O Bordão

{sonho-vivo}

Há uns meses que deixei de sonhar.

As noites tornaram-se poços de revolta e tensão, de onde os sonhos fogem.

Refugiam-se algures até que a tempestade passe.

Apesar das noites escuras em que os sonhos me deixaram de visitar, no outro dia, mesmo antes de adormecer, um tremor sussurrou-me. Uma imagem-memória viva invadiu-me. Os pormenores são nítidos, mas íntimos e não os vou partilhar.

Mas algo se deslaçou e se encaminhou para outro chão. Os meus pés saíram da água e começaram a caminhar de novo em terra negra. Funda e antiga.

Vindo de conhecidas mãos rugosas e calejadas, foi-me oferecido um bordão, um cajado. Uma herança emprestada. Uma bengala de madeira antiga que nunca achei que fosse minha ou para mim. Uma extensão do eixo do corpo, uma intercessão entre-mundos. O cajado, ao contrário da varinha mágica (que transfigura subtil e instantaneamente sem tocar), é do contacto direto, da gravidade e da força terrestre. A cacheira da justiça que carrega a vontade mítica do raio e do trovão, da bússola e direção, uma visita da verdade paradoxal e tempestuosa. Impacta os ossos desde a alma e, com esforço, confronta e conforta o corpo e o chão.

Um bordão para caminhar e relembrar alianças não humanas. Um colo de sustento e de força primeva. Pujança de sopro em pulsar que torce as vísceras. Caminhamos entre o ribombar de caos entre a terra e o submundo. Batemos com o cajado no chão, revelando capilares de chão vivo, na paciência e desgaste do tempo pesado ao ritmo da maturação. Recupero o encanto. Deslaço os nós. Ato as cordas. Honro e celebro cada passo, cada corpo, cada lugar.

Passada de mão em mão pelas eras, a haste de madeira e de memória, de colo e de força, é como uma membrana entre as vozes silenciadas e cativas e a libertação, forçando o que foi fechado e revelando as crias retidas. As tuas, as minhas, as nossas. É a coluna vertebral da caminhada e da justiça. Viva, mutante e potente. Guardamos a grandeza da vulnerabilidade.

O segredo é que volvemos à terra enquanto a alma dorme.

De bordão na mão e trovão ao peito herdamos e pedimos emprestado à vida. Pode ser que possamos devolver pelo menos metade.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.