TEMPO DE LEITURA – 3 MINUTOS

  Constelação de Relações

{… e se a liberdade fosse responsabilidade?}

Já tinha tido contacto com outras formas de ser indivíduo, para além da normopatia moderna do hiper-individualismo, mas depois de ler o fundamental livro As We Have Always Done, de Leanne Betasamosake Simpson, atravessei outra membrana de (re)conhecimento do que significa ser-humano. Ou pelo menos das suas possibilidades baseadas na responsabilidade, reciprocidade, empatia e no compromisso rigoroso com o entrelaçamento gentil. Outras formas de liberdade de expressão, de ideias e de corpos. Tal como do amadurecimento do auto-desenvolvimento, tão contrário ao ocidente neoliberal. Voltei a sentir o contraste cortante com a hiper-individualidade ocidental, baseada em direitos sem responsabilidade, sem dever coletivo, do ego supostamente separado e isolado, das tendências narcisistas… 

É um profundo reconhecimento da dissonância entre duas estrututras muito diferentes do eu.
É como se o meu corpo estivesse a recuperar o fôlego entre mundos. 

Na Individualidade Indígena a liberdade tece-se através da responsabilidade. Em As We Have Always Done, Leanne Betasamosake Simpson escreve sobre a forma de liberdade indígena, a que surge de dentro das relações e não fora delas e é desta profunda liberdade que nasce o eu situado.

Este é um tipo de liberdade vem através da responsabilidade para com a terra, os parentes, os antepassados e os seres não-humanos. Cuidar. Esta liberdade cresce com a idade e a maturidade, à medida que nos comprometemos em ser confiáveis numa consciência relacional mais ampla. Esta é uma liberdade que requer escuta profunda, humildade e alinhamento com as necessidades do coletivo. É soberana, não domina, estando em profunda integridade relacional.

Há uma liberdade de expressão, de ideias e de corpos. A “liberdade de fazer o que eu quiser” é considerada imatura e fora da ecologia viva das relações recíprocas. Pois esta é a liberdade que vem de estar tão profundamente entrelaçado na teia da vida que nos movemos em sincronia. O eu que Simpson descreve é uma “constelação de relações” no pensamento Nishnaabeg. Não é uma estrela solitária, mas uma presença entrelaçada no cosmos, luminosa somente devido às outras. Sou, porque somos.

Já a hiper-individualidade ocidental clama por direitos sem raízes relacionais. O que a modernidade chamou “individualidade” é muitas vezes uma fortaleza frágil construída sobre eu construído para o consumo, não para a participação ou comunhão. Baseada em exigência de direitos sem responsabilidades (1), na ilusão de não haver consequências e na expectativa de propriedade (o meu corpo, o meu tempo, a minha verdade). E claro, autonomia como separação, da terra, dos parentes, da vulnerabilidade ou da história.

E a armadilha é que nos falta tanto chão de valor intrínseco e pertença que, mesmo quando este eu neoliberal é “empoderado”, permanece à deriva, solitário e facilmente manipulável, porque lhe falta a força fundamental da responsabilidade recíproca de tempo profundo.

Porque, na verdade, há uma generosa maturação em perceber que a lógica da modernidade é limitada, e que a liberdade sem envolvimento é vazia. A individualidade sem responsabilidade é imatura. E que a individualidade sem o coletivo é uma sombra do que poderia ser.

—

(1) Não falo aqui da alienação dos direitos fundamentais da dignidade da vida, como casa, alimento, saúde ou educação. Falo da distorção da palavra “direito”, como, por exemplo, no direito sobre o corpo do outro, ou sobre a terra, ou sobre grupos culturais inteiros. Também como o direito ao consumo, como excesso, muito para além das possibilidades pessoais ou planetárias. Confundindo direitos com liberdade.

Ler artigos relacionados

{Ecopsicologia}

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.