A Mulher que Abriu o Mundo

Pandora, Contexto e Complexidade.

 

Há mitos, como o da caixa de Pandora, que sempre me agarraram. Quero trazê-lo aqui, mas, claro, com um twist, numa deslocação ontológica. Mudar a imagem da caixa como origem do mal para a caixa como ferida aberta da separação.

Na leitura mítica, Pandora abre o recipiente e os males escapam ao mundo. A narrativa clássica e patriarcal constrói a inferioridade e a culpa feminina… uma mulher, a curiosidade e a desobediência que desembocam inevitavelmente em catástrofe.

Mas quero abrir outra possibilidade. E se o que saiu da caixa não foram “os males”, mas a complexidade viva que a ordem dominante queria manter contida? E se o terror fosse a impossibilidade de continuar a viver numa inocência redutora?

Pandora abriu conscientemente a caixa do entrelaçamento.
E o que saiu não foram males ou monstros isolados, mas fios vivos.

Fios de fome, desejo, morte e cuidado. Fios de culpa, chuva, nascimento, dívida e também de floresta, território, morte e memória.
A humanidade assustou-se porque já não conseguia ver uma coisa de cada vez.
Depois da caixa aberta cada dádiva vinha com uma responsabilidade e cada paisagem devolvia o olhar.

Seguimos o trilho de re-imaginar o mito, onde a caixa não seria apenas um contentor proibido. Mas o mecanismo que mantinha o mundo artificialmente reduzido, do sujeito separado e da natureza desentranhada, das consequências invisíveis e dos contextos apagados, das relações cortadas e dos danos deslocados para longe do olhar. Ao abrir a caixa, Pandora não “estraga” o mundo, mas interrompe a fantasia de que o mundo podia ser visto sem o seu emaranhamento, impactos e consequências enleadas.

Trago um pouco desta perspectiva num artigo que escrevi há tempos, Cultivar a Complexidade, ao distinguir o complicado do complexo—o complicado ainda pode ser mapeado, controlado e resolvido, mas o complexo é vivo, relacional, emergente, impossível de dominar plenamente. A catástrofe que Pandora desencadeia é a experiência de um mundo complexo e entrelaçado. Na complexidade, não como castigo ou confusão, mas como maturação perceptiva e fim da anestesia.

Aliás, também trouxe esta metáfora no artigo Os perigos e limitações da “Prescrição de Natureza”, onde a Caixa de Pandora aparece quando a ecopsicologia arrisca prescrever “natureza” como remédio simples, descontextualizado e pronto a consumir.

Quero devolver a Pandora, tida como uma mulher curiosa e imatura (a Pandora construída e inferiorizada pelo patriarcado), a soberania, rebeldia e insubmissão, a que revela que não há natureza inocente para consumir… há território, história, colonialidade, classe, acesso, luto, contaminação, pertença, reciprocidade, silêncio e possibilidade de reparação.

Interessa-me relacionar o medo moderno da complexidade como algo labiríntico (se bem que este adjectivo já é torto à partida, ora vê aqui) com o silenciamento e distanciamento do emergente contexto vivo, o que toca e atravessa o nosso corpo e psique. Desta forma, podemos reimaginar Pandora não como quem libertou os males no mundo, mas como quem abriu a caixa ao contexto e impacto, à consequência e responsabilidade. Porque o contexto, quando regressa à percepção, parece terrível numa cultura habituada a viver por abstração e em verdades únicas e objectivas.

A questão é que o contexto nos obriga a assumir que nada vem sozinho. Tudo vem entrelaçado e embrulhado em múltiplas peles e origens. Tudo vem com raízes, dívidas, histórias, corpos, fantasmas, economias, parentescos, extinções, gestos de cuidado e danos não reparados. Tudo respira em conjunto e a catástrofe talvez seja a inabilidade de o assumir.

A abertura da caixa é aqui a passagem de uma consciência consumidora e observadora distante, para uma consciência participante. O consumidor quer experiências recortadas, exigindo a natureza para acalmar, o mito para inspirar, a espiritualidade para elevar, a psicologia para regular e a ecologia para embelezar o eu. Mas o participante começa a ser olhado de volta, deixa de ser puro ou de estar distante. Já não entra no mundo como quem escolhe produtos simbólicos, mas como quem entra numa teia que o antecede, o excede e o responsabiliza.

Na versão clássica, a esperança fica dentro da caixa. Será que ficou presa, ou foi guardada? Talvez a esperança não tenha sido libertada de imediato porque, sem complexidade, transforma-se facilmente em negação, consolo rápido ou promessa de salvação. Acho que a esperança precisa de permanecer no escuro até que consigamos suportar o mundo sem o reduzir. Sem o recortar e exigir que seja do tamanho de uma psique solitária.

Quando Pandora abre a caixa, não é apenas o sofrimento que entra no mundo, mas o mundo que entra inteiro na percepção humana. Da caixa sai o contexto que tinha sido trancado e separado, vertem as consequências escondidas, as relações esquecidas, os vínculos entre gesto e efeito, entre corpo e território.

O que parecia “o mal” talvez fosse a dor de deixar de habitar uma realidade desenredada. Reimaginamos a abertura da caixa como a abertura da inevitável complexidade dos contextos vivos, o momento em que já não podemos consumir o mundo sem sermos tocadas pelo que o mundo sofre, sustenta, recorda e reclama.

E se a caixa não liberta o mal, mas abre-nos à impossibilidade de continuar inocente? O que, para uma cultura moderna habituada à separação, se sente como maldição. Que a soberana Pandora nos guie a uma cultura em iniciação de aprendizagem relacional.

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