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A Monocultura do Medo

Como o empobrecimento ecológico e relacional alimenta fantasias de pureza, controlo e separação.

 

O cruzamento que quero trazer é que a monocultura não empobrece apenas os ecossistemas. Empobrece também a capacidade de conviver com a diferença, a imprevisibilidade e a alteridade. Empobrece os afectos e a capacidade relacional. E é nesse empobrecimento relacional que gostaria de situar a relação com o medo e os imaginários fascistas.

Não estou a dizer que a monocultura produz automaticamente fascismo, mas podemos reconhecer a semelhança na tentativa de eliminar o que não se consegue controlar.

Trago no regaço a pergunta sobre o que acontece a uma cultura que, sistematicamente, produz e vive rodeada de monoculturas, de paisagens domesticadas, higienizadas e empobrecidas, onde a diversidade espontânea é arrancada como erva daninha, a decomposição é confundida com sujidade e o imprevisível é tratado como ameaça. Não que a monocultura ecológica produza inevitavelmente fascismo, mas porque ambos expressam uma gramática de reducionismo, controlo e intolerância à diferença. Quanto mais empobrecemos as relações ecológicas que nos sustentam, menos oportunidades temos de aprender corporalmente a coexistir com a alteridade, a perturbação, a dependência, as consequências e os limites. Sempre os fundamentais limites. Quando a complexidade deixa de ser uma experiência quotidiana, torna-se mais fácil imaginá-la como perigo. E o medo encontra terreno fértil nas fantasias de pureza, ordem, fronteira e pertença homogénea.

Como explorei em O Eco-Fascismo NUNCA será Ecológico, o fascismo pode apropriar-se da linguagem da Terra, das raízes e da ancestralidade, procurando eliminar o que caracteriza os sistemas vivos—mistura, interdependência, transformação, conflito e reciprocidade. A monocultura torna-se, assim, não apenas uma condição ecológica, mas também uma metáfora do estreitamento do nosso imaginário político e relacional. Uma cultura que já não sabe relacionar-se responsavelmente com a diversidade viva pode tornar-se particularmente vulnerável às promessas de segurança através da homogeneização forçada.

Uma das tragédias da nossa iliteracia ecológica é que aprendemos a temer a complexidade da vida enquanto romantizamos uma Natureza pura que nunca existiu.

Como escrevi anteriormente, não quero sugerir nem transformar a relação entre monocultura e fascismo numa equivalência simples. A monocultura tem consequências ecológicas observáveis e a passagem daí para o medo social e o autoritarismo exige uma análise histórica, cultural e política. Tanto como origem como consequência.

Porque não estou a propor que a monocultura produza uma mentalidade ecofascista. Quero mesmo é inverter a causalidade: a monocultura é já uma manifestação material de uma lógica de pensamento institucionalizada, que organiza a vida através da separação, homogeneização, controlo e eliminação da diferença.

E abrir a pergunta sobre como determinadas lógicas autoritárias e coloniais podem estar normalizadas nas instituições, no ordenamento do território, na agricultura, na educação e até no que aprendemos a reconhecer como uma paisagem bonita, limpa e cuidada.

Sabendo que a monocultura moderna tem múltiplas causas históricas, incluindo a economia colonial de plantação, a industrialização agrícola e a procura de produtividade. Mas também a escassez e a pobreza das populações locais. Nem todas são especificamente fascistas. O que quero relacionar aqui é a continuidade entre estas estruturas de reducionismo ecológico e determinadas lógicas de pureza, exclusão e controlo que também caracterizam o ecofascismo.

Porque a monocultura não é apenas uma prática agrícola ou uma paisagem ecologicamente empobrecida, mas a expressão material de uma profunda colonização do imaginário, institucionalizada a ponto de se tornar invisível. Uma lógica que aprendeu a organizar a vida pela separação, classificação, homogeneização e controlo, decidindo utilitariamente quais os seres que merecem permanecer e quais devem ser arrancados, exterminados ou tornados invisíveis.

Das plantações coloniais aos relvados urbanos impecavelmente aparados, encontramos diferentes manifestações desta compulsão para simplificar e domesticar a complexidade viva. Não são todas equivalentes, nem necessariamente fascistas, mas podem partilhar uma gramática de domínio que o pensamento ecofascista radicaliza—a fantasia de pureza, a intolerância à diferença e a promessa de segurança através da eliminação do indesejável. E é aqui que o fascismo se torna difícil de reconhecer, não quando aparece explicitamente como ideologia, mas quando certas condições que o tornam imaginável já foram naturalizadas como eficiência, higiene, beleza, progresso e boa gestão. O empobrecimento ecológico não é apenas perda de biodiversidade, mas é também a materialização de decisões históricas sobre que vidas contam, que relações são permitidas e que formas de existência devem desaparecer.

A monocultura torna-se, assim, um lugar privilegiado para interrogar as continuidades entre colonialidade, poder institucional e os imaginários de purificação que podem alimentar políticas autoritárias. E enquanto contemplamos paisagens cuidadosamente domesticadas como símbolos de economia e harmonia, acho que já desaprendemos a reconhecer a violência necessária para mantê-las assim.

Porque se a monocultura não for apenas o que fazemos aos territórios, mas também o que nos ensinou a desejar — um mundo sem fricção, sem contaminação, sem diferença e sem obrigações recíprocas?

Porque o fascismo não nasce apenas do medo da diferença, mas tem raiz numa incapacidade culturalmente cultivada de habitar relações complexas sem as dominar.

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{Ecopsicologia}

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.