A Ecologia do Imaginável

Antropocentrismo, Separabilidade Colonial e as Condições Não-Humanas da Imaginação

 

Isto tem-me incomodado há anos.

Então vamos lá ver, se o pensamento é invariavelmente visceral (a cabeça está no corpo e não no espaço sideral), a imaginação é inevitavelmente ecológica (o corpo que pensa, sente, imagina e sonha está SEMPRE dentro de uma ecologia).

O que me chateia é a definição moderna de imaginação. O problema central desta definição normopática não é apenas o facto de reconhecer a imaginação como uma capacidade apenas humana, mas também de atribuir as origens dos imaginários quase inteiramente à cognição humana e à experiência social. O mundo ecológico surge, na melhor das hipóteses, como uma fonte de experiências a partir das quais os humanos constroem representações e significados, em vez de ser um participante vivo, material e relacional na própria possibilidade de imaginar.

E não poderia discordar mais… Então, lá vamos nós, outra vez, escorregar na maionese.

Não podemos esquecer que a experiência incorporada é inevitavelmente gerada ecologicamente. Não é possível imaginarmos independentemente do mundo vivo para, posteriormente, recorrermos a ele em busca de inspiração… imaginamos através das relações ecológicas, das condições materiais, dos encontros multiespécies e dos entrelaçamentos históricos que tornam possível a nossa existência e perceção.

Este contexto é importante porque o entrelaçamento ecológico nunca foi uma influência opcional na imaginação, mas sim uma das suas condições essenciais e inevitáveis. Não existimos primeiro como sujeitos imaginativos autónomos para, só depois, encontrarmos um mundo ecológico que nos forneça inspiração! Crescemos e tornamo-nos capazes de sentir, recordar, sonhar, antecipar e imaginar através de relações que nos precedem, sustentam e ultrapassam.

Contestemos pressupostos invisíveis

O primeiro é o clássico «a imaginação como representação mental». Definir a imaginação, principalmente, como a representação de algo ausente implica um processo cognitivo interno. No entanto, a imaginação é também sensorial, afetiva, incorporada e altamente situada. Uma paisagem não é meramente representada por um sujeito imaginativo… os seus cheiros, sons, temperaturas, ritmos, organismos e transformações materiais participam na configuração do que se torna imaginável.

A segunda é a premissa moderna de que «a experiência é exclusivamente humana». Deixando por nomear a constituição ecológica dessas experiências. A corporeidade humana já é multiespécies, atmosférica, microbiana, geológica e metabólica. Mesmo as nossas fantasias aparentemente mais abstratas emergem de corpos que nunca (nunca!) existiram fora das relações ecológicas.

A terceira afirmação é que «o mundo é um recurso e não um participante». As definições de imaginação reconhecem suposições coletivas, mas parecem entender o coletivo como exclusivamente humano. Isto deixa pouco espaço para imaginar com rios, florestas, animais, estações do ano, perturbações, territórios ancestrais e as consequências materiais da mudança ecológica. Estas relações não se limitam a enriquecer a imaginação com conteúdo, na verdade, são parte fundamental do molde das suas possibilidades e limites.

Não nos esqueçamos da perturbação temporal. Imaginar não é necessariamente representar algo que não está presente no momento. A imaginação pode ser uma forma de perceber o que já está presente, mas que é negligenciado, tornado invisível ou incompreensível pelas normas culturais hegemónicas.

A imaginação como co-emergência ecológica

Não é suficiente classificar os imaginários como produtos de representações mentais humanas, especulações criativas ou fantasias coletivas. Tal arrisca reproduzir uma separação antropocêntrica entre o sujeito imaginante e um mundo ecológico que se presume fornecer apenas o pano de fundo ou a matéria-prima para a construção de significado humano.

Porque a imaginação está sempre ecologicamente situada e constituída de forma relacional!! Emerge a partir de entrelaçamentos corporais, sensoriais, afetivos, históricos e materiais com um mundo não humano que molda ativamente o que pode ser percebido, lembrado, antecipado e imaginado. Paisagens, águas, solos, outras espécies, estações do ano e perturbações ecológicas nunca foram apenas objetos da imaginação, mas participantes ativos e vivos nas condições pelas quais os imaginários se tornam possíveis.

Os imaginários não são invenções exclusivamente humanas, nem representações impostas a um mundo que, de outra forma, seria passivo. São fios relacionais que emergem a partir de encontros contínuos entre corpos, territórios, histórias, práticas culturais, processos ecológicos e relações de poder.

Imaginar é, portanto, não só projetar realidades alternativas, mas também tornar-se sensível aos mundos que já participam no nosso devir, incluindo aqueles cuja presença, agência ou desaparecimento os imaginários dominantes nos ensinaram a não reconhecer.

Observa estas diferenças e implicações ontológicas:

  • Imaginar sobre a natureza — A natureza torna-se um objeto de representação humana.

  • Imaginar a partir da natureza — A experiência ecológica torna-se uma fonte de inspiração ou conhecimento.

  • Imaginar com a natureza — Os seres e processos não humanos são reconhecidos como participantes ativos que moldam a imaginação.

  • Imaginar através do entrelaçamento ecológico — As relações ecológicas são condições essenciais da própria imaginação, não meras influências sobre ela.

É importante ressaltar que isto não implica afirmar que os rios ou as florestas imaginam da mesma forma que os humanos. Implica questionar por que razão a cognição humana deve ser considerada o único local de agência imaginativa e por que razão a participação ecológica permanece conceptualmente invisível.

Um passo mais além

Quero ir um passo mais além, talvez tropeçar mesmo, pois a definição individual e antropocêntrica faz mais do que omitir a ecologia: arrisca reproduzir o pressuposto colonial de que os humanos são os principais autores dos mundos, enquanto a terra e os seres não humanos estão disponíveis para serem representados, interpretados e transformados. Aqui, ao seguir esta linha de raciocínio, abrimos a outras capacidades de criação de mundos que não são reconhecidas ou que são silenciadas, e às relações ecológicas que tornam determinados futuros possíveis ou impossíveis.

Hans Asenbaum, em Theorizing With Nonhumans (2026), desafia o pressuposto de que a teoria é produzida de forma autónoma por investigadores humanos. A sua noção de «conjunto teorizante» entende os participantes humanos e não humanos como co-geradores de conhecimento. Isto oferece um paralelo metodológico para passar de imaginar «sobre» para imaginar «com».

Cash Ahenakew e colegas, em Decolonizing Mental Health in the Polycrisis (2025), identificam a separabilidade como uma formação moderna/colonial que obscurece a nossa imersão constitutiva no metabolismo vivo da Terra. A sua distinção entre separabilidade e entrelaçamento oferece uma base ontológica para esta crítica — a imaginação não pode ser ecologicamente independente porque o sujeito que imagina não é ecologicamente independente.

Kyle Whyte, em Indigenous Climate Change Studies: Indigenizing Futures, Decolonizing the Anthropocene (2017), situa os futuros imaginados no seio das memórias coletivas dos povos indígenas, dos seus patrimónios vivos, das experiências de perturbação colonial e das responsabilidades para com os seus territórios. Imaginar futuros é, portanto, inseparável das histórias situadas das relações ecológicas, das lutas políticas e da autodeterminação.

E também há uma tensão importante no trabalho de Naomi Terry e colegas, Inviting a Decolonial Praxis for Future Imaginaries of Nature (2024). A sua «Entangled Time Tree» tenta explicitamente ir além da construção linear e ocidentalocêntrica do futuro, reconhecendo múltiplos passados, temporalidades e tradições narrativas. A pluralidade das histórias humanas é insuficiente, a menos que os participantes ecológicos e as condições materiais da imaginação sejam também reconhecidos.

Sobre a perda da imaginação

Se o entrelaçamento ecológico não é meramente o contexto ou o conteúdo da imaginação, mas uma das suas condições constitutivas… E se a crise da imaginação não for a nossa incapacidade de imaginar futuros alternativos, mas o empobrecimento, a destruição e o silenciamento sistemático das relações ecológicas através das quais diferentes futuros se tornam imagináveis?

A perda de uma floresta, de um rio, de uma espécie, de uma língua ou de uma prática de reciprocidade ecológica não é simplesmente a perda de algo sobre o qual possamos imaginar. Significa também a erosão de relações, capacidades sensoriais, memórias culturais e possibilidades para a própria imaginação.

Neste sentido, a devastação ecológica é também um empobrecimento das circunstâncias da imaginação. E a regeneração da imaginação não pode ser reduzida à geração de novas narrativas ou futuros especulativos. Deve também envolver a regeneração de relações vivas.

Porque não nos limitamos a imaginar mundos possíveis. Imaginamos porque já estamos a ser feitos e desfeitos pelos mundos, e a nossa capacidade de imaginar muda à medida que esses mundos são transformados, feridos ou regenerados.

Referências

  • Asenbaum, Hans. «Theorizing with Nonhumans.» Em *The Oxford Handbook of Grounded and Engaged Normative Theory*, editado por Brooke A. Ackerly, Luis Cabrera, Monique Deveaux, Flávia Biroli, Genevieve Fuji Johnson, Gina Starblanket e Antje Wiener, 173–85. Oxford: Oxford University Press, 2026. https://doi.org/10.1093/9780197766927.003.0019.

  • Ahenakew, Cash, Sharon Stein, Vanessa Andreotti, Ninawa Inu Huni Kui, Lisa Taylor, Stacey Prince, Jaya Ramesh, Chelsea Williams, Rene Suša, Rose Vukovic e Claudia Diaz-Diaz. «Descolonizar a Saúde Mental na Policrise: Caminhos para a Neurodescolonização.» American Psychologist 80. https://doi.org/10.1037/amp0001540.

  • Terry, Naomi, Azucena Castro, Bwalya Chibwe, Geci Karuri-Sebina, Codruța Savu e Laura Pereira. «Convidando a uma Prática Descolonial para Imaginários Futuros da Natureza: Apresentando a Árvore do Tempo Entrelaçada.» Environmental Science & Policy 151 (2024). https://doi.org/10.1016/j.envsci.2023.103615.

  • Whyte, Kyle Powys. «Estudos Indígenas sobre as Alterações Climáticas: Indigenizar os Futuros, Descolonizar o Antropoceno.» English Language Notes 55. https://doi.org/10.1215/00138282-55.1-2.153.

 

 

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