O poderoso e mítico Atlântico

Assim, continuamos ao abordar o ilimitado, abissal e misterioso oceano ocidental, o sagrado vizinho aquoso desta terra, pois Portugal situa-se no ponto mais a oeste do continente euro-asiático, e a maioria das suas costas está virada para o Atlântico. mapa anterior mostra que a água salgada e a doce cruzam a geo-oceanografia que teceu essas palavras vivas que se transformam comigo.

E antes de navegar no modo invasão e conquista, já aconteciam viagens míticas e sagradas. Peregrinações espirituais por meio de ventos e correntes fortes, ondas furiosas e paisagens aquáticas desconhecidas, viagens que levaram canções e histórias ao longo das várias costas atlânticas, sussurros de antigas cobras e pedras.

Num dos seus artigos, Maria Teresa Caetano, “Cavalos do vento e ginetes do ocaso: do paradeiros à partenogénese do Monte da Lua,” revela que, relativamente à costa portuguesa, já existiam conhecimentos detalhados da navegação atlântica, orientação náutica, ventos e correntes marítimas, pelo menos desde o primeiro milénio AEC. E, não devemos esquecer, a chegada de comunidades fenícias nas costas ocidentais da Península Ibérica, estabelecidas durante o século VIII AEC em grandes estuários de rios. Chegaram a esses rios por mar, navegando pelo perigoso Cabo Ophiussa (número 3 do mapa). Caetano afirma que: “Conceptualmente, pelo menos desde a Proto-História, a Península Ibérica era considerada uma ilha, uma das Fortunatorum Insulæ, era o locus amœnus porque a ilha era (…) pequeno formato, uma imagem do cosmos, completa e perfeita. A noção aproxima-se assim da do templo e do santuário.”

No seu livro“O Atlântico como espaço mítico: um ensaio sobre a Ethea medieval”, Alfonso J. García-Osuna, fala do antigo poder oceânico de encantamento mítico, equiparado ao das grandes montanhas (ver mapa os número 3 e 4 sobre o Promontório de Ophiussa e Promontorium Lunæ) —as geografias sagradas por onde Fátwa e a sua aprendiz se movem. O autor fala dessas grandes massas de água como associadas ao Outro-mundo, representando sagrados pontos de partida.

NA LINHA DA ECO-MITOLOGIA, GOSTARIA DE APRESENTAR COMO A SOBERANIA E A AGÊNCIA DO ATLÂNTICO CONTRIBUEM PARA A CRIAÇÃO CONTÍNUA DE SIGNIFICADO.

García-Osuna afirma que o poder do Oceano de gerar pensamento mítico se dá por meio do seu tamanho e dos vastos horizontes salgados do Ocidente. O autor vê o Atlântico como mais do que apenas um local sagrado, mas como inteiramente outro mundo, situado na borda ocidental do continente euro-asiático. Muitos mitos antigos relacionados com a água desenvolveram-se ao longo da costa portuguesa devido à sua proximidade ao Oceano. É importante destacar que esses mitos estão intimamente ligados ao meio ambiente, pois nascem a partir da existência de um complexo ecossistema que contribui ativamente para a criação dessas histórias e peregrinações. Mitos e contos de tempos antigos, celtas ou cristãos, geralmente envolvem viagens pelo Outro-mundo, e o Oceano Atlântico desempenha um papel significativo nessas histórias. Isso porque o sol, a estrela brilhante da luz do dia, se põe todas as noites nas águas do Atlântico, daí a sua associação com a morte e o renascimento. 

Garcia-Osuna diz: “Os que viviam nas costas europeias do Atlântico, viam uma extensão sem fim, cuja imensidão permitia à imaginação povoar os lugares com seres de outro mundo. (…) O grande oceano, com seu horizonte ilimitado, clima violento e intensidade mistificadora, tornou-se o terreno fértil essencial para mitos e lendas.”

O autor continua: “A topografia do oceano já estava num espaço além e excepcional fora dos limites da experiência corriqueira (…). Esta realidade excepcional ligada ao Atlântico foi decididamente relevante para quem viveu nas suas margens desde tempos imemoriais.”

De fato, a cosmologia proto-céltica local vê o oceano a oeste como um portal direto para o outro mundo, o submundo dos ancestrais, um lugar sagrado. Isso contrasta com as primeiras culturas mediterrâneas, como os antigos gregos, que viam o Atlântico como um espaço liminar, circundando toda a terra; e os romanos, que chamavam a suas fronteiras o indiscutível último lugar de terra, o limiar para a vida após a morte. Esses primeiros impérios sustentavam que o grande oceano era um lugar inabitável, e a suas costas eram identificadas como lugares à beira do caos; rotas para a vida após a morte nas margens da civilização, e a suas margens eram frequentemente evitadas. Embora, como lembra García-Osuna, “[as] comunidades do litoral Atlântico tinham uma visão diferente da imensidão vizinha, evidente nas suas antigas narrativas é que desde tempos imemoriais entenderam o seu Outro-mundo não como um espaço abstrato e desmaterializado, mas como uma área acessível ao [perigosamente] navegar para oeste.” O Outro-mundo era descrito por meio de mitos que colocavam a sua fantástica geografia dentro do infinito e excepcional Atlântico. O fim da terra é uma terra híbrida de influências arcaicas e populações africanas, berberes, viajantes e parentes míticos paleo-hispânicos e proto-célticos, só para citar alguns.

Esta terra sagrada, densamente arborizada, era dedicada à adoração do Sol, da Lua e dos cultos oceânicos, com montanhas numinosas, pedras e rios, sendo um local liminar de partida e chegada de jornadas sagradas.

Viajantes oceânicos proto-míticos

Essas jornadas sagradas são antigas! Vários autores especularam que a população da Irlanda, Inglaterra, Escócia e País de Gales veio da Península Ibérica. [1] Estas migrações ao longo das costas atlânticas referem-se pelo menos desde o período Mesolítico,[2]  à cerca de 13.000 AEC, que remonta a um tempo antes da Cultura Megalítica do Atlântico. Essas populações vindas da Península Ibérica podem ter sido proto-célticas, e os pesquisadores Mario Allinei, Francesco Benozzo e outros afirmam que, por seu método etnolinguístico, os celtas estavam no sudoeste da Europa, já no Paleolítico Superior.

Barry Cunliffe, no seu livro“Europa Entre os Temas e Variações dos Oceanos 9000 AC—AD 1000,” refere que os monumentos megalíticos encontrados extensivamente ao longo da Europa Atlântica, desde o sudoeste de Portugal até ao norte de Inglaterra, fazem parte de uma antiga Cultura Megalítica Atlântica. Uma cultura proto-céltica, como sugerem as pesquisadoras portuguesas Fernanda Frazão e Gabriela Morais. Cunliffe continua, dizendo que “a costa de Portugal combina o melhor de dois mundos, um ambiente atlântico e um clima mediterrâneo,” e que a “monumentalidade pelo enterro ancestral, foi uma declaração deliberada de uma relação direta com o mar.” O autor refere-se à difusão de comunidades voltadas para o Atlântico na Europa, do sudoeste de Portugal à Grã-Bretanha e Irlanda, que adotaram a prática do enterro coletivo em câmaras construídas com grandes lajes de pedra. As primeiras manifestações desta prática no Alto Alentejo em Portugal e na Bretanha datam do período 4700-4500 AEC.

Gabriela Morais, investigadora de história, fala do trabalho de Brian Sykes, que articula que a genética pode corroborar que os irlandeses chegaram às ilhas a partir da Península Ibérica. Morais também faz referência a vários outros autores que encontram continuidade entre a arquitetura mesolítica portuguesa e a arquitetura megalítica do Neolítico Antigo. Assim, como expressa Gabriela Morais, podemos imaginar a constância das idas e vindas, ao longo do Atlântico, de grupos humanos, desde a mais remota Antiguidade. Esta referência temporal mítica, o Mesolítico de 13.000 AEC, é importante para a jornada e peregrinação proposta neste livro, pois profanámos a nossa psique e saqueámos a nossa terra há muito tempo, como já vimos nesta breve introdução.

Recorrendo às memórias profundas do frágil conhecimento oral, aventuramo-nos a fabular diferentes narrativas que podem ajudar-nos a abraçar e compreender a nossa situação atual, re-tecendo indagações sagradas e animistas em consciência aquática.

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[1] Uma hipótese controversa da origem celta da Península Ibérica, subscrita por autores (historiadores, etimólogos, arqueólogos e geneticistas) como: John T Koch, Barry Cunliffe, Brian Skyes, Mario Allinei, Francesco Benozzo, Gabriel Morais e Fernanda Frazão. Apresento aqui esta teoria, não como um ideal ou verdade absoluta, mas como um dos padrões possíveis de antigos humanos em movimento, em teias de relação e conexão.

[2] O Mesolítico refere-se ao limiar entre o modo de vida paleolítico caçador-coletor e a vida agrícola menos nómada do Neolítico. As quatro grandes invenções do Neolítico são a agricultura, o pastoreio/pecuária, a cerâmica e a tecelagem. Quando o homem começa a intervir ativamente na natureza e modificar as paisagens circundantes, envolvendo a domesticação de animais selvagens e as construções megalíticas.

REFERÊNCIAS

  • “ALMOÇAGEME, DOIS MIL ANOS DE HISTÓRIA.” ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DE BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE ALMOÇAGEME, http://www.bvalmocageme.pt/associacao/historia/historia_de_almocageme/. Accessed 15 May 2023.
  • Baptista Pato, Heitor. “A SERRA DE SINTRA (PORTUGAL): CULTOS À LUA, AO SOL E A SATURNO.” celtiberia.net, 2007, https://www.celtiberia.net/es/biblioteca/?id=2943.
  • Caetano, Maria Teresa. Cavalos do vento e ginetes do ocaso: do paradeisos à partenogénese do Monte da Lua. Doutorada em História da Arte; Investigadora do ARTIS — Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; ORCID 0000—0002—6591—0238 mtvcaetano@gmail.com. no. 19, Revista Portuguesa de Arqueologia, 2016, pp. 175—194.
  • Cunliffe, Barry W. Europe Between the Oceans: Themes and Variations, 9000 BC — AD 1000. Yale University Press, 2011.
  • Cunliffe, Barry W. On the Ocean: The Mediterranean and the Atlantic from Prehistory to AD 1500. Oxford University Press, 2017.
  • García—Osuna, Alfonso J. The Atlantic as Mythical Space: An Essay on Medieval Ethea. Vernon Press, 2023.
  • Nunes dos Santos, Pedro José. Ecos do Santuário romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano: a sua recuperação física e a perpetuação da iconografia astral na arte religiosa pós tridentina em torno de Sintra. Tese orientada pelo Prof. Doutor Vior Serrão e pelo Prof. José Cardim Ribeiro, especialmente elaborada para a obtenção do grau de Mestre em Arte, Património e Teoria do Restauro 2017. Universidade de Lisboa, 2017. PDF.
  • Oliveira Borges, Marco. ESTUDOS DE PAISAGEM — PAISAGEM CULTURAL MARÍTIM A DE SINTRA: UMA ABORDAGEM HISTÓRICO—ARQUEOLÓGICA. Edited by Pedro Fidalgo, vol. 3, Inst ituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Socias e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2017.
  • https://www.publico.pt/2017/12/09/ciencia/noticia/como—se—extinguiu—o—ursopardo—em—portugal—1795132
  • Jorge Paiva — “A relevância da fitodiversidade no Montemuro”
  • Francisco Álvares e José Domingues — “PRESENÇA HISTÓRICA DO URSO EM PORTUGAL E TESTEMUNHOS DA SUA RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES RURAIS”
  • T. ANTUNES — “Castor fiber na gruta do Caldeirão, Existência, distribuição e extinção do castor em Portugal”
  • Nicole Devy — Vareta — “Para uma geografia histórica da floresta portuguesa, AS MATAS MEDIEVAIS E A «COUTADA VELHA» DO REI”
  • Nicole Devy — Vareta — “Para uma geografia histórica da floresta portuguesa, DO DECLÍNIO DAS MATAS MEDIEVAIS À POLÍTICA FLORESTAL DO RENASCIMENTO (séc. XV e XVI)”
  • BATALHA, Sofia. Cartografia do livro “O Santuário” – parte I. Vento e Água – Ritmos da Terra, https://ventoeagua.com/revistas-online/revista-45/cartografia-do-livro-o-santuario/, número 45, 2023

Artigo publicado aqui

BATALHA, Sofia. Cartografia do Livro “O Santuário”, parte III. Vento e Água – Ritmos da Terra, https://ventoeagua.com/revistas-online/revista-47/cartografia-do-livro-o-santuario-parte-3/, número 47, 2023

🌳 Estes vários livros são como vários territórios, lugares diferentes de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.