TEMPO DE LEITURA – 6 MINUTOS
Como me tornei uma intelectual desempregada
Sobre a precariedade de pensar, criar e tentar sobreviver na economia da visibilidade.
Tenho este grito preso no peito há muito, muito tempo, mas há um tremendo pudor em falar da minha própria precariedade. Uma vergonha subtil, entranhada, de admitir a fragilidade de não conseguir, depois de tantos anos de estudo, investigação, criação e trabalho, garantir um rendimento que sustente a minha família.
Como se esta condição revelasse uma falha pessoal, uma incapacidade de gestão, de adaptação, de competência ou de saber «vender-me». Como se a ausência de rendimento fosse a prova de que o meu trabalho não tem valor. É aqui que a violência do individualismo neoliberal se torna íntima, quando as contradições estruturais são absorvidas pelo corpo como insuficiências pessoais. Quando a precariedade se transforma em vergonha que nos mantém em silêncio, protegendo os sistemas que a produzem.
Não partilho esta vulnerabilidade como queixa, nem para reclamar exceção ou recompensa pelo meu percurso.
Trago-a porque o pessoal não está separado do político, porque a minha experiência não acontece num vazio, e porque há algo profundamente perverso numa economia que exige a produção incessante de conhecimento, criatividade, presença e disponibilidade, enquanto torna cada vez mais difícil sustentar materialmente quem os produz. Falar da minha precariedade é também recusar continuar a carregar, individualmente e em silêncio, o peso de uma contradição coletiva.
E há ainda o medo de que, ao admitir que não consigo viver do meu trabalho, esteja a oferecer ao mundo uma razão para deixar de o levar a sério. Como se a minha conta bancária pudesse funcionar como medida da profundidade, do rigor ou da relevância do que me proponho a investigar, partilhar e desaprender.
Porque não é só o sistema que nos precariza, aprendemos e interiorizamos o olhar da nossa própria precariedade pelos critérios de valor deste sistema devorador. Já falei deste tema anteriormente:
Há mais de duas décadas que estudo, investigo, escrevo, crio, ensino, acompanho processos e desenvolvo pensamento independente. E estou desempregada. Quero ser mais literal: trabalho continuamente, mas sem rendimento suficiente para sustentar materialmente a minha vida. Não é uma metáfora, é precariedade diária.
É a estranha experiência de ter uma vida preenchida de trabalho, de perguntas e responsabilidades sem reciprocidade que reconheça as horas dedicadas e investidas.
Investir anos na maturação de conhecimentos, na construção de propostas pedagógicas, na investigação ecológica e relacional, e descobrir que nada disso garante a possibilidade de continuar.
E, perante a falta de rendimento, o que me é sugerido? Mais visibilidade, constante generosidade de conteúdos, presença, divulgação, consistência, estratégia, exposição. Tudo rapidamente afogado em ruído de tanto. Para conseguir trabalhar, tenho de trabalhar gratuitamente na promoção do trabalho que não me permite viver. E o mais desconcertante é que participo nisto há anos…
Não por ingenuidade, e muito menos por acreditar nas promessas do empreendedorismo digital. Mas porque precisava, e continuo a precisar, de encontrar formas de sustentar a minha vida, tentando não me abandonar no caminho. Porque a perversidade é que a necessidade económica não desaparece quando compreendemos criticamente os sistemas que a produzem. Pelo contrário, torna a nossa dependência deles ainda mais dolorosamente visível.
Investigo o extrativismo enquanto participo numa economia que extrai o meu tempo e o meu corpo.
Questiono a aceleração enquanto sou pressionada a produzir mais depressa.
Escrevo sobre a importância da atenção enquanto a minha é continuamente fragmentada pelas exigências de visibilidade.
Defendo a profundidade enquanto tento convencer um algoritmo de que o que faço merece alguns segundos de exposição.
E, no fim do mês, continuo sem rendimento suficiente.
Não me falta trabalho. Falta-me a possibilidade material de viver dele.
E esta é uma das violências mais discretas da economia contemporânea do conhecimento: convencer-nos de que a ausência de rendimento é consequência de uma insuficiência individual de comunicação, estratégia, posicionamento ou produtividade. Como se a precariedade fosse um defeito de marketing e a solução para a exploração fosse aprender a explorar-nos com maior eficiência.
Entre o reconhecimento e a sobrevivência
O desafio é falar destes temas com dignidade e sem cair em discursos de coitadinha. Há uma distinção política importante entre dizer que o meu trabalho não é reconhecido e dizer que o meu trabalho não me permite sobreviver. A primeira pode ser interpretada como uma procura de validação, mas a segunda obriga-nos a confrontar as condições económicas que tornam o trabalho intelectual independente insustentável.
Não quero, de todo, romantizar a figura da intelectual precária como alguém mais autêntica, livre ou radical por estar fora das instituições. Porque a precariedade não é nem uma virtude ecológica, nem uma prova de integridade. Destrói a capacidade de pensar, criar e cuidar que queremos defender.
Muito importante é nomear a invisível dimensão do próprio discurso do propósito, da vocação, do amor pelo mundo e da generosidade a ser mobilizada para normalizar o trabalho não remunerado. Se amas o que fazes, continua. Se acreditas na tua missão, não desistas. Mas quem paga a renda?
E, claro, que não implico aqui que pessoas individuais que consomem gratuitamente o meu trabalho estão a explorar-me. Partilho gratuitamente o que ainda consigo e sei que muitos também vivem em precariedade. Porque a extração é muito mais funda do que cada um de nós individualmente ao envolver plataformas que monetizam a circulação, sistemas de propriedade e desigualdades na capacidade de financiar o trabalho intelectual. Esta distinção é importante porque a crítica estrutural que aqui trago não é, de todo, uma cobrança moral aos leitores. Mas um grito colectivo.

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