TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS
A Lenda da Gruta dos Frutos Proibidos
{A terra guarda o que o orgulho esquece}
Pois então, encosta-te bem ao lume e escuta devagarinho, que isto não se lê ouve-se. Dizem os velhos que o vento contou esta história nas dobras da noite, quando as brasas ainda falavam com a cinza.
Lá no dorso da Velha Montanha, monte tão antigo que já esqueceu o seu nome, há uma garganta funda, a Gruta dos Frutos Proibidos. Quem lá entra, volta mudado… se é que volta. A terra ali fala grosso e não gosta de peito cheio.
Um dia, uma mulher, A de Coração de Urso, tecedeira de fios e teimosias decidiu descer. Levava no bornal uma garrafinha de água benta, um punhado de sal grosso e uma pergunta que lhe pesava mais que o corpo. À porta da gruta acendeu três velas e murmurou, como mandam os antigos:
“Terra, come-me o orgulho.
Vento, leva-me o medo.
Fogo, ensina-me a escutar.”
E entrou.
Não era pedra o que pisava, era ventre. A luz era húmida, e o ar cheirava a segredo e a húmus vivo. Quem quer atalhar, tropeça e ela bem cedo percebeu que ali não havia caminho direito.
Na escuridão, moravam três frutos vivos, cada um guardando um pedaço de sabedoria que não cabe em livro. Primeiro, encontrou a romã, vermelha e fechada, como coração guardado. Ao estender-lhe a mão, ela abriu-se sozinha, e cada bago murmurou:
“Para renascer, é preciso apodrecer.”
Ela provou um e o sumo colou-se-lhe nos dedos como sangue novo. Sentiu o tempo descer-lhe pela espinha até ao chão. Lembrou-se que até os deuses morrem, só para a terra não esquecer o sabor do divino. E disse baixinho:
“Não há folha que caia sem que a terra saiba.”
Mais adiante, pendia o figo virado do avesso, flor por dentro e segredo por fora. O figo sussurrou-lhe:
“Não temas o tombo, filha. A terra sabe o que fazer com quem cai.”
Ela ajoelhou-se, meteu um pouco de terra à boca, mezinha antiga para curar o excesso de querer mandar, e sentiu o corpo amolecer como barro antes do molde. O povo diz: quem não se dobra, quebra. E foi assim que ela começou a aprender a curvar-se como videira ao vento.
No fundo da gruta dormia o terceiro fruto: uma maçã cor-de-fogo. Cortou-a com a navalha de fiar e viu brilhar no miolo uma estrela de cinco pontas. A maçã perguntou-lhe, sem voz:
“Queres vencer ou queres pertencer?”
E ela percebeu, o caminho não é subir, é descer devagarinho, como folha que volta ao húmus.
Voltou. Apagou as velas. Fez um chá de urtiga e rosa brava, para ensinar o coração a baixar a crista, e bebeu-o quente, em silêncio. O ar cheirava a fungo e promessa. Quando adormeceu, o chão cobriu-a de musgo.
Dizem que nunca mais voltou. Ou talvez tenha voltado disfarçada de pedra, de raiz ou de lembrança.
Na montanha, quem encosta o ouvido ao chão ainda escuta o seu sussurro:
“O caminho escondido não se anda … apodrece-se.”
E nas aldeias baixas, o povo ainda reza assim, baixinho, quando quer descer à própria sombra:
“Romã para lembrar,
Figo para cair,
Maçã para calar.
E quem regressar, que volte em raiz, não em glória.”
E é o que se sabe, meus senhores e minhas senhoras.
O resto… ficou lá em baixo, onde a terra guarda o que o orgulho esquece.
{imagem: A Pomegranate, Siena (1885) by George Henry Hall Original public domain image from National Gallery of Art}

Este conto faz parte da (Des)Formação Eco-Mitologia – Edição Especial – 12 Movimentos da Metamorfose
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Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico
Contos da minha autoria, de trama eco-mitológica, totémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.
A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.
Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.
Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.
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