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Conectados a Tudo, Implicados com Nada
Quando a espiritualidade transforma a ecologia numa experiência estética, individual e despolitizada.
Tenho escrito sobre a iliteracia relacional que nos leva a confundir a ecologia com a espiritualidade (e, sim, estão interligadas). Como se falar de interdependência, entrelaçamento e parentesco com o mundo não-humano fosse obrigatoriamente uma proposta mística e não uma realidade de corpos, biológica, material e política. Claro que existem laços profundos entre a ecologia e a espiritualidade, entre cosmologias, práticas culturais e modos de habitar a Terra.
Mas, em sociedades super-urbanizadas como a nossa, tendemos a secundarizar a natureza. Passamos grande parte do dia dentro de paredes, sem beber a água dos rios por estarem contaminados; desconhecemos os ciclos e as espécies que sustentam a nossa alimentação, pois a nossa subsistência pouco depende dos lugares que habitamos, frequentemente reduzidos a monoculturas ajardinadas. Esta relação com a ecologia torna-se facilmente estética, abstrata, antropocêntrica e despolitizada. A Terra transforma-se em cenário de contemplação, inspiração e cura individual, enquanto permanecemos desligados das relações metabólicas, históricas, coloniais e ecológicas que nos constituem e comprometem.
Já explorei esta captura da interdependência pela indústria espiritual do bem-estar em Ecologia & Entrelaçamento – Rede de Co-Criação (2022); aprofundei em Linguagem Psicológica vs Linguagem Ecológica (2026) em como a psicologização transforma relações e violências estruturais em experiências internas de autorregulação individual; e em O Eco-Fascismo NUNCA será Ecológico (2026) onde interroguei a romantização da natureza pura, da ancestralidade e da pertença quando estas apagam a mistura, o conflito, a reciprocidade e a responsabilidade histórica. O artigo Espiritualidade vs Ontologia de Separação escreve por outra perspectiva o que tento expressa neste artigo.
E esta é a colonização profundamente invisível do nosso imaginário contemporâneo, sendo nestas linhas que aprendemos a amar uma ideia transcendente de Natureza enquanto permanecemos incapazes de reconhecer, habitar e responder às relações concretas do corpo-terra. Falamos de conexão sem implicação, de ancestralidade sem violência, de pertença sem reciprocidade. De monocultura sem predação, de domesticação como equilíbrio. A ecologia pode assim ser absorvida como mais uma experiência inspiradora de expansão do eu, sem nunca deslocar o humano do centro—e deslocar o humano do centro não é abandonar o humano, é render-nos à participação e relação.
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Em muitos contextos, a ecologia deixou de ser entendida como uma ciência das relações entre seres vivos e passou a ser associada a uma certa identidade cultural, moral e até espiritual. Esta confusão pode ser fértil desde que não nos aprisione.
A ecologia estuda interdependências, fluxos, ciclos de nutrientes, relações entre organismos e ambientes. Não exige nenhuma crença espiritual, mas observação, presença e escuta.
Mas, no meu contexto cultural, quando falo de interdependência, de humanos como parte da natureza, de relações que não se reduzem à utilidade económica, algumas pessoas ouvem energia, vibrações, espiritualidade, misticismo, new-age.
Por um lado, temos os movimentos ecológicos, espiritualidades alternativas, práticas holísticas e discursos de desenvolvimento pessoal que se têm cruzado e associado historicamente. E, alguns de nós, passámos a tratar tudo como se fosse o mesmo. Por outro lado, ainda subsiste uma visão mecanicista da natureza, pelo hábito racionalista de pensar a natureza como um conjunto de recursos ou objetos separados—e ao falar dela como uma rede de relações pode soar metafísico, mesmo quando é perfeitamente científico. Mas principalmente temos falta de vocabulário relacional, não dispomos de muitas categorias para pensar-sentir a interdependência para além da espiritualidade. Então, facilmente confundimos uma descrição ecológica do mundo com uma crença sobre o mundo.
E a ironia disto é que a interdependência ecológica não é uma crença. É uma realidade inerente, uma condição material da existência.
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Esta confusão, que tende a negligenciar a ecologia em prol da espiritualidade, acolhe a linguagem da interdependência, mas tem dificuldade em albergar as suas consequências políticas. É uma espécie de apropriação da ecologia que transforma as relações materiais em experiências individuais de consciência. Assim, a interdependência torna-se algo como «estamos todos conectados». A responsabilidade histórica abate-se em «cada um está no seu processo». A violência colonial fica-se na «ferida coletiva que precisamos de curar». E a transformação das estruturas torna-se «elevar a consciência».
E a Terra vira uma entidade inspiradora, em vez de um conjunto de relações vivas atravessadas por disputas de território, predação, propriedade, trabalho, poder e sobrevivência.
Na verdade, a espiritualidade não está em conflito com a ecologia. Acho que o desafio desta conversão automática é a despolitização. Aliás, existem tradições espirituais profundamente envolvidas em lutas anticoloniais e ecológicas. O problema não é reconhecer dimensões espirituais na relação com a Terra, de todo! Mas utilizar uma espiritualidade universalizante que apaga as diferenças históricas e materiais entre as pessoas e os lugares.
E o paradoxo é vivo, pois alguém pode falar de sabedoria indígena, ancestralidade, regeneração e conexão com a natureza e, simultaneamente, não reconhecer as relações coloniais que possibilitam o seu próprio acesso e apropriação a esses conhecimentos, territórios ou experiências. Porque a linguagem da relação coexiste com práticas de extração.
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A questão é que os nossos quadros de referência relacionais estão empobrecidos, e esta é a única linguagem de transformação que nos é familiar e confortável. Uma linguagem em que é possível sentir profundamente sem necessariamente questionar a própria posição nas estruturas de poder.
E acontece nos convites pedagógicos que faço, em que falo de ecologia como condição material, política e relacional, que são facilmente recebidos como uma proposta de crescimento pessoal. Quando introduzo a violência histórica numa conversa sobre interdependência, a conversa deixa de ser confortável e a surge a auto-defesa e a tentativa de saltar do reconhecimento de que todos somos historicamente constituídos por relações, como se essas relações não fossem atravessadas por assimetrias de poder.
Por outro lado, temos a tendência à procura de uma ancestralidade pura, inspiradora e desprovida de violência. Uma procura idealizada, quase imaculada, à qual regressar para recuperar uma suposta harmonia perdida. Normalmente a complexidade é invocada para relativizar a responsabilidade colonial, mas desaparece quando ameaça a fantasia de um passado ancestral harmonioso.
Acontece que uma ecologia verdadeiramente atenta às relações não permite escolher apenas as relações bonitas pode tornar-se perturbadora. Também inclui coerção, parasitismo, competição, destruição, dependência, assimetria e conflito. Afinal, uma floresta não é uma comunidade de seres em permanente harmonia… e a história humana também não.
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Em Diálogo Fértil com Saidiya Hartman
Se a minha pesquisa é dependente do meu contexto, é também visceral, decolonial e profundamente inter e transdisciplinar, quero trazer como nem a poesia é independente da biologia, nem a política da ecologia ou da espiritualidade, nem as relações e rituais dos lugares e dos corpos. Ahhh, e enlaçar o trabalho incrível de Saidiya Hartman nesta conversa.
Porque aprendemos a relacionar com o mundo por formas de abstração que, muitas vezes, obscurecem e não nos permitem sentir as consequências materiais das relações em que participamos. É aqui que o trabalho brilhante de Hartman se torna cru e fértil. Saidiya Hartman investiga a escravatura, a violência racial e as suas continuidades, o seu trabalho interroga as próprias condições em que certas vidas podem ser reconhecidas, narradas, sentidas e consideradas humanas.
Em Scenes of Subjection, Hartman investiga a violência da escravatura, que não se manifestava apenas nos castigos espetaculares, mas também nas práticas quotidianas, nas formas de entretenimento, nas relações de poder e até em determinadas representações abolicionistas da humanidade das pessoas escravizadas. Uma das suas contribuições-chave é problematizar a empatia, como dependente do sujeito privilegiado se imaginar no lugar de quem sofre.
Extrapolando a partir de Hartman—não é algo que ela tenha formulado especificamente—e trazendo para o nosso contexto, isto abre uma pergunta desconfortável: será que certas práticas de reconexão com a natureza continuam a colocar o sujeito privilegiado no centro de tudo aquilo com que pretende relacionar-se?
A floresta existe para me curar. A ancestralidade existe para me inspirar. O conhecimento de outras culturas existe para me ensinar a viver. A violência colonial existe para me proporcionar uma experiência de expansão da consciência. A relação continua organizada em torno do mesmo sujeito, mesmo quando ele afirma querer dissolver o ego.
Por outro lado, sou sempre chata ao relembrar que temos de ter cuidado com as extrapolações universais, pois não podemos falar de uma relação universal com a Terra sem perguntar como foram historicamente produzidas as diferenças, porque não habitamos as mesmas condições de existência. Há corpos cujos movimentos são policiados, corpos cuja força de trabalho é explorada, corpos que herdam propriedade e corpos que foram historicamente transformados em propriedade. Há terras protegidas para contemplação e terras submetidas à extração.
Hartman ajuda-nos a resistir à tentação de converter experiências históricas radicalmente desiguais numa condição humana indiferenciada. Em Wayward Lives, Beautiful Experiments, Hartman oferece-nos a possibilidade de prestar atenção às experiências quotidianas, à intimidade, à recusa e à invenção de formas de vida por mulheres negras, sem as reduzir exclusivamente à violência que as atravessa. Isto é fundamental para não substituirmos uma ancestralidade romantizada por outra narrativa em que só existe sofrimento.
Por outro lado, em Vênus em dois atos, Hartman confronta a violência dos arquivos da escravatura e a impossibilidade de recuperar integralmente as vidas registadas especialmente através dos mecanismos da sua dominação. A sua incrível fabulação crítica não é uma permissão para inventar um passado reconfortante que nos inocente. Mas uma prática de imaginação historicamente comprometida, que também reconhece o que não podemos saber. Paramos um pouco na fecundidade do que nunca vamos saber.
Podemos começar a perguntar: Que histórias de violência, sobrevivência, resistência, cumplicidade, deslocamento e transformação precisamos de reconhecer para nos relacionarmos com as nossas ancestralidades sem as transformar em objetos de consumo?
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Porque a ecologia não é uma promessa de purificação, mas uma aprendizagem de viver entre relações que não podemos apagar.
Nenhuma parte deste texto pretende exilar nem separar a espiritualidade da ecologia! Acontece que temos sido ensinados a imaginar que nos podemos relacionar sem sermos implicados (ser implicado significa lidar em responsabilidade com as consequências e impactos da nossa forma de relacionar), que é possível transformar sem perder privilégios e pertencer sem responder pela história das nossas pertenças. A crítica é à espiritualidade despolitizada, sem apagar a ecologia, a imaginação, a dimensão sensível ou a experiência do sagrado.

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