TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

O Inominado e o Urso

 

Reza o vento antigo que, no tempo em que a terra ainda sonhava o nome das coisas, havia um ser chamado O Inominado, metade sopro, metade lembrança. Não tinha rosto, nem forma fixa: às vezes era neblina, às vezes chama, outras vezes só o eco de uma pergunta. Vivia entre mundos, alimentando-se do silêncio dos que sabiam escutar.

Um dia, encontrou um Urso imenso, de pelo escuro como a noite antes do tempo, dormindo no fundo de uma caverna. O Inominado aproximou-se e murmurou:

— Urso dos Primeiros Dias, acordei-te para perguntar: o que é o centro do mundo?

O Urso abriu um olho preguiçoso e respondeu:

— Depende de quem o pisa.

O ser soprou, inquieto:

— Mas se não houver um centro, como saber quem sou? Para que serve o que existe, se não é sobre mim?

O Urso ergueu-se, fazendo tremer o chão, e falou com voz de trovão antigo:

— O rio não pergunta para quem corre e ainda assim dá de beber.

— A árvore não exige ser lembrada e ainda assim oferece sombra.

— O fungo não sabe o nome de quem alimenta e ainda assim transforma a morte em chão fértil.

O Inominado hesitou, sentindo-se pequeno  e, pela primeira vez, visível à própria insignificância. Chorou. Chorou tanto que o pranto se misturou à terra e, onde caiu, nasceram pequenos lagos. O Urso tocou um deles com a pata.

— Vês? Mesmo as tuas lágrimas não são tuas — tornam-se morada para outros.

E nesse instante, o Inominado compreendeu: o sentido não estava em ser o centro, mas em ser passagem. Dizem que, desde então, quando alguém insiste: “Se isto não é sobre mim, para que serve?”, o eco do Urso ainda ressoa nas pedras:

“Nem tudo te serve, mas tudo te atravessa. E o que te atravessa, transforma o mundo, se deixares de o medir pelo teu reflexo.”

Se isto não é sobre mim, para que serve?

Esta pergunta é compreensível, pois crescemos num mundo que nos ensinou que só importa aquilo que nos centra. Mas há saberes, práticas e memórias que não foram feitos para te servir, e sim para te situar.

Nem tudo precisa ser sobre ti para te transformar. Podemos praticar estar ao serviço de algo maior do que o nosso reflexo?

E ao mesmo tempo, é possível que o que estás a sentir não seja um ataque, mas um convite inesperado a olhar para algo que dói. Podemos fazer uma pausa e escutar o que está a ser tocado, sem precisar transformar isto num julgamento ou numa culpa?

O que se revela quando deixamos de perguntar “o que isto diz sobre mim?” e começamos a perguntar “como posso relacionar-me com isto sem me colocar no centro?”

Que outras formas de presença se tornam possíveis quando deixamos de ocupar o lugar principal?

O que é que se sente ameaçado quando nos tiram do centro?

Que parte de mim está a reagir, e que outra parte pode escutar, em vez de se defender?

Como seria se o desconforto não fosse um sinal de ataque, mas de implicação?”

Frases e reações defensivas associadas:

  • “Sinto-me atacado(a).” Mesmo quando nada foi dirigido pessoalmente. A descentralização é lida como agressão. O que está a ser ameaçado aqui é o “eu inocente”.
  • “Isso não se aplica a mim.” Forma de escapar à implicação coletiva. Cria exceção para si mesma/o. A resistência/defesa está em não se ver como parte da estrutura.
  • “Já passei por muita coisa também.” Tenta invalidar a crítica estrutural com sofrimento pessoal. Move, centra e aprisiona o foco da implicação para o reconhecimento pessoal.
  • “Eu sou uma boa pessoa.” A autoimagem moral é mobilizada para bloquear escuta.  Confunde intenção com impacto. Precisa de ser validada para continuar.
  • “Estás a generalizar.” Tenta desmontar o campo relacional porque não se sente “visto” na sua individualidade.  Prefere dissolver o contexto coletivo para proteger a singularidade.
  • “Mas eu tenho amigos / parceiros / raízes em [grupo oprimido].” Utiliza relações para reivindicar isenção. Tenta converter pertença relacional em escudo de pureza.
  • “Não é justo apontar o dedo assim.” Evita escutar porque sente que está a ser envergonhado. Confunde responsabilização colectiva com humilhação pessoal. Confunde nomeação com julgamento.
  • “Vocês estão a dividir ainda mais as pessoas.” A descentralização do sujeito dominante é lida como causa da divisão. Insiste na unidade como desculpa para não nomear hierarquias, opresões e violências.
  • “Ok, mas o que é que querem que eu faça?” Resposta em tom de frustração, que exige solução clara para evitar o desconforto. Procura ação rápida para não ter de sentir. “Fazer” como fuga do “estar com”.
  • “Eu já fiz o meu trabalho.” Evita novo processo ao reivindicar um passado de esforço. Congela-se no mérito anterior para não ser transformado no presente.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológicatotémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

Outros Contos

Outros Contos

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.