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Psykhē Ecossistema

Seguindo a vibrante diversidade de um ecossistema, não há só um tipo de borboleta, mas multiplicidade, pluralidade, profusão, abundância e complexidade, de corpos, asas e antenas.

Começo por chamar aqui as Traças, ou as borboletas da noite, mais ativas no escuro e durante o crepúsculo, sendo guiadas pela luz da lua – aliás o excesso de luz cega-as, fazendo-as perder o caminho, encadeando os seus olhos sensíveis. O seu corpo é arredondado e robusto e, por se moverem na sombra, não precisam de cores contrastantes, mas suas antenas e padrões de asas são bastante variados. Alimentam-se principalmente de vegetação e servem de alimento a Morcegos, Aves e Aranhas. São eximias na arte da camuflagem, pois os padrões das suas asas mimetizam as cascas das árvores ou pedras onde descansam, tornando-se invisíveis aos predadores. Apesar de circularem principalmente à noite, são insectos polinizadores tão valiosos e importantes como as abelhas ou as borboletas diurnas.

A sua metamorfose faz-se num casulo mole e pode levar até dois anos para a larva completar o seu ciclo, perfazendo entre cinco a quarenta mutações. Dois anos e quarenta conversões de corpo liquefeito, refeito e regenerado; de corpo volúvel e impermanente, iterado e reparado; dois anos de provações para ganhar asas sopradas pelo vento.

Quarenta iniciações, que vorazmente engolem o corpo, uma e outra vez, abrindo espaço a subtis e surpreendentes possibilidades.

De larva, a pupa, a adulto alado, cumprindo o desígnio de seguir as canções das plantas e as melodias da lua, fecundando e fertilizando flores, pondo ovos, camuflando-se no seu ambiente – a larva lembra-se das texturas e padrões das pedras e das árvores, sussurrando essa informação às asas que emergem no corpo final – e, por fim, ser alimento; em co-surgimento, tornando-se e desdobrando-se. Mas, chamamos-lhes apenas pragas, infestações indesejadas que devem ser rapidamente limpas e extintas, negligenciando o seu valor intrínseco e as inestimáveis histórias que carregam.

Lembro, agora, o mito agrário grego de Psykhē, uma bela princesa mortal apaixonada por Eros, o deus do amor. Reza a história que, além de muitas outras tribulações, a Deusa Afrodite, acossada pela atenção devotada à beleza da jovem, lhe dá quatro tarefas impossíveis de serem cumpridas por uma mortal: a seleção dos grãos, a lã de ouro, a água da nascente e a descida ao submundo para trazer a caixa de beleza de Perséfone. São terríveis e impossíveis tarefas, cheias de adversidades, apenas prováveis de superar com a ajuda de vários aliados, empreendendo uma autêntica viagem da Alma. 

Para os gregos, Psykhē é a personificação da Alma e é representada por uma bela mulher com asas de borboleta. O nome da bela amada de Eros, enlaça-se com a borboleta, do dia ou da noite. Na verdade, o nome Psykhē significa “alma” e “borboleta” em grego, embora a tradução direta seja Anima, a palavra latina para “alma”. Há outras possibilidades de significado da palavra grega ψυχή (psyche) como “vida”; alguns conjecturam ainda ser derivado do verbo ψύχω (psycho“soprar”). As derivações incluíam “espírito”, “alma”, “fantasma” e, finalmente, “eu” no sentido de “personalidade consciente” ou “psique”. Em meados do século XVII, através do latim do grego psukhē “sopro, vida, alma” o conceito e termo é adoptado ganhando o significado fractal de psique: de alma, mente e personalidade – a totalidade da mente humana, consciente e inconsciente, complexa, em fluxo e tensão de camadas somáticas, pessoais, colectivas e ecológicas.

Novamente, reclamando a vital diversidade de um ecossistema, não há só um tipo de psique, mas multiplicidade, pluralidade, profusão, abundância e complexidade – neurodiversidade, múltiplos contextos e espectros de diferentes experiências.

Recordo agora a relação da Traça com Psykhē, que nos convida a alargar sem condições os ideais de beleza, abraçando as múltiplas formas de ser belo, até na escuridão – afinal uma Traça não tem as cores de uma borboleta diurna. Por outro lado, as várias metamorfoses da Traça, a provação do corpo liquefeito, a crueza da incerteza da metamorfose, a transformação inevitável e profunda do corpo e da Alma – entre cinco e quarenta metamorfoses até ganhar asas. Até quarenta profundas crises, que rompem o corpo, derretendo, violentando, fundindo e recompondo. E, depois da descida ao submundo, sem corpo, eis que de novo, a Vida surge, renovada, recomeçando e, finalmente, emergindo asas que levam a fertilizar as flores na luz da lua.

cada crise uma iniciação que devora e transmuta os estados anteriores, adicionando intrincadas, subtis e potentes camadas de complexidade. Camada a camada, num caleidoscópio de penetrante e subjectiva complexidade e maturação, a Vida experimenta-se a ela própria. A mesma dolorosa iniciação ritual ecoa no desespero das múltiplas provações de Psykhē – das tarefas impossíveis de conclusão inverosímil.

Uma quimera improvável, tal como o corpo da larva se desfaz uma e outra vez, sem conhecer o fim ou a conclusão. A cada camada, caímos de volta à Vida em. Tal como a Traça, Psykhē, entrega o corpo à sagrada tarefa da metamorfose, pois esse é o desdobramento da Vida. Recordamos o profundo entrelaçamento entre Psykhē e as Traças, com as borboletas invasoras dos cereais ou das fibras naturais, ecoando pelas duas primeiras tarefas – a separação das sementes e a recuperação dos fios de lã dourada. O legado da borboleta da noite ressoa também pelas duas últimas tarefas, – trazer água da fonte negra e descer ao submundo encontrando o sono da morte na caixa de beleza de Perséfone – pela fonte vestida de noite e escuridão, como pelo sono de morte e metamorfose para onde é enviada ao abrir a caixa, sendo salva pelo amor de Eros. Afinal, a última fase da iniciação, o ímpeto de abrir e ver o que está dentro da caixa, é catalisada apenas pela curiosidade e amor, duas forças essenciais da Vida e transmutação.

Nos recantos invisíveis de cada ecossistema, na escuridão da noite ou na intimidade do casulo, onde não somos ofuscados pelas luzes da modernidade, encontram-se chaves míticas essenciais para recordarmos a nossa Anima, reclamando a Anima ecológica, aquela que se desfaz e refaz, que se rasga e recompõe. A que se regenera em relação. Afinal, unidas na dor da necessária e urgente metamorfose, as Traças são essenciais à vida dos ecossistemas a que pertencem – fazendo parte de muitas e complexas relações – e Psykhē só supera as suas provas pelo auxílio e relação com aliados – que também representam as múltiplas e diversas camadas selvagens da sua Alma. Ambas de dissolvem e recompõem.

O resgate destas chaves míticas não serve para cegamente seguirmos as lentes universalizantes, tentando chegar à essência “pura” – esse caminho linear faz-nos perder a capacidade de procurar as singularidades, apagando e negligenciando os pormenores, os detalhe e as particularidadesEstas chaves são vivas, como húmus fértil, que se desdobra em combinações únicas, variadas e emergentes; com pontos em comum, claro, mas sempre plurais.

Que possamos, tal como as Traças e Psykhē, alimentar a nossa psique e alma de complexidade, abrindo-nos fractalmente ao paradoxo e à essencial e primeva sabedoria da Vida. Dissolvendo e recompondo, uma e outra vez.

Colunas de Élia Gonçalves sobre as tarefa de Psique: A Arte do Discernimento, Transportar o Mistério & Quanto é Suficiente?

Para citar este artigo:

BATALHA, Sofia. Psykhē Ecossistema. Vento e Água – Ritmos da Terra, https://ventoeagua.com/revistas-online/revista-44/psykhe-ecossistema/, número 44, 2023

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