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Este conto nasceu da paisagem de Monsaraz, antigo Sharish, o “monte das estevas”, onde o xisto aflora como memória mineral e o mato mediterrânico respira em ciclos de fogo e renascimento. Foi a experiência desse território que o teceu: os estevais brancos de primavera, o tojal espinhoso que guarda vida, as antas que ainda hoje ancoram o horizonte e as placas de xisto que, há cinco mil anos, gravaram padrões talvez inspirados na própria trama do monte.
Um dos fios decisivos foi a descrição, na igreja de Mourão, de uma imagem antiga (que não vi, mas que me capturou): a Senhora do Tojal com o Menino ao colo a brincar com pombinhas. Essa figura tornou-se aqui mais do que memória devocional, tornou-se vestígio de uma memória ecológica coletiva. No conto, ela é reinscrita como continuidade entre tempos, herdeira das mulheres que se sentavam no limiar do mato, mediadoras entre fogo e regeneração, entre ninho e chão quente. A minha imaginação foi capturada pela pergunta: “E se a senhora do Tojal com o menino a brincar com pombas guarda memórias mais fundas do território, de conhecimento local e ecológico, dos ciclos de migração e floração?”
Debrucei-me sobre os entrançados ecológicos e locais das espécies que se fizeram presentes. Ao tecer a Senhora do Tojal, os megalitos, as placas de xisto, o esteval e o tojal, este conto propõe uma leitura eco-mitológica da região: uma visão em que pedra, planta, ave e corpo humano participam do mesmo ciclo. O sagrado não surge separado da matéria, mas sedimentado nela. O monte não distingue espírito de carne, morto de vivo, espinho de abrigo. “Memória de Asa e Pedra” é, assim, uma tentativa de escutar o que a paisagem ainda diz e de reinscrever, em palavras, o pacto antigo onde nada vive sozinho.
Memória de Asa e Pedra
No tempo em que os animais falavam, os montes também cantavam. As oliveiras ainda se recordam dos contos das suas avós. Lembram-se dos que levantaram menires que apontam para o céu, dos que escavaram úteros de pedra, entre estevas e tojo. E recordam as que contavam memórias em placas de xisto.
Contam os velhos e retorcidos troncos, e as pedras confirmam, que mesmo antes dos nomes, o Monte era pacto, concerto sem maestro, aliança errada. Entre ninhos, estevas e tojais. Esteva brava, que nasce das feridas do chão, a que floresce no equinócio de primavera, branca como osso lavado, cinco pétalas abertas ao sol. Vive tudo num dia e morre ao entardecer. São muitas, não duram, mas renovam. Sempre renovam em medicina e proteção. As abelhas seguem as suas flores breves e fazem mel escuro, quase amargo, guardado como calor espesso. Já o tojo abriga as aves que escolhem a proteção dos espinhos para os ovos. Cresce espinhado nos arrabaldes do vento, chamavam-lhe acendalha, mas antes de arder, guarda, é útero.
Tal como o Monte, as mulheres sabiam dos ciclos sem livro. Sentavam-se debaixo das oliveiras, no limiar do mato, e escutavam o roçar das asas baixas. Não caçavam, desfiavam tempo. “Onde há ninho, não se corta”, cantavam. E as crianças imitavam o arrulho até que lhes entrasse no peito.
As oliveiras também se lembram do tempo em que o vento falava, e em que as rolas e pombas acompanhavam as gentes. Não eram símbolo de espírito, mas corpo alado que migra. Corpo que come o grão. Corpo que espalha sementes. Corpo que morre e regressa na estação seguinte. Seguindo caravanas humanas. Presas na mão quando os homens partiam para longe, soltas para mostrar o caminho de regresso. Parentes de pena que foram panela quando a fome apertou, porque a fome não distingue sacro da carne. Bússolas em anos de perda, sagradas quando ninguém sabia a quem rezar. Foram arrulho quando dois corpos se escolheram e dádiva quando não havia mais que oferecer. E houve tempo em que se soltavam aos céus para que levassem pedido ou promessa. Parentes antigas. Família primeva. No Monte das Estevas e nos Tojais eram vizinhas, pois o Monte era pacto onde todos se tocavam. Nada vivia sozinho.
No verão quente vinha o fogo e o Monte ardia. O fogo cheirava a resina e terra antiga. A cinza parecia fim, mas a Esteva sempre soube arder e do negro fazia verde tenro. As pombas e as aves do chão voltavam quando o mato reabria. E as mulheres ensinavam: “Onde há ninho, não se arranca; onde há ovo, não se pisa.”
No equinócio, quando as pedras eram erguidas, o fogo do tojo abria o crepúsculo. Homens empurravam as pedras talhadas. Empurravam pedra contra pedra, ombro colado ao frio do granito, pés enterrados no pó. A pedra não subia à pressa, cedia devagar, carregada de memórias.
As mulheres sentavam-se no chão morno do fogo. Traziam crianças no colo enquanto outras riscavam placas de xisto no regaço. Triângulos como espinhos do tojo, ziguezagues como esteval em flor. Escutavam padrões em ritmo vivo de regeneração e proteção, em bandos de asas e memórias de vento. Riscavam olhos fundos e raiados, ou talvez ninhos de chão com ovo. Vestiam os corpos dos mortos com xisto negro em padrão e paisagem. Desenhavam na pedra rasa e escura o que as sustentava. E ofereciam tudo de volta ao chão, mesmo aqui à beira das pedras grandes.
Dia após dia, noite após noite, sentaram-se no chão barrento onde o mato encontra a pedra. Vieram com crianças, brincadeiras, asas e silêncio. Também elas eram chão e ciclo.
As mulheres sabiam.
Sentavam-se no mesmo chão onde os antepassados eram oferecidos, parentes agora terra.
Envolvidos em mel escuro, ládano e cinzas de tojo. Adornados de osso e barro.
Vestidos de xisto tecido dos ritmos do lugar e ciclos das estrelas. As placas pousadas sobre o peito eram a paisagem devolvida ao corpo.
Colo aberto.
Porque o Monte não separa o espírito da carne.
Nem desgarra morto de vivo.
Não separa espinho de refúgio.
Nem os bandos de asas do brincar.
Onde há esteva, há flor de um dia e raiz persistente.
Onde há tojo, há pico e abrigo.
Onde há placa de xisto, há memória que atravessa milénios.
Onde há pomba, há corpo que migra e regressa.
E enquanto houver quem se sente em círculo, para brincar ou cantar, quem leia a terra como se lê uma placa gravada, o Monte relembra o pacto. Sempre relembra.

✦ O Monte como Corpo-Pacto (Sharish / Monsaraz)
O antigo nome árabe Sharish (Xerez / Saris), associado a Monsaraz, pode ser poeticamente relido como “monte das estevas”. Independentemente da precisão etimológica, permanece uma verdade ecológica: trata-se de um território de esteval e tojal, de mato aromático que arde e renasce, onde o fogo não é apenas destruição, mas parte do ciclo. No conto, o Monte não surge como simples cenário, mas como organismo relacional, um corpo-pacto que une pedra erguida (megalito) e pedra gravada (placa de xisto), espinho e ninho, morto e vivo, incêndio e regeneração. A cosmologia que o atravessa é pré-dual, recusando separar espírito e carne, cultura e natureza, sagrado e subsistência. O Monte afirma-se, assim, como entidade ecológica total, lugar onde tudo se toca e nada existe isolado.
✦ A Esteva: Flor de um Dia, Raiz Persistente
A esteva (Cistus ladanifer) ocupa, no conto, um lugar axial: é flor de um dia e raiz persistente, claridade breve que se abre inteira ao sol e se desfaz ao entardecer. A sua efemeridade não é fragilidade, mas intensidade — muitas flores, duração curta, renovação constante. Planta de resina espessa e medicinal, associada a proteção e cuidado, a esteva é também espécie pioneira que regressa depois do incêndio, cobrindo de verde tenro o chão negro. Eco-mitologicamente, ela encarna um tempo circular: vive tudo num só dia, mas volta sempre. Ensina que o fogo não é apenas devastação, é também germinação; que o ciclo precede a catástrofe; e que o renascimento não é milagre sobrenatural, mas inteligência ecológica inscrita na própria terra.
✦ O Tojo: Espinho-Útero
O tojo (Ulex spp.), tantas vezes reduzido a acendalha ou a mato áspero destinado ao fogo rápido, surge no conto como o que antecede o incêndio: abrigo e refúgio. Ecologicamente, os seus espinhos densos criam um micro-habitat protegido onde pequenas aves — como cotovias, cartaxos, toutinegras ou pintarroxos — podem esconder e sustentar os seus ninhos; não são as pombas que ali nidificam, mas aves de pequeno porte que encontram no emaranhado espinhoso defesa contra predadores e vento. Eco-mitologicamente, o tojo transforma-se assim em espinho que guarda, limiar entre o doméstico e o selvagem, maternidade agreste que protege o “chão quente onde o ovo descansa”. O símbolo é reescrito: o espinho deixa de ser sinal de punição ou maldição e torna-se estrutura de cuidado, uma fortaleza viva onde a fragilidade encontra refúgio.
✦ A Senhora do Tojal: Memória Sincrética
A imagem que não vi da Senhora do Tojal com o Menino a brincar com pombinhas, descrita na igreja de Mourão, possui precisamente a força das visões que não chegaram a fixar-se no olhar: age como presença ausente, como ícone que persiste pela memória e não pela matéria. Não a ter visto amplia-a — torna-a mais ecológica do que devocional. Nela, o Menino não surge ainda como figura sacrificial, mas como criança em relação com os corpos alados que são lugar em migração e movimento, gesto de intimidade entre humano e ave, entre cuidado e brincadeira. A Senhora, por sua vez, deixa de ser apenas trono celeste e torna-se mulher no limiar do tojal, guardiã de um território onde espinho é abrigo e ninho é pacto. A força dessa imagem reside justamente na sua condição de vestígio: elo entre a memória megalítica e a cristã, entre a pedra e o mato, entre o sagrado instituído e a ecologia viva que o antecede e o sustenta.
✦ As Pombas e Rolas: Corpo Quente, Parente Vivo
Ao devolver às pombas e rolas a sua espessura terrestre, o conto retira-as do exclusivo papel de emblema do Espírito para as reinscrever como corpo quente, migrador e granívoro, participante ativo da circularidade viva do monte. São aves que comem o grão, dispersam sementes, percorrem milhares de quilómetros e regressam na estação seguinte; são parentes alados que já foram alimento quando a fome apertou e bússola quando o regresso era incerto. Tornam-se mensageiras porque migram, sinal de orientação porque retornam, sagradas não por se afastarem da carne, mas por habitarem plenamente nela. Esta reintegração é eco-mitologicamente decisiva: o sagrado deixa de ser o que se separa do corpo e passa a ser aquilo que participa na circulação da vida, no ciclo partilhado entre humanos, aves, plantas e pedra.
✦ As Placas de Xisto: Escrita da Paisagem
As placas de xisto do Sudoeste ibérico têm sido interpretadas como ídolos, representações femininas, marcadores funerários, padrões têxteis ou sistemas simbólicos abstratos. Contudo, existe uma base teórica que permite ampliar essa leitura e escutar nelas uma mimesis mais vasta: não apenas a da tecelagem, mas a da própria paisagem. Já no século XIX, Estácio da Veiga sugeria que os seus motivos não eram pura invenção, mas imitação de formas naturais — como os cristais que poderiam ter inspirado o triângulo recorrente. Mais tarde, María José Almagro Gorbea propôs que ziguezagues e axadrezados poderiam remeter a “campos” ou “úteros”, metáforas agrícolas de fertilidade. Se aceitarmos que estas comunidades materializavam a sua identidade através da ecologia que habitavam, então a densidade visual de um tojal ou de um esteval — a repetição rítmica dos espinhos, o entrelaçar dos ramos, o ondular vegetal no vento — pode ter informado essa gramática geométrica. Mesmo a interpretação dominante que vê nas placas códigos têxteis (Elizabeth Barber) não exclui esta hipótese: os tecidos eram feitos de fibras locais, linho, lã, esparto, produtos do mesmo chão. A placa seria, assim, uma “vestimenta de pedra”, um gesto onde a trama orgânica se fixa no xisto, paleta mineral escolhida para dar duração ao que é perecível. A própria forma trapezoidal, evocando a “qualidade de machado” (axeness), inscreve o diálogo entre cultura e ecologia: o machado transforma a floresta em campo; a placa transforma a ferramenta em memória.
A leitura biomórfica reforça esta tessitura relacional. Certas placas — com olhos profundos, sulcos verticais e linhas suboculares — têm sido associadas à coruja-das-torres (Tyto alba), habitante de ecologias agrícolas, predadora liminar entre vida e morte. Os seus triângulos e ziguezagues podem ecoar a penugem flamejada das asas; os “olhos” gravados tornam-se focos de vigilância. Fabulamos aqui, que se o tojo funciona como “útero de espinhos” que protege ninhos no chão, então os padrões geométricos podem ser lidos como essa mesma barreira protetora: triângulos suspensos como espinhos, ziguezagues como sebe densa, guardando o “ovo” — o antepassado e a promessa de futuro — no interior da fortaleza pétrea; ou os olhos como ninhos de chão. A ecologia não é pano de fundo, é matriz viva.
Em Monsaraz, coração do xisto e da esteva, esta leitura ganha espessura geográfica. O monte das estevas bravas oferece o contexto visual e material das placas; a planta que “sabe arder” e renascer ecoa a biografia longa dos megalitos, reutilizados ao longo de milénios como palimpsestos ecológicos. Monumentos como a Anta Grande do Olival da Pega não são apenas túmulos, mas geografias ancestrais que fundem tempo humano e tempo mineral. Orientadas para o nascer do sol ou para formações específicas da paisagem, as antas funcionam como bússolas de origem, ancorando a comunidade ao chão vivo. O uso de quartzo branco, cristais e a presença de eixos que alcançam a água reforçam a ligação ao “útero” terrestre, fonte de regeneração. Assim, ao vestir os mortos com placas gravadas, não se representava apenas uma linhagem: reinscrevia-se o corpo na trama ecológica que o gerou. Pedra que imita vida, vida que regressa à pedra, numa ética na qual o sagrado não é separado da natureza, mas sedimentado nela, e onde memória não é abstração, mas relação contínua entre espinho, asa, fogo e xisto.
No conto, as mulheres não empurram a pedra erguida, mas gravam a pedra rasa; não caçam, mas protegem o ninho. São figuras de limiar, mediadoras entre fogo e regeneração, entre morte e ciclo, entre criança e território. Não surgem como essência mística idealizada, mas como corpos ecológicos do cuidado, guardiãs de uma ética silenciosa que sustenta a continuidade do lugar.
O fogo, por sua vez, não é apresentado como apocalipse, mas como processo: cheiro a resina, cinza que fertiliza, recomeço da esteva. Eco-mitologicamente destrói o excesso, revela a semente e guarda a memória do monte. Em vez de separar ou encerrar, integra e abre espaço à regeneração, inscrevendo na paisagem o ritmo inevitável da transformação.
É nesse tecido que ressoa a frase que organiza o conto — “Onde há ninho, não se corta.” — expressão de uma ética ecológica ancestral. Ecoando como hoje em dia muitas destas aves estão em vias de extinção. O conto propõe, uma ontologia relacional e uma espiritualidade incorporada (imanência), onde arqueologia e ecologia se reconciliam numa memória longa que atravessa milénios, reafirmando que nada vive sozinho e todo o gesto humano participa do mesmo corpo-teia de vida.
✦ Referências
Ciclo de Contos de Activismo Eco-Mítico
Sem apropriação, sem exotização, estas refabulações ensaiam outras gramáticas de parentesco e cuidado, recusando a ontologia da hierarquia, do progresso e do indivíduo soberano. Aqui, o saber não é posse nem elevação, mas é prática situada, comunitária, incorporada.
Totémicos e animistas, estes contos devolvem agência ao que a modernidade declarou cenário: a paisagem, o ciclo, o corpo, o mito. Recordam que a vida, a morte e a regeneração não são metáforas, mas ritmos eco-políticos da existência.
Este ciclo integra a constelação viva do Activismo Eco-Mítico: uma prática de (des)formação que fabula para desfazer impérios da imaginação e reabrir possibilidades de habitar a Terra em relação.
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