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A Montanha de Cristal não é transparente
Manifestação, desejo e a fantasia de intenção inocente.
Nos contos tradicionais europeus, há uma imagem-metáfora muito forte que quero adaptar a este artigo, a da Montanha de Cristal.1 Embora também existam metáforas semelhantes de caixas ou caixões de vidro.2
O significado simbólico da montanha de vidro ou de cristal, nos contos, descreve um local protegido e de reclusão sagrada, uma prova difícil para os pretendentes, representando um estado de suspensão ou de castidade (essência, candura e pureza). Uma fronteira que protege um estado de inocência. E quero trazer esta imagem viva como uma barreira ontológica à maturação.
Ora, o enredo típico do conto ATU 530 inicia-se com o irmão mais novo de três que consegue guardar com sucesso uma propriedade (jardim), devastada todas as noites por um monstro. Durante a noite, o herói encontra e obtém a ajuda de três cavalos mágicos (ou de três nuvens, ou de Nossa Senhora com três ramos mágicos). A seguir, o rei promete a mão da princesa ao cavaleiro que vencer a superfície escorregadia e subir a montanha de vidro para alcançar a donzela. Enquanto os pretendentes rivais falham, o herói consegue transpor a montanha e casa-se com a princesa.
É esta fronteira de cristal que me interessa.
Tal como a Donzela, imaginemos a modernidade eurocêntrica protegida pela Montanha de Cristal, não propriamente inocente, mas abrigada na possibilidade de se imaginar ingénua. O cristal deixa passar a luz e permite ver o mundo, mas mantém à distância o que poderia perturbar esta imagem de pureza. Na verdade, é uma barreira quase perfeita por ser transparente e, quem aí vive abrigado, pode acreditar que vê tudo, precisamente porque não consegue ver a própria barreira.
Se calhar é assim que funciona a fantasia contemporânea de que “criamos a nossa própria realidade”. De mente e intenções alinhadas, posso manifestar abundância, liberdade, uma casa junto ao mar, ou uma vida espiritual, e contar essa vida como resultado da minha intenção, vibração ou trabalho interior. Sem nunca reconhecer as relações materiais que a permitem: desde o passaporte que me permite circular, a moeda que multiplica o meu poder de compra, quem trabalha para sustentar o meu conforto, a pressão sobre a terra e a habitação, a água consumida, os resíduos produzidos, as histórias coloniais que transformaram determinados lugares em territórios disponíveis para o desejo de outros.3
Trago então a Montanha de Cristal, não como uma prisão imposta do exterior, mas como uma estrutura de inocência que permite usufruir dos frutos de uma realidade profundamente desigual e sempre relacional, enquanto continuamos a narrá-la como criação individual—sempre na fantasia do sucesso do individuo separado.
Amadurecer não é aprender a escalar melhor a montanha, nem encontrar uma manifestação mais consciente, ética ou elevada. Mas, finalmente, reparar no vidro e começar a perguntar quem paga o preço do que, através dele, parece belo, das intenções de cristal, puras e inocentes. Arriscando rachar a fronteira que nos permitia desejar sem ter de responder pelas relações que sustentam o nosso desejo.
Quero ainda trazer que, no conto, o herói prova o seu valor ao subir à superfície que outros não conseguem.
Numa leitura dos heróis da modernidade, a própria necessidade de conquistar a montanha faz parte do feitiço.
Ao fazer a equivalência da princesa à modernidade eurocêntrica e do vidro à ignorância ingénua, podemos deixar intacta a estrutura do conto—a ideia de que há um sujeito excepcional, um obstáculo a dominar, uma recompensa a alcançar e meios mágicos que permitem ao indivíduo triunfar onde os outros falharam.4 Que, ironicamente, é uma pequena gramática de manifestação: desejo + excepcionalidade + técnica/poder mágico + conquista = recompensa. Sinceramente acho mesmo incrível o quão fundo correm as nossas narrativas invisíveis.
E se recusarmos o papel do herói pretendente? E se, antes da urgência de chegar à princesa, nos interrogarmos por que razão há uma princesa suspensa, uma montanha a conquistar e um mundo organizado para transformar desejo em direito à posse?
A mudança mais funda que quero cultivar é da criação individual para a participação responsável: não “como criamos a realidade que queremos?”, mas “em que realidade já estamos implicados, que custos ela nos permite não ver e a que relações teremos de responder quando o cristal deixar de nos proteger?” É aqui que a Montanha de Cristal começa realmente a funcionar como imagem de uma barreira à maturação.
Sei que sou chata, mas o problema mais fundo é a ontologia.
Porque as expectativas centradas na psique individual das ideias de manifestação e criação da tua realidade, preservam a separabilidade enquanto exploram a linguagem da interconectividade. A contradição é cortante… então tudo está ligado—mas, de alguma forma, o universo está especialmente responsivo e preocupado em proporcionar-me o apartamento, a relação, o rendimento, a experiência de viagem e o estado emocional que prefiro. Independentemente dos impactos sociais e ecológicos, ou de haver situações de violentas crises de genocídio e ecocídio a acontecer a milhares de outros. Meritocracia inocente, espiritual e narcisista.
E é aqui que o desvio espiritual se torna político. Porque se a minha realidade reflete meritocraticamente a minha vibração, o que acontece a alguém que nasce numa situação de opressão, casta, pobreza racializada, guerra, deficiência, expropriação ou colapso ecológico? Este posicionamento aparentemente neutro pode colapsar a violência estrutural num fracasso espiritual individual—talvez não tenha acreditado o suficiente, não tenha curado o suficiente, não se tenha alinhado o suficiente, não tenha libertado o suficiente a sua mentalidade de escassez… Pois afinal “escolhemos onde nascemos”, e se escolhemos nascer em contexto de escravatura ou genocídio azaritos, pois só estamos a viver o que queríamos… afinal posso voltar a manifestar a minha abundância em paz.
De repente, perante o real, constante e inevitável enredamento, o «Eu manifestei isto» torna-se uma descrição muito estranha. O indivíduo não criou a realidade (sim, pode haver algum livre-arbítrio em como reage a ela). Sempre fez parte de uma enorme teia metabólica, histórica, económica e ecológica, cujos outros participantes foram excluídos da narrativa individual. É uma postura que, inocentemente, amputa a maioria das relações que tornaram a co-manifestação possível.
Da manifestação à participação
Ainda que, aqui, estejamos todos debaixo da montanha de cristal ou a tentar conquistá-la, convido a que mudemos de pergunta. Em vez de perguntar: Como manifesto a vida que desejo? Passamos a questionar: Em que participo para dar vida, com quem, à custa de quem e para o florescimento de quem?
Não requer abandonar o desejo de ter uma vida melhor. Porque, sim, precisamos de segurança, prazer, beleza, descanso, dignidade, alimentação, vida erótica, trabalho significativo, amizade… Aliás uma crítica que transforme o sofrimento em virtude torna-se outra patologia.
Contudo, a vida melhor não pode ficar sem questionamentos, responsabilidades ou noçãozinha dos impactos reais. Melhor segundo quem, sob que condições materiais e à custa de quem?
Essencialmente é aqui que a ontologia e a montanha de cristal começam a rachar: quanto daquilo que experimento como o meu desejo autêntico foi fabricado no seio do próprio sistema de que acredito estar a fugir?
A questão é que o enredamento é psicologicamente muito mais difícil do que a culpa ou a inocência, porque não há uma posição imaculada de refúgio. Há cumplicidade, implicação e impacto.
Trago o cristal não apenas como a ignorância sobre os sistemas opressivos. Mas na fantasia da inocência: Quero a minha vida bela sem ter de saber o que a torna possível (sim, mesmo das consequências e dos impactos lá longe, em populações e territórios onde os meus olhos e o meu coração raramente pousam). Partir ou conquistar a montanha de cristal não significa decidir que não merecemos vidas belas. Significa que a beleza já não pode depender de não olhar.
O que pode transformar a manifestação de uma técnica para conseguir o que quero (ou o que preciso) numa questão espiritual muito mais responsável: Como podemos cultivar vidas que valham a pena ser vividas sem exigir que outras pessoas, lugares, seres ou futuros absorvam os custos ocultos do nosso florescimento?
E então, o que faço para além de manifestar?
Na verdade, bastante… Intenção, imaginação, atenção, cuidado, ritual. O reconhecimento de que as nossas histórias afetam como habitamos e co-criamos a realidade.
Em vez de: Eu crio a minha realidade
Talvez: A realidade emerge continuamente por meio de relações em que participo.Em vez de: O que quero atrair?
Pergunta: Que relações alimento?Em vez de: O que bloqueia a minha abundância?
Pergunta: Que condições tornam a minha abundância possível e que formas de privação e opressão poderão exigir noutros locais?Em vez de: Como me alinho à vida que mereço?
Pergunta: O que a vida que desejo exige de outros seres humanos, terras, águas, trabalhadores, antepassados e gerações futuras?Em vez de: O universo conspira a meu favor
Talvez: Pertenço a processos muito maiores do que eu, para com os quais tenho obrigações, bem como desejos.E, em vez de manifestação como propriedade ou aquisição, a manifestação poderia tornar-se algo mais próximo da habilidade de resposta (conceito de Donna Haraway): tendo em conta as relações que me sustentam, qual é a minha contribuição, o que devolvo em reciprocidade?
No conto-tipo ATU 530 – “A Princesa na Montanha de Vidro”; mas também noutras adaptações do mesmo motivo, como:
As Três Nuvens (APFT 1, recolhido em Loulé, Algarve, por Ataíde de Oliveira).
A Pêra de Ouro (APFT 2871, recolhido em Pias por Mira).
A Bênção do Pai (APFT(I) 3780, recolhido na Nova Inglaterra / Ilha das Flores, Açores).
O José das Peras (APFT(I) 3781, recolhido na Nova Inglaterra / Ilha das Flores, Açores).
O Cavalo Preto (APFT(I) 4041, recolhido em Sobral da Adiça, Moura).
O Gato Sarrabulhêro (APFT(I) 4045, recolhido em Vila Verde de Ficalho, Serpa).
O Cavaleiro de Bronze (APFT(I) 6186, recolhido por Purcell na Ilha Graciosa, Açores).
O Cavalo de Cobre (APFT(I) 6996, recolhido por Purcell na Ilha de São Jorge, Açores).
Os Cavalos Mágicos (APFT(I) 7011, recolhido por Purcell na Ilha de São Jorge, Açores).
Como nos seguintes contos: ATU 410 – “O Caixão de Vidro”, em que castelos e mundos inteiros permanecem preservados em miniatura em caixas ou caixões de vidro transparente, que devem ser abertos para quebrar o encanto. ATU 709 – “Branca de Neve”, onde a heroína adormecida é deitada num caixão transparente de vidro para poder ser observada de todos os lados no seu estado de morte aparente (preservando a sua beleza), vedando-se o contacto físico até ao momento final do desencantamento.
“Relativamente a estes padrões nocivos, Joan Tronto traz a ideia de irresponsabilidade privilegiada (cumplicidade e não-inocência) que, somada às epistemologias da ignorância (um exame da complexidade na produção e manutenção da ignorância), dá pouca oportunidade e espaço à psique eurocêntrica para observar e se responsabilizar por toda a violência e consequências brutais do conforto da Modernidade. É mais fácil dissociar e seguir o brilho e as ilusões do excepcionalismo, do que relacionar afectiva e responsavelmente”. (deste artigo)
Sabias que este arco de história não é neutro nem universal, mas parte do legado narrativo europeu?

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