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Eucatástrofe
Continuar depois do fim de um mundo.
O termo eucatástrofe foi criado por J. R. R. Tolkien na sua reflexão sobre os contos de fadas, na conferência On Fairy-Stories, em 1939. Tolkien juntou o prefixo grego eu- (“bom”) a catástrofe, procurando nomear a súbita irrupção de alegria que pode acontecer precisamente quando a perda parece inevitável, não amortecendo a catástrofe, mas abrindo nela uma possibilidade que a lógica anterior não conseguia prever. Não quero subtrair o contexto desta palavra-território, por ser um conceito produzido por um intelectual branco, britânico no mundo cultural europeu e imperial do seu tempo.
Ainda assim, e sem clamar uma genealogia que não existe, podemos escutar na eucatástrofe ecos de sabedorias originárias que nunca separaram tão rigidamente morte e renovação, sofrimento e continuidade, passado e futuro. Longe da promessa moderna de que “tudo acabará bem”, seguindo a confiança relacional de que nenhuma ruptura esgota inteiramente as possibilidades da vida. Em cosmovisões indígenas que sustentam temporalidades circulares, parentesco não-humano e responsabilidade entre antepassados e gerações futuras, continuar depois do fim de um mundo não é esperar pela sua restituição, mas aprender a responder ao que ainda vive, regressa, transforma ou pede relação.
Precisava muito desta palavra-território, eucatástrofe, e nem sabia. E atenção que me recuso a fazer da eucatástrofe uma versão sofisticada da esperança, aliás, quero mesmo deslocá-la da esperança para a possibilidade viva sem garantia.
Um dos artigos que mais me impactaram recentemente foi o de Thornton et al., que trata do problema de que a esperança não é simplesmente acreditar que alguma coisa boa pode acontecer1 . Ando a digerir este artigo há meses, sem que as palavras brotem, mas parece que algo se moveu quando encontrei esta “nova” palavra”. Segundo este artigo, a esperança pode tornar-se uma exigência pedagógica e afectiva, onde tens de conseguir imaginar um futuro positivo para continuares a agir. Passando então a funcionar quase como condição de participação no mundo. Se não conseguimos acreditar que vamos vencer, salvar, regenerar ou evitar a catástrofe, resta-nos, aparentemente, o desespero. E é aqui neste binário peganhento, esperança/desespero, que a “esperança obscena” quer semear outras possibilidades. E eu quero muito fertilizar este binário com tantas outras possibilidades.
Prática para fertilizar o binário esperança/desespero
Ora imagina um lago onde a água é como um manto multidimensional, muito mais rico do que um redutor espectro linear horizontal ou uma escala vertical. Não estamos algures entre dois pólos, onde quanto mais nos afastamos do desespero mais nos aproximamos da esperança. Abrimo-nos a sentir-pensar como este manto vivo, como um ecossistema afectivo.
Neste manto vivo e em fluxo habitam muitas outras possibilidades para além do redutor binário esperança/desespero, tais como: possibilidade e alegria sem garantia, humor, responsabilidade, presença, fidelidade, absurdo, teimosia. Neste manto podem coexistir coisas aparentemente incompatíveis como luto e alegria, medo e compromisso, impotência e responsabilidade, incerteza e cuidado, raiva e ternura, absurdo e sentido2. Quase uma gramática viva para continuar sem precisar de salvação.
Por outro lado, o Chief Ninawa Huni Kui diz que o futuro depende muito menos das imagens esperançosas e positivas que projectamos adiante, do que da nossa capacidade de reparar relações, construir relações de outra forma e coordenarmo-nos agora, no presente. Esta não é uma crítica à possibilidade de futuro, mas à ideia moderna de que precisamos, primeiro, fabricar psicologicamente uma imagem positiva do futuro para depois agir.
É aqui, na dobra entra as exigência de certezas e salvação que me chega a eucatástrofe, como um manto de estrelas antigas cheias de canções que não consigo decifrar.
Eucatástrofe sem esperança
É importante ressalvar que a eucatástrofe não apaga a catástrofe, muito pelo contrário, pois só pode acontecer dentro dela. A alegria que irrompe não torna a perda menos real, daí a formulação tão bela: “Joy beyond the walls of the world, poignant as grief.” Não é alegria em vez do luto. É uma alegria vasta para continuar a conhecer o luto. O que permite distingui-la radicalmente do optimismo:
- optimismo: acredito que as coisas vão acabar bem;
- esperança convencional: preciso de acreditar que ainda podemos produzir um bom futuro;
- eucatástrofe: não sei o que acontecerá, não tenho garantia de redenção e continuo presente o suficiente para que algo que não podia prever possa acontecer.
A eucatástrofe cola-se à minha pele como algo de que preciso muito, a interrupção da inevitabilidade. Não para me dar certezas de que seremos salvos, mas para me abrir ao que existe agora, sem esgotar o que pode vir a existir. E isto é chão fértil e manto de estrelas.
Das “walls of the world” às paredes da separabilidade
Quero reler poeticamente as walls of the world de Tolkien como as paredes do mundo único—as paredes da separabilidade, do indivíduo autónomo, daquilo que é considerado vivo ou morto, humano ou não-humano, possível ou impossível.
E trago aqui a cosmologia que me habita e atravessa, de como a saúde psicológica do indivíduo está sempre e inevitavelmente em relação com a Criação, a comunidade, a Terra, os antepassados e as futuras gerações—aqui em relação estreita com o tempo cíclico e a impossibilidade de separar inteiramente passado, presente e futuro. Porque o bem-estar não reside simplesmente “dentro” da pessoa, pois corpo, emoções, parentesco, comunidade, cultura, lugar, espiritualidade e antepassados constituem campos interdependentes de existência.
Trago a eucatástrofe não como um evento individual, mas como uma relação que parecia impossível e que se torna novamente possível. Quando a água volta a ser parente. No momento em que alguém descobre que não precisa de suportar sozinha o que lhe disseram ser um sofrimento individual. Ou quando um território devastado começa a produzir outras formas de vida, sem regressar ao que era. Não são “finais felizes”, mas processos de re-enredamento. Talvez mesmo de re-encantamento.
E isto pode mudar o significado da alegria
Ahenakew et al. oferecem um chão potente. No paradigma da separabilidade, a tendência é fugir da dor. Mas no paradigma do entrelaçamento, sentir a dor colectiva e planetária, assumir responsabilidade e metabolizá-la relacionalmente pode abrir precisamente para formas mais profundas de alegria colectiva, capazes de dar energia para permanecer com a policrise. Isto aproxima-se da alegria eucatastrófica, longe de ser linear (dor → cura → alegria), é uma constelação viva (dor ↔ relação ↔ responsabilidade ↔ alegria).
A alegria não testemunha que escapámos à catástrofe. Pode expressar que, mesmo dentro dela, ainda somos capazes de relação. Não é felicidade produzida pela certeza, mas a experiência de que o mundo continua maior do que a nossa capacidade de fechá-lo!
A contribuição das psicologias da libertação
A eucatástrofe não pode tornar-se apenas uma experiência espiritual privada, pois isso retiraria precisamente a dimensão política necessária. Nas Psicologias da Libertação, Martín-Baró coloca no centro a recuperação da memória histórica, a tomada de consciência das ideologias da experiência quotidiana e a capacidade dos colectivos de reconhecerem e intervirem sobre as estruturas que produzem sofrimento. As psicologias da libertação não prometem que a psicologia resolverá a opressão, mas trabalham sobre os processos subjectivos e colectivos que permitem que determinadas estruturas pareçam naturais, inevitáveis ou incontestáveis.
E por isso convido a não fechar a potência política da eucatástrofe, exactamente por quebrar a sensação de inevitabilidade produzida pelas estruturas de poder. Parece que andamos fechados em caixas de inevitabilidade, com o colonialismo que diz: este é o único mundo possível; o capitalismo que grita: não há alternativa; ou a neurocolonização que sussurra: esta maneira de desejar, competir, possuir, separar e esperar é simplesmente humana.
Mas a eucatástrofe reivindica o pluriverso, não procurando substituir um mundo universal por outro, mas insistindo na possibilidade de “um mundo onde caibam muitos mundos” e nas formas comunitárias, recíprocas e não completamente subalternas à lógica do capital que continuam a existir nas suas fissuras.
O cuidado fundamental
Atenção que não quero de todo sugerir que a eucatástrofe é um conceito indígena, nem que Tolkien “estava a dizer a mesma coisa”. Tolkien oferece uma imagem situada, proveniente de uma linhagem literária europeia particular. As psicologias indígenas, pluriversais e da libertação oferecem outras genealogias, ontologias e práticas bem enraizadas em corpos-território. O encontro interessante acontece na fricção entre elas e não na equivalência.
E Kyle Whyte torna esta cautela ainda mais importante, pois para muitos povos indígenas, o apocalipse não é uma ameaça futura inédita. A colonização já significou o fim de mundos, relações, ecologias e modos de vida. As futuridades indígenas de que fala Whyte começam, por isso, muitas vezes a partir de condições já pós-apocalípticas: a questão já não é “como impedir o fim do mundo?”, mas como continuar responsabilidades ancestrais, relações e formas de vida após mundos terem sido violentamente destruídos.
O que trago é que a eucatástrofe não é esperança de que o mundo não acabe. É a descoberta de que um mundo ao acabar nunca significou que todas as possibilidades de relação acabaram com ele. A presença deixa de exigir esperança, mas exige relação e cuidado, mesmo quando já não podemos prometer um bom desfecho. Uma alegria sem garantia, que não exige esperança como combustível necessário, mas na qual o desespero não é o seu contrário. Abrimos caminho fora da salvação e dos finais felizes. Ah que alívio!
Mas a possibilidade de, no meio da devastação, algo romper a lógica que parecia total… um vínculo, uma reciprocidade, uma memória, uma insurreição, um gesto de cuidado, uma gargalhada, uma espécie que regressa, uma comunidade que se recompõe, uma obrigação ancestral que volta a ser assumida.
Joy beyond the walls of the world pode então tornar-se, muito mais do que a promessa de que existe um mundo melhor do outro lado das paredes, mas a súbita percepção de que as paredes nunca conseguiram conter todos os mundos. E isto é profundamente pluriversal, porque a eucatástrofe não salva o Mundo, mas revela que sempre houve mais mundo do que aquele que nos disseram ser possível.
É aqui que a eucatástrofe se encontra com a esperança obscena, não para a substituir, mas para libertar da obrigação de a exigir. Se a esperança obscena recusa a exigência de acreditar num futuro redentor, a eucatástrofe lembra-nos que a ausência de garantia não é ausência de abertura—não precisamos de saber que tudo ficará bem para continuar a responder ao que vive.
Quero cultivar a que baste permanecermos disponíveis ao inesperado, à relação e à alegria que pode ainda irromper, não apesar da catástrofe, mas dentro dela.
E o meu coração agradece.
4ª edição (des)formação Eco-Mitologia – 12 Movimentos da Metamorfose
🗓 23 setembro → 9 dezembro 2026
🕰 18h30–20h30 (online)
Referências
- Ahenakew, Cash, Sharon Stein, Vanessa Andreotti, Ninawa Inu Huni Kui, Lisa Taylor, Stacey Prince, Jaya Ramesh, Chelsea Williams, Rene Suša, Rose Vukovic, and Claudia Diaz-Diaz. 2025. “Decolonizing Mental Health in the Polycrisis: Pathways Toward Neuro-Decolonization.” American Psychologist 80 (8): 1297–1312. doi:10.1037/amp0001540.
- Bednarek, Steffi, ed. 2024. Climate, Psychology, and Change: Reimagining Psychotherapy in an Era of Global Disruption and Climate Anxiety. Berkeley, CA: North Atlantic Books. (North Atlantic Books)
- Bhatia, Sunil, Jesica Siham Fernández, and Christopher C. Sonn, eds. 2026. Decolonial Psychology: Academic and Activist Perspectives. Routledge. doi:10.4324/9781003492214.
- Comas-Díaz, Lillian, Hector Y. Adames, and Nayeli Y. Chavez-Dueñas, eds. 2024. Decolonial Psychology: Toward Anticolonial Theories, Research, Training, and Practice. Washington, DC: American Psychological Association. doi:10.1037/0000376-000.
- Kothari, Ashish, Ariel Salleh, Arturo Escobar, Federico Demaria, and Alberto Acosta, eds. 2019. Pluriverse: A Post-Development Dictionary. New Delhi: Tulika Books.
- Machado de Oliveira, Vanessa. 2025. Outgrowing Modernity: Navigating Complexity, Complicity, and Collapse with Accountability and Compassion. Berkeley, CA: North Atlantic Books. (North Atlantic Books)
- Narvaez, Darcia. 2021. “Principles of an Indigenous Way of Being.” Psychology Today, May 9, 2021.
- Thornton, Stephen, Robert Stratford, and Elena Louverdis. 2026. “The Obscenity of Hope: Educating Young People in the Anthropocene.” Ethics and Education 21: 144–157. doi:10.1080/17449642.2026.2645852.
- Wahinkpe Topa (Four Arrows) and Darcia Narvaez. 2022. Restoring the Kinship Worldview: Indigenous Voices Introduce 28 Precepts for Rebalancing Life on Planet Earth. Berkeley, CA: North Atlantic Books.
- Whyte, Kyle. 2017. “Indigenous Climate Change Studies: Indigenizing Futures, Decolonizing the Anthropocene.” English Language Notes 55 (1–2): 153–162. (Duke University Press)
Este artigo inverte o quadro dominante na literatura sobre a eco-ansiedade, em que investigadores defendem a “esperança trágica”, a “esperança radical” e a “esperança tenaz” como mecanismos de adaptação que entrelaçam o luto com a capacidade de agir. Enquanto Pihkala defende que as narrativas devem enfatizar a esperança no meio da tragédia para ajudar as pessoas a processar emoções profundas, Thornton et al. sustentam que a própria esperança é o obstáculo—uma exigência obscena imposta aos jovens que obscurece a realidade absurda de crises interligadas. O artigo alinha-se mais estreitamente com perspetivas que tratam a falsa esperança como algo fundamentado na negação da realidade, mas vai mais longe ao rejeitar por completo o conceito de esperança, em vez de distinguir as variantes construtivas das falsas. Em vez de se perderem no dualismo entre a esperança e o desespero, a sua abordagem abre a necessidade de uma mudança revolucionária. Os autores enquadram isto, de forma provocadora, como a base para uma revolução sem esperança na educação de jovens adultos.
Entre esperança e desespero há muito mais território do que esse binário deixa ver. Podemos desdobrar este espaço intermédio:
- possibilidade — algo pode acontecer, sem garantia de que aconteça;
- abertura — recusa de fechar o futuro numa previsão;
- responsabilidade — agir porque algo pede resposta, não porque o sucesso esteja assegurado;
- presença — permanecer com o que existe sem precisar de o transformar imediatamente;
- compromisso — continuar ligado a pessoas, lugares e lutas mesmo sem promessa de vitória;
- fidelidade — cuidar daquilo que importa apesar da incerteza;
- curiosidade — não saber o que virá e continuar disponível para descobrir;
- teimosia — continuar sem uma justificação redentora;
- coragem — agir conhecendo a possibilidade real de perda;
- luto — amar suficientemente para reconhecer o que está a desaparecer;
- raiva — reconhecer que algo não deveria estar a acontecer;
- recusa — não colaborar com aquilo que se apresenta como inevitável;
- imaginação — abrir possibilidades que ainda não existem;
- absurdo — permanecer perante uma realidade incoerente sem exigir que ela faça sentido;
- humor — quebrar a solenidade e a autoridade do inevitável;
- alegria sem garantia — experimentar vida, relação e beleza sem as usar como prova de que tudo acabará bem;
- eucatástrofe — a possibilidade de uma abertura imprevisível dentro da própria catástrofe.

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