o criado utiliza esses nomes peculiares para relatar o acontecimento, o que atrasa o combate às chamas até que o fogo fique fora de controlo.
  • Capuchinho Vermelho (ATU 333): Numa variante portuguesa recolhida por Consiglieri Pedroso, a avó encanta o lobo, enche-o de foguetes e deita-lhe o fogo, fazendo com que ele se lance a um poço onde morre.
  • Branca de Neve (ATU 709): Em certas versões, a rainha má é punida sendo forçada a calçar sapatos de ferro aquecidos no fogo até ficarem vermelhos-ardentes.
  • A Velha Esfolada (ATU 877): Uma velha que tenta enganar o rei é desfolada e metida num forno, onde lhe pegam fogo como castigo.
  • A Menina Boa tem que ir Buscar Lume (ATU 480B*): A madrasta envia a enteada à casa da bruxa com a tarefa específica de trazer lume, esperando que ela seja morta, mas a menina cumpre a missão com ajuda mágica.
  • A Eficácia do Fogo (ATU 1262): O herói deve passar a noite ao frio para ganhar a mão da princesa; o rei tenta negar-lhe o prémio alegando que ele se aqueceu com o brilho de uma fogueira que avistou ao longe.
  • A história de S. Tomé (ATU 788): Um camponês é punido por trabalhar ao domingo e deve destruir as suas sementeiras pelo fogo, acabando por morrer queimado para depois renascer como santo.
  • A Mão do Finado (ATU 956B): Um ladrão utiliza uma “mão de glória” (uma mão cortada que serve de vela) que, enquanto estiver acesa, impede que as pessoas da casa acordem.
  • O feijão, a palha e a brasa (ATU 295): Este conto explica a marca negra no feijão; enquanto atravessavam um rio, uma brasa queima a palha e o feijão ri-se tanto da desventura que rebenta a barriga.
  • A lenda de Dona Marinha: Um cavaleiro obriga uma fada muda a falar ameaçando atirar o filho de ambos ao fogo.
  • João e Maria (Hansel e Gretel): A bruxa é derrotada ao ser empurrada para dentro do forno acesso, morrendo queimada.
  • O Lobisomem: Para quebrar o fado, a mulher do lobisomem deve roubar a sua roupa diurna e queimá-la num forno a arder.
  • O Velho Querecas / O Noivo Animal: O encantamento é quebrado (ou dobrado) quando a heroína, curiosa, acende uma luz ou vela e deixa cair um pingo de cera sobre o príncipe adormecido.
  • A Vida do Ogre Escondida num Ovo: A alma ou o coração do ogre reside, muitas vezes, numa vela acesa num ovo; para o matar, o herói deve apagar essa chama.
  • Pedro de Malas-Artes: Num dos seus estratagemas, vende uma panela que supostamente cozinha sem fogo, enganando compradores incautos.
  • A Bicha de Sete Cabeças: O dragão é frequentemente descrito como uma criatura que sopra fogo pela boca.

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Referências

  • Cardigos, Isabel. Catalogue of Portuguese Folktales. Helsinki: Academia Scientiarum Fennica, 2006. FF Communications, no. 291.
  • Cardigos, Isabel, e Paulo Correia. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses (Antologia de versões). Faro: CEAO, 2015.
  • Cardigos, Isabel, e Paulo Correia. Doze Contos à Lareira. Porto: Edições Afrontamento, 2021.
  • Braga, Teófilo. Contos Tradicionais do Povo Português. 3.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1987.
  • Silva, Francisco Vaz da. “O conto tradicional português e o Imaginário do Mal.” Em O Imaginário do Mal, editado por Carlos Nogueira. Porto: Deriva, 2012.
  • Silva, Francisco Vaz da. “Capuchinho Vermelho em Portugal.” Estudos de Literatura Oral 1 (1995).

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