Vénus, Planeta Primordial

Excerto do livro “O Dia a Seguir da Tempestade”.

 

Inanna é toda uma ecologia simbólica e não apenas uma deusa. Pertence à vasta teia de representantes do planeta Vénus, ora estrela da manhã, ora da tarde, e a oscilação entre os mundos visíveis e invisíveis, ciclos de fertilidade, morte e renascimento. Entre outros nomes, Inanna era chamada de Inanna do Amanhecer e A Senhora da Estrela da Tarde, e o sinal sumério cuneiforme de “divindade” é uma estrela de oito pontas.

Na verdade, Vénus como deusa primordial faz parte do léxico eco-mítico das culturas indo-europeias. Há autores que as referem como figuras femininas, deusas do amor nas eras paleolítica e neolítica, as que velam e guardam os clãs na caverna. Com associações a instrumentos musicais, dança e exibições sagradas de órgãos genitais, numa liberdade de corpo feminino soberano, sagrado e em êxtase louco. Feminis bestialis. Os trilhos simbólicos e míticos de Vénus seguem a sagração do corpo envolta numa ecologia ancestral de touros, pois os chifres eram sinal de divindade lunar, aves aquáticas e cobras, numa ode à regeneração e continuidade da vida.

O ciclo de Vénus era, e em muitos lugares ainda é, mais do que um fenómeno astronómico, por ser um marcador vivo de ritmos de fertilidade, dissolução, regeneração e soberania, alegria e amor, chuvas, reconciliação e colheitas prósperas. Depositavam-se em covas fundas carneiros sacrificiais, cestas de frutas, vegetais e outros produtos agrícolas, que seriam as primeiras oferendas à deusa que tornou a terra produtiva. Desta forma, os rios corriam com água fresca, nos campos cresciam grãos ricos, o mar estava cheio de carpas e peixes, as florestas cheias de veados e cabras selvagens, os pomares cheios de mel e vinho.

Há autores que referem que a raiz etimológica do planeta Vénus identifica-o como um viajante em busca do seu amante. A história recorrente em várias culturas é a da deusa envolvida com as matrizes rítmicas do planeta no céu noturno, em ciclos de amor e perda, morte e regeneração. Em proto-indo-europeu a raiz de Vénus, *wen-, significa “desejar, lutar por”, e tem relações com palavras como veneração e veneno, tão pertinentes para esta trama eco-mítica.

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A eco-mitologia das deusas associadas a Vénus costura-as numa posição intermediária entre mundos, entrelaçando a linhagem da deusa da regeneração ao tempo cíclico e cósmico, pois ela é a que viaja ciclicamente ao submundo das águas férteis. É a Deusa partenogenética, autogeradora, Doadora da Vida, Detentora da Morte e Regeneratrix, Deusa da Fertilidade jovem e velha, nascendo e morrendo em intimidade com os ciclos sazonais da Vida, como nos recorda Marija Gimbutas. Naturalmente que também tem ligações à lua e aos mistérios femininos do sangue, havendo mesmo autores que sugerem que o nome Inanna significa menstruação. Ela é a deusa menstruada, aquela que pode ser fértil ou infértil, a conhece os segredos dos ciclos.

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A cosmologia da água, do nascimento e renascimento, é um elemento essencial na iconografia de Vénus. O pássaro (ave) e a cobra representam os céus, a terra e o submundo, pois os pássaros guardavam os reinos do céu e da terra, enquanto as cobras sustinham a terra e o submundo. Ambos são símbolos poderosos de renovação por, entre outras coisas, serem ovíparos. Helen Benigni refere a crença de um reino cósmico aquático ligado ao corpo das mulheres, muitas vezes vistas como aves aquáticas, ecoando as noivas-animais de mantos de penas hoje roubados.

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No tecido subtil dos céus, Vénus e a Terra desenham, ao longo de oito anos, uma rosa de cinco pétalas, o Pentagrama de Vénus, uma assinatura cósmica que dança entre presença e ausência. Este ritmo de ascensão e descida de Vénus, da água para o ar, é marcado pelas cinco posições no céu noturno. Como Estrela da Manhã, surge antes do sol e anuncia inícios e aberturas; como Estrela da Tarde, após o poente, sinaliza colheitas e despedidas. Entre os extremos, desaparece no fulgor solar, numa morte simbólica, apenas para renascer, renovada. Este ciclo guiava antigas iniciações femininas, marcações de guerra e paz, o regresso do submundo ou do sono, e os calendários agrícolas que costuravam as comunidades e a Terra.

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