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“Síndrome de Estocolmo” e Mente Colonial

O amor que, em retrospetiva, inocenta e absolve toda a violência da conquista.

 

Vi, num vídeo de Instagram ao qual perdi o rasto, que a “síndrome de Estocolmo” tem uma base científica frágil. Apesar de muito popular esta ideia tem pés de barro. O termo surgiu do assalto à Kreditbanken em Estocolmo, em 1973. Na altura, o psiquiatra Nils Bejerot interpretou a desconfiança dos reféns em relação às autoridades e a sua proximidade aos sequestradores como uma espécie de patologia. A revisão sistemática seguinte assinalou apenas 12 trabalhos relevantes, todos relatos sem diagnósticos validados. Afinal, a “síndrome” nem sequer constitui um diagnóstico psiquiátrico reconhecido…

Kristin Enmark, uma das reféns na origem do conceito, rejeitou explicitamente a narrativa romântica. Afirmou que tentava sobreviver, que um dos captores a protegia e que tinha razões para temer que a intervenção policial a matasse. A investigadora Cecilia Åse argumenta que a invenção da síndrome transformou o comportamento racional das mulheres numa patologia, em vez de levar a sério o perigo que sentem.

Quero nomear os comportamentos reais, como a criação de vínculos, o apaziguamento do agressor, a identificação de pequenas demonstrações de humanidade ou a cooperação estratégica. São adaptações para a sobrevivência em situações de poder assimétricas. A literatura psiquiátrica sobre reféns afirma que o que parece patológico de fora pode ser uma resposta adaptativa perfeitamente compreensível a uma situação violenta.

O que quero trazer é como a interpretação, normalização e aceitação genérica da “síndrome de Estocolmo” vem de um contexto cultural concreto. Não é por acaso que esta narrativa pegou como rastilho, mesmo sem fundação real. Em termos práticos, tal como a pessoa sequestrada depende do captor para continuar viva, a pessoa colonizada depende progressivamente da estrutura colonial para circular, comer, trabalhar, adquirir estatuto, falar a língua reconhecida pelo poder. A pessoa numa relação coerciva aprende, microscopicamente, os humores de quem controla o ambiente.

A questão é que, nas relações de poder e violência, pela dependência forçada, surge a necessidade de adaptação da pessoa dominada, em vínculo e até mesmo em “amor”. Visto de fora, a adaptação pode parecer uma afeição pelo dominador. Chamar-lhe amor é uma manobra conveniente, pois transforma a inteligência de sobrevivência numa propriedade psicológica do dominado.

E caramba, a mitologia colonial europeia está cheia desta manobra narrativaconquistámos, mas depois eles adotaram a nossa língua, religião, costumes, portanto alguma coisa boa havia nisto.

E ainda mais subtil que a normalização da violência, é a fantasia de que a violência pode produzir, retroativamente, o seu próprio consentimento, tal como a mulher violada que se apaixona pelo seu violador. Pois se o conquistado/oprimido/despossuído/escravizado acaba por amar a língua do conquistador, então a conquista aparenta ser menos conquista—aliás, conquista é sinónimo de sedução e enamoramento, mascarando a violência e a apropriação, o poder-sobre. Se o refém demonstra afeição pelo captor, então o cativeiro parece ter produzido alguma reciprocidade. O resultado passa a funcionar como absolvição da assimetria original. O indulto ao colonizador!

E o que se mantém bem escondido é a possibilidade de uma ligação afectiva real ao outro sem que esse outro tenha de ser possuído, assimilado ou tornado semelhante a nós. A cultura que conquista tem dificuldade em reconhecer vínculo fora da hierarquia e apropriação. Porque a relação com outro humano, animal, floresta, rio ou lugar não precisa de culminar em domínio para ser íntima, ao poder implicar reciprocidade, dependência, transformação mútua e até amor sem apagar a diferença. Sem eliminar a alteridade, sem aplacar a diversidade, sem que ninguém se torne propriedade.

Quando confundimos conquista (domínio, controle, domesticação e propriedade) com vínculo, ficamos incapazes de reconhecer o vínculo que não conquista. A fantasia colonial chama “amor” à adaptação forçada de quem foi dominado ao mesmo tempo que negligencia os afectos que só existem quando o outro permanece verdadeiramente outro—não como propriedade subalterna.

O conquistador clama por esta interpretação da adaptação da vítima como amor, pois o amor inocenta e perdoa, em retrospetiva, toda a violência da conquista…

Pronto, era só isto hoje… de como esta popular ideia de “ama o teu captor” faz parte da vasta malha da psique colonial e de como normaliza relações hierárquicas de domínio e propriedade. Diz que afinal era “amor”…

Referências

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Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.