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Os contos tradicionais não são inocentes
Entre a memória da Terra e a violência da História
Há uma tendência, nos movimentos contemporâneos de recuperação do sagrado, da ancestralidade e das tradições populares, de olhar os contos tradicionais como reservatórios de uma sabedoria antiga, pura e intocada, como se a sua antiguidade lhes conferisse uma inocência original.
Mas os contos nunca existiram fora da História, dos fluxos, das migrações, da política, da propaganda ou dos impérios. São organismos culturais atravessados por séculos de subsistência, parentesco, medo, desejo, violência, evangelização, hierarquias de género, racialização e resistência. Como mostram as investigações de Kimberly Lau, Cristina Bacchilega e Sadhana Naithani, o que hoje reconhecemos como o património universal dos contos de fadas foi também moldado por processos de recolha, edição e escolha, tradução, classificação e reescrita inscritos em relações de poder.
A tradição oral não é um arquivo intocado e imaculado de um passado anterior à dominação, mas um território onde diferentes mundos continuam a disputar o direito de existir e de ser lembrados. Idealizar os contos como expressões de uma ancestralidade harmoniosa pode, paradoxalmente, prolongar os apagamentos que dizemos querer reparar, tornando invisíveis as mulheres silenciadas, os corpos considerados impuros, os animais demonizados e as cosmologias reduzidas a superstição. Porque a antiguidade de uma narrativa não garante a sua inocência, nem a sua dimensão sagrada ou popular a torna imune à violência.
É nas contradições que os contos revelam uma extraordinária espessura ecológica e política.
A pele animal pode representar uma maldição a quebrar, mas também uma condição de pertença, protecção ou metamorfose que não deveria ser violentamente interrompida.
A floresta pode surgir como território ameaçador a conquistar, mas também como comunidade viva que impõe limites, exige reciprocidade e desorienta a soberania humana.
A racialização da mulher escura como inerente má, a bruxa ou a rival podem ser construídas como figuras de impureza a eliminar, mas certas leituras simbólicas permitem reconhecer nelas dimensões da ciclicidade, da morte, da fertilidade e da transformação que a ordem patriarcal procura domesticar.
Os estudos de Isabel Cardigos e Francisco Vaz da Silva interrogam camadas de metamorfose, periodicidade e simbolismo corporal, sem que isso implique que todas as personagens opostas tenham necessariamente uma origem comum ou uma interpretação única. Mas não se aventuram nas camadas desenhadas como propaganda racial, política ou imperial.
Por outro lado, não existem, simplesmente, contos patriarcais de um lado e contos ecológicos do outro… frequentemente, ambas as lógicas habitam a mesma narrativa, sobrepostas como sedimentos de diferentes tempos. Um conto pode preservar uma memória de interdependência entre humanos e animais e, simultaneamente, legitimar a submissão feminina, a punição da diferença ou a apropriação do território. É nesta coexistência desconfortável, e não na procura de uma suposta versão original e pura, que uma leitura eco-mitológica crítica encontra parte da sua potência.
Recuperar os contos, neste contexto, não significa regressar a uma ancestralidade idealizada, nem procurar neles uma confirmação reconfortante da nossa espiritualidade contemporânea. A ancestralidade não é sinónimo de inocência, e honrar uma tradição não exige absolver as violências que ela transporta.
Uma abordagem eco-mitológica, ecofeminista e decolonial convida-nos a perguntar quem pôde contar estas histórias, quem as recolheu, quem decidiu quais mereciam sobreviver e que relações de poder continuam naturalizadas nos seus desfechos.
Porque é necessário matar o monstro para restaurar a ordem?
Porque é a pele animal frequentemente sacrificada para que a personagem se torne humana e socialmente aceitável?
Porque é a beleza é branca e recompensada com casamento, enquanto a diferença é castigada?
E que outras possibilidades de convivência ficaram por imaginar?
Estas perguntas não são para purificar os contos, substituindo uma narrativa dominante por outra igualmente totalizante. Mas devolver-lhes a complexidade histórica, ecológica e relacional, reconhecendo que são simultaneamente lugares de memória, domesticação, sobrevivência e insubordinação. Que recuperemos a capacidade colectiva de as interrogar, transformar e voltar a contar, sem esquecer quem pagou o preço dos seus finais felizes.
Referências
Bacchilega, Cristina. 1997. Postmodern Fairy Tales: Gender and Narrative Strategies. Filadélfia: University of Pennsylvania Press.
Bacchilega, Cristina. 2013. Fairy Tales Transformed? Twenty-First-Century Adaptations and the Politics of Wonder. Detroit: Wayne State University Press.
Bacchilega, Cristina, e Sadhana Naithani. 2017. “Colonialism, Postcolonialism, and Decolonization.” Em The Routledge Companion to Media and Fairy-Tale Cultures, editado por Pauline Greenhill, Jill Terry Rudy, Naomi Hamer e Lauren Bosc, 83–90. Nova Iorque: Routledge.
Lau, Kimberly J. 2024. Specters of the Marvelous: Race and the Development of the European Fairy Tale. Detroit: Wayne State University Press.
Cardigos, Isabel. 1996. In and Out of Enchantment: Blood Symbolism and Gender in Portuguese Fairytales. Helsínquia: Academia Scientiarum Fennica / FF Communications.
Cardigos, Isabel. 1998. “Da Fase à Face.” Estudos de Literatura Oral 2–4: 62–71.
Cardigos, Isabel, e Paulo Correia. 2015. Catálogo dos Contos Tradicionais Portugueses. Faro: Centro de Estudos Ataíde Oliveira, Universidade do Algarve.
Vaz da Silva, Francisco. 2002. Metamorphosis: The Dynamics of Symbolism in European Fairy Tales. Nova Iorque: Peter Lang.
Vaz da Silva, Francisco. 2008. Archeology of Intangible Heritage. Nova Iorque: Peter Lang.
Vaz da Silva, Francisco. 2011. Gata Borralheira e Contos Similares. Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores.
Vaz da Silva, Francisco. 2012. Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje: Contos Maravilhosos Europeus. Lisboa: Temas e Debates.
Viveiros de Castro, Eduardo. 2014. Cannibal Metamorphoses: An Infinitive Anthropology. Traduzido por Peter Skafish. Minneapolis: Univocal Publishing.

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