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Pluriverso de Psicologias
Quem decidiu onde começa o cuidado da psique
Depois de milhares de anos a caminhar pela Terra, como assim que o cuidado da psique nasce apenas com um homem branco, numa universidade europeia, no século XIX?

Talvez já tenhas ouvido a história de como a Psicologia teria nascido em 1879, quando Wilhelm Wundt abriu um laboratório de psicologia experimental em Leipzig, na Alemanha. A data pode assinalar a institucionalização de uma certa psicologia como disciplina científica moderna. Mas não pode marcar o nascimento do cuidado da psique e confundir estas duas coisas exige um apagão histórico de proporções catastróficas.
Antes deste laboratório, incontáveis povos e culturas já conheciam formas de acompanhar o sofrimento, interpretar sonhos, atravessar o luto, restaurar vínculos, cuidar da memória, mediar conflitos e compreender as relações entre corpo, espírito, comunidade, território e mundo não humano. Não como ensaios imperfeitos à espera de se tornarem “A Psicologia”. São sistemas complexos de conhecimento e cuidado, enraizados em línguas, cosmologias, lugares e responsabilidades próprias.
Então, que apagão permite contar a história como se tudo começasse na Europa?
Primeiro, um apagão temporal. Para manter 1879 como origem, é necessário transformar milénios de práticas de cuidado em pré-história da Psicologia, superstição, religião, folclore ou crença. Só que a Europa moderna não descobriu a psique. Mas criou instituições que decidem quais os conhecimentos que poderiam receber o nome de ciência.
Depois, um apagão colonial. Enquanto a Psicologia se consolidava nas universidades europeias e norte americanas, os impérios coloniais destruíam territórios, proibiam línguas, perseguiam curadores, desautorizavam rituais e cosmologias e separavam crianças das suas comunidades. Muitos povos foram apresentados como objectos de estudo, mas raramente reconhecidos como produtores de conhecimento. A Psicologia estudava aqueles cujos mundos a própria modernidade colonial ajudava a esventrar.
Há também um apagão epistemológico. A disciplina ocidental definiu antecipadamente o que contaria como conhecimento válido: o que pudesse ser observado, medido, classificado e reproduzido segundo os seus próprios critérios. O sonho ficava assim separado do território, enquanto a emoção era retirada da história e a mente fechada no indivíduo. E o sofrimento convertido em sintoma pessoal. Tudo o que não coubesse neste enquadramento podia ser desqualificado como irracional, inferior ou ignorante.
E há ainda um apagão cosmológico. Pois nem todos os povos compreendem a pessoa como um indivíduo autónomo, delimitado pela pele e separado do mundo. Em muitas psicologias indígenas, comunitárias e ancestrais, a pessoa acontece nas relações. A saúde não pertence apenas a um organismo, ao envolver os vínculos com a família, a comunidade, os antepassados, a terra, as águas, os animais, os espíritos e as gerações ainda por nascer. A pergunta deixa de ser apenas “o que se passa dentro de ti?” e pode tornar se: “que relações foram perturbadas para que este sofrimento pudesse aparecer?”
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Falar de múltiplas psicologias não significa reunir todos estes mundos numa categoria homogénea chamada “sabedoria indígena”. Os povos não são iguais entre si e as suas práticas não podem ser retiradas dos territórios e transformadas em técnicas terapêuticas disponíveis para consumo. Algumas formas de conhecimento não nos pertencem, exigem relação, consentimento, reciprocidade e responsabilidade.
Também não se trata de negar tudo o que a Psicologia moderna produziu. Mas de a situar, porque a Psicologia ocidental moderna não é neutra ou universal. É uma tradição particular que alcançou tal poder que se apresenta como universal. Quando reconhecemos isto, a questão deixa de ser quem inventou a Psicologia. E a pergunta muda para: quem recebeu autoridade para a nomear, ensinar e decidir quais os outros conhecimentos que seriam silenciados.
O quero trazer é um questionamento aos próprios alicerces:
Quem foi reconhecido como plenamente humano consciente?
Que sofrimentos foram individualizados para que as estruturas que os produzem permanecessem invisíveis?
Que conhecimentos foram apropriados sem que os povos que os sustentam recebessem terra, soberania ou reconhecimento?
Porque cuidado da psique não nasceu num laboratório europeu. O que ali nasceu foi uma forma institucional da Psicologia moderna se reconhecer a si própria e de narrar a sua origem.
Falar de múltiplas psicologias é interromper essa genealogia única. É recordar que sempre existiram muitos modos de conhecer e cuidar da vida interior, embora nem todos separassem o interior do corpo, das relações, da comunidade ou da Terra.
Quantos mundos foi necessário apagar para que uma única psicologia pudesse declarar-se a origem de todas as outras?

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