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O Fruto que Esqueceu da Sua Árvore
Sobre a Abstração Extrativa, o Pensamento Relacional e as Ecologias do Conhecimento
Há um tipo bizarro de esquecimento que ocorre quando um fruto chega à prateleira de um supermercado. Depois de ter sido colhido e transportado, embrulhado em plástico, a sua cor é sedutora e ainda resta um pouco de fragrância, guardando memórias esbatidas do pomar, da chuva e do calor do final do verão. Embora a seguremos nas mãos como se fosse algo completo, um objeto autónomo, à disposição dos nossos desejos gustativos.
No entanto, quase tudo o que tornou esta fruta possível desapareceu de vista. Como o solo e os seus habitantes, as relações fúngicas subterrâneas, os insetos que visitaram as suas flores. Mas também os pássaros que fizeram ninhos nos seus ramos, as narrativas e histórias da seleção de sementes, do cultivo, do confinamento, da migração e do trabalho. As secas e as geadas que moldaram a sua estação específica. E, claro, as mãos e as histórias que a colheram, as infraestruturas que a transportaram e as economias que decidiram para onde deveria ir e quem teria meios para a comer. Nenhuma destas relações é visível na casca polida e, no entanto, a fruta não poderia ter existido sem elas.
Trago como algo semelhante acontece com o pensamento e a abstração. Pela eco-mitologia dos frutos, quero trazer uma distinção entre a abstração extrativa e a abstração relacional. A primeira, oca e distanciada; a segunda, enraizada e situada. Enquanto a abstração extrativa retira os conceitos dos seus contextos e os torna disponíveis para circulação, aplicação e apropriação sem preservar as obrigações que os acompanham, a abstração relacional permite que os conceitos atravessem contextos, exigindo escuta, negociação, reconhecimento de limites e responsabilidade.
Não se trata de escolher entre o pensamento abstrato e o concreto, mas de questionar o que acontece à abstração conceptual quando deixa de reconhecer as relações (ecológicas, locais, afetivas, espirituais e materiais) que a tornaram possível. Lembrando que o pensamento de abstração relacional e enraizada não é menos abstrato do que o pensamento académico moderno, ao ser extraordinariamente sofisticado, capaz de trabalhar simultaneamente com temporalidades, contradições, obrigações, laços de parentesco, escalas e condições de existência que resistem à categorização.
Como, por exemplo, a presença eco-mítica de um fruto e a sua vida suculenta, sensual, ecológica e mítica, que constitui um evento relacional requintado. Os frutos contêm luz solar, solo, casca, alianças subterrâneas, polinização, clima, fome, migração, decomposição e vidas futuras. A sua aparente simplicidade esconde uma complexidade surpreendente de relações — enraizadas, incorporadas e situadas.
Trago a jornada do fruto desde a árvore até à sua separação. Porque a separação não põe fim à relacionalidade, mas reorganiza-a. Todos sabemos que mesmo uma ideia extraída continua a ter consequências, beneficiários, custos e obstáculos à circulação. Após a separação do fruto da árvore, e durante algum tempo, este preserva a sua cor, fragrância, forma e doçura. Pode ser transportado, exposto, classificado, comprado e consumido. Mas o momento da separação altera as suas possibilidades, deixa de poder amadurecer através da sua relação com a árvore viva. Abrindo outras relações, incluindo as de fermentação, decomposição, dispersão e nutrição.
Não procuro que nenhum fruto em particular se torne um símbolo universal, pois frutos diferentes carregam ecologias, histórias e obrigações diferentes. Vamos seguir três encontros férteis:
o figo como uma ecologia de floração interior;
o fruto dourado guardado pelas Hespérides e a política de acesso;
a romã de Perséfone e as obrigações irreversíveis da ingestão;

O fruto sem a sua árvore
Antes de avançar para o figo trago que uma das estranhas conquistas das tradições intelectuais modernas é a sua capacidade de produzir abstrações extraordinariamente elaboradas, ao mesmo tempo que obscurecem as condições que tornaram essas abstrações possíveis. E as pessoas reagem quando essas condições se tornam visíveis… de forma defensiva…
Neste quadro cultural, há a premissa de que qualquer ideia pode surgir de qualquer lugar.
Nas tradições intelectuais modernas, impregnadas de estruturas heróicas, a abstração surge geralmente de um «indivíduo» — embora esse indivíduo tenha um corpo, uma língua e um momento histórico específico, não sendo um sujeito universal. As ideias e os conceitos também têm origem em instituições, territórios, conflitos, cosmologias e relações de poder. No entanto, através de processos refinados de reducionismo conceptual e repetição institucional, adquirem gradualmente a aparência de algo que surgiu do nada, algo «novo», ou da autoria exclusiva de um indivíduo. Puff
Assim, uma experiência particular, situada e com condições específicas, torna-se uma teoria aplicável a tudo e a todos. A teoria evolui para uma norma invisível. E a norma estabelece uma medida supostamente universal e neutra, em relação à qual outros mundos são julgados e avaliados. O fruto é exibido sem a sua árvore.
Tal como o fruto sem a sua árvore, certas tradições da psicologia moderna construíram um sujeito humano historicamente específico — individualizado, dono de si, relativamente autónomo, separável do território e inteligível principalmente por processos psicológicos internos. Esta nunca foi uma descrição neutra da humanidade, pois surgiu no seio de histórias europeias específicas de religião, propriedade, expansão colonial, industrialização, classificação científica e conceitos de personalidade.
No entanto, estas condições históricas têm frequentemente desaparecido dos quadros conceptuais que ajudaram a produzir. Consequentemente, a Europa deixa de aparecer como um contexto e um território histórico entre outros, e torna-se a posição aparentemente sem lugar a partir da qual a própria humanidade pode ser descrita.
É a isto que eu chamaria de abstração oca ou extrativa. O fruto sem a sua árvore. Embora um fruto sem o seu pomar e a sua árvore não esteja isento de relações, sem nos esqueçamos de que também não existe um «fruto universal geral»… uma maçã não é o mesmo que um figo, nem que uma romã…
Isto também NÃO é um pensamento sem sofisticação ou incapaz de complexidade. Mas uma abstração conceptual cuja complexidade foi progressivamente dissociada da obrigação de responder às relações que a tornaram possível. Separada de impactos, consequências e responsabilidades. A sua extração pode alimentar um corpo distante, sustentar uma rede comercial, gerar lucro para alguém que nunca viu o pomar, ou deixar o solo empobrecido e os trabalhadores exaustos. As suas relações originais não desaparecem por se terem tornado invisíveis para o consumidor.
O mesmo se aplica ao conhecimento, às ideias e aos conceitos.
Uma abstração, uma vez extraída das suas condições de nascimento, continua a agir no mundo. Afinal, vivemos com base nos subprodutos destas abstrações separadas, neutras e universais — classificando outras pessoas, organizando instituições, moldando intervenções terapêuticas, legitimando políticas e determinando quem é considerado portador de conhecimento credível.
Porque todas as abstrações estão inevitavelmente ligadas ao mundo, mas não podemos esquecer que tipos de relações elas produzem, que relações ocultam e perante quem continuam a ser responsáveis.

O figo que floresce para dentro
Cortemos um figo maduro ao meio. A sua casca macia revela um interior denso e brilhante, um conjunto surpreendente de pequenos e suculentos botões dobrados sobre si próprios. O que chamamos casualmente de figo é uma estrutura floral que inclui relações complexas com vespas polinizadoras em muitas espécies de figueira.
O figo contraria as nossas expectativas. Onde está a flor? Onde está o fruto? Onde termina a vida de um organismo e começa a de outro? O que parece ser uma entidade única é, na verdade, um conjunto íntimo de múltiplas vidas e temporalidades. De asas, açúcar, águas profundas e sombra de verão.
Na imaginação eco-mítica, o figo é especialmente provocador. A sua floração interior tem suscitado associações com a fertilidade oculta, passagens subterrâneas, interiores corporais e os mistérios da transformação. A complexidade biológica já é maravilhosa, sem necessidade de se tornar uma alegoria espiritual.
A figueira oferece uma forma de abordar a abstração enraizada e relacional, não porque represente uma forma mais autêntica ou primitiva de conhecimento, mas porque interrompe a nossa expectativa de que a compreensão exija isolar as coisas das suas relações.
Tal como uma pessoa que conhece profundamente um rio pode reconhecer mudanças subtis nas correntes, os ciclos reprodutivos dos peixes, a memória de cheias anteriores, o comportamento das margens, as obrigações das comunidades vizinhas e as implicações das alterações na precipitação ao longo das gerações. A partir destas relações, podem emergir conceitos sofisticados de temporalidade, causalidade, reciprocidade, incerteza, paradoxo e responsabilidade. Este conhecimento não é menos abstrato por ser incorporado e situado… muito pelo contrário, ao poder sustentar complexidades que formas mais distanciadas de conhecimento têm sistematicamente excluído.
O pensamento enraizado e relacional reconhece padrões entre espécies, gerações, territórios e cosmologias, sem fingir que esses padrões existem independentemente das suas circunstâncias.
Tal como o figo, a sua sofisticação não é necessariamente visível do exterior. É preciso aprender a descobrir o seu esplendor interior sem partir do princípio que abri-lo confere domínio sobre tudo o que contém. Aqui, a abstração torna-se generosamente relacional, mantendo-se responsável perante os mundos de onde retira a sua compreensão.

O fruto dourado e a fantasia da posse
No mito grego das Hespérides, frutos dourados crescem num jardim vigiado nos confins do mundo conhecido — maçãs douradas ou citrinos, dizem. Hércules é encarregado de obter esses frutos associados ao privilégio divino, de vitalidade tremenda, na promessa de algo que os mortais normalmente não podem possuir.
A interpretação heróica habitual enfatiza a dificuldade da tarefa, a força do herói, a superação dos guardiões e a aquisição bem-sucedida de um tesouro altamente cobiçado. Mas uma interpretação eco-mítica poderia colocar questões diferentes.
O que acontece quando um fruto se torna um objeto de conquista?
Que relações têm de ser transgredidas, negociadas, violadas ou apagadas para que se torne uma posse?
Quem cuida do jardim? Quem o guarda?
E por que razão a narrativa heróica privilegia tão frequentemente aquele que retira o fruto em detrimento daqueles cujas relações sustentam a sua existência?
O valor do fruto dourado parece concentrar-se no próprio objeto, como se o seu poder extraordinário pudesse simplesmente ser levado — há algo de familiar e profundamente perturbador nesta fantasia.
Os sistemas modernos de conhecimento têm frequentemente tratado os conceitos de forma muito semelhante, recolhendo ideias de diferentes povos e territórios, separando-as das suas línguas, histórias, protocolos e obrigações. Em seguida, transportam-nas para instituições onde podem circular como propriedade intelectual ou como insights universalmente aplicáveis.
Uma cosmologia torna-se um quadro de referência, enquanto uma cerimónia se transforma numa técnica e uma relação converte-se num princípio. Uma prática indígena surge como uma intervenção que pode ser adquirida, ensinada e reproduzida sem as obrigações políticas ou territoriais que lhe conferiam significado. O fruto dourado foi colhido.
Mas o que aconteceu ao jardim e a todos os seus habitantes ligados por laços de parentesco?

A romã — o conhecimento que une
No mito de Perséfone, algumas sementes de romã desencadeiam uma transformação crucial. O fruto do submundo não é meramente algo para ser consumido e esquecido, pois comê-lo vincula Perséfone a um mundo que ela não pode simplesmente deixar para trás. O mito também contém violência, rapto, luto materno, negociações divinas e relatos contraditórios sobre a agência. A sua complexidade não deve ser suavizada numa história reconfortante sobre as estações do ano.
No entanto, a romã levanta uma questão sobre o conhecimento: E se saber algo significasse assumir obrigações que não poderiam ser desfeitas simplesmente afastando-se?
Em muitos sistemas de conhecimento modernos, a compreensão é imaginada principalmente como aquisição e adição. Recolhemos informação, integramos conceitos, desenvolvemos literacia e fluência teóricas e transportamos esse conhecimento para novos contextos.
Mas conhecer as histórias de um território, a destruição de um ecossistema ou o deslocamento de uma comunidade pode significar assumir responsabilidades que não podem ser cumpridas apenas através da compreensão.
A semente da romã é pequena, embora a relação para a qual nos convida não o seja. Aqui, a abstração relacional não consiste simplesmente em recordar as nossas origens. Mas não nos isentarmos das consequências, ao atravessar mundos enquanto somos transformadas por eles. O que o nosso conhecimento realmente exigiu de nós? O que permitimos que ele interrompesse, transformasse ou tornasse impossível de ignorar?
Se nada nas nossas relações, instituições, práticas ou pressupostos pode ser alterado pelo que afirmamos compreender, talvez o conhecimento tenha permanecido em segurança dentro dos limites do consumo e da extração. Enquanto continuamos a devorar o mundo. Provámos o fruto sem nos permitirmos ser implicados no seu mundo.
Amadurecer não é acumular
Um fruto não amadurece ao acumular uma quantidade ilimitada de informação. A sua maturação desenrola-se por relações em constante mudança entre temperatura, água, açúcares, ácidos, hormonas, microrganismos e tempo. A transformação não pode ser separada das condições em que ocorre.
Nem sempre o amadurecimento é sinónimo de melhoria. Alguns frutos amadurecem após a colheita, outros dependem de permanecerem ligados à planta — demasiado calor, pouca água, doenças ou colheita prematura podem alterar o seu desenvolvimento. Alguns tornam-se mais doces, enquanto outros secam, racham, fermentam ou caem antes de atingirem o que os humanos chamariam de maturidade. Não existe uma trajetória única e universal de fecundidade.
Isto põe em causa o pressuposto moderno de que a sofisticação intelectual aumenta necessariamente com o refinamento conceptual, a especialização e a distância da experiência imediata.
Uma teoria extraordinariamente complicada pode continuar a ser profundamente reducionista. Por exemplo, pode desenvolver descrições elaboradas do sofrimento psicológico sem incluir a destruição histórica dos territórios que sustentam as relações entre as pessoas. Ou pode medir a ansiedade ecológica, ao mesmo tempo que apaga a diferença entre antecipar uma possível catástrofe futura e viver as consequências multigeracionais de um ecocídio violento e da desapropriação.
A sua complexidade torna-se elegante precisamente porque certas relações foram excluídas, silenciadas, exiladas e sistematicamente mutiladas. Em contrapartida, o pensamento relacional pode tornar-se cada vez mais sofisticado ao sustentar contradições, ambiguidades e paradoxos sem os resolver prematuramente. Porque a complexidade não é simplesmente a acumulação de variáveis mais complicadas, mas o cultivo de uma capacidade de permanecer sensível a relações que nenhum conceito pode conter na totalidade. Isto requer tempo (muito e lento) e uma responsabilidade humilde.
Porque, afinal, o pomar sempre foi político
O pomar é ecopolítico, afinal a fruta não pode ser separada das histórias das cercas, da agricultura de plantação, do trabalho forçado, da propriedade da terra e da mercantilização da própria vida.
E não estamos à procura de outro ideal moral através da «escolha certa» entre uma abstração relacional e enraizada — nada disto é sobre passarmos de um conhecimento mau e distanciado para um conhecimento bom e conectado. O solo fértil distingue o conhecimento imaginado como posse do saber entendido como participação, com consequências inevitáveis. Porque até a extração produz relações.
A contribuição eco-mítica do fruto para este ensaio não é como símbolo de totalidade, mas um convite às transformações confusas, íntimas e periodicamente violentas da existência relacional. O fruto leva-nos a uma linguagem sensual do pensamento.
Referências:
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