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Maldita das Raízes Fundas

Reza a lenda que, nas encostas de xisto onde o nevoeiro se enrola no ventre da serra, viveu uma curandeira a quem chamavam Maldita das Raízes Fundas. Não por fazer mal, mas por recusar o bem igual para todos. Diziam que tinha nascido debaixo de um carvalho e que o seu primeiro choro acordou as minhocas e os mortos. Era mulher de olhar de chuva e voz de terra molhada. Sabia as rezas das pedras, os nomes das ervas e as histórias que o vento guardava nas dobras das folhas.

Quando alguém chegava com dor, ela nunca perguntava “onde dói?” — perguntava “onde começou a dor do teu povo?” E logo ia à horta das sombras colher o que curava cada uma dessas memórias: folha de urze para o que vem das mulheres silenciadas, casca de sobreiro para as perdas dos homens sem choro, sementes de funcho para as crianças roubadas pela fome.

Muitos temiam esse modo de cuidar. Diziam que ela misturava as dores, que não respeitava o sagrado daquilo que é “só de cada um”. Mas ela respondia, tranquila, mexendo o caldeirão:

“Dor que não tem raiz partilhada é invenção da pressa.
E cura que não se faz em relação é só adormecer ferida.”

O pároco da vila chamou-lhe herege. Os doutores chamaram-na ignorante. E o povo, dividido entre medo e gratidão, passou a chamá-la Maldita, porque quem enraíza o sofrimento quebra o conforto das certezas.

Certa noite, acenderam-lhe fogo à cabana. Mas ao amanhecer, no lugar das cinzas, nasceram centenas de pequenas plantas, cada uma com uma folha em forma de ouvido e outra em forma de coração. Diz-se que, quando o vento passa por ali, ainda se ouvem sussurros:

“Nem toda cura é igual.
E nem toda dor é só tua.
Quem quer salvar o mundo inteiro esquece de ouvir o chão onde pisa.”

Desde então, os pastores que atravessam aquele vale levam sempre uma folha daquelas ervas às lapelas. Chamam-lhe erva-do-entre porque lembra que a cura mora no meio das relações, não acima delas.

E a velha? Dizem que se transformou em raiz. Está lá, debaixo da terra, à escuta. E quando alguém tenta impor uma cura universal, o chão treme, como quem avisa:

“Cada ferida tem o seu solo.
E o solo, minha filha, é sempre um coro antigo.”

 

Notas Eco-Míticas

O universalismo moderno procura uma cura que sirva para todos os corpos da mesma maneira. Parte da ideia de que existe uma forma correta, neutra e aplicável a qualquer lugar, como se as feridas humanas crescessem num solo uniforme. É a medicina que chega à aldeia com um remédio único e uma medida igual para todos. Mas, como a Maldita das Raízes Fundas lembrava, há dores que nascem de histórias diferentes, de terras diferentes, de memórias enterradas em profundidades diferentes. Quando se tenta aplicar a mesma cura a todos os corpos, muitas dessas raízes são ignoradas e o que parecia solução torna-se apenas uma camada de cimento sobre um campo vivo.

O olhar sistémico não pergunta primeiro “qual é a solução?”, mas “em que solo cresceu esta dor?”. Reconhece que cada sofrimento singular é também atravessado por histórias coletivas, de violência, de deslocação, de silêncio, que se entrelaçam no corpo e no território. O sistémico ecológico e relacional não dissolve o individual num todo abstrato; devolve-lhe contexto, memória e relação. A dor continua a ser única, mas deixa de ser isolada, é agora uma raiz particular num subterrâneo partilhado de histórias e forças.

Talvez por isso o sistémico se pareça mais com um lago do que com um espelho pendurado na parede. Num espelho fixo, a realidade pode ser enquadrada, analisada e corrigida. Num lago, a imagem está sempre em relação com o vento, as margens, as raízes submersas e as folhas que caem na água. Quem olha já faz parte do campo que olha. Tal como a cura que não desce de cima como fórmula universal, mas emerge das relações vivas entre corpos, histórias e lugares. A Maldita das Raízes Fundas sabia isso quando dizia que “cada ferida tem o seu solo; e o solo é sempre um coro antigo”.

Ciclo de Contos de Activismo Eco-Mítico

Estes contos não recolhem folclore: reacendem-no. Nascem do húmus de textos, escutas e feridas antigas, onde a palavra popular ainda sabe falar com a terra, os mortos, os animais e o tempo que não corre em linha reta.

Sem apropriação, sem exotização, estas refabulações ensaiam outras gramáticas de parentesco e cuidado, recusando a ontologia da hierarquia, do progresso e do indivíduo soberano. Aqui, o saber não é posse nem elevação, mas é prática situada, comunitária, incorporada.

Totémicos e animistas, estes contos devolvem agência ao que a modernidade declarou cenário: a paisagem, o ciclo, o corpo, o mito. Recordam que a vida, a morte e a regeneração não são metáforas, mas ritmos eco-políticos da existência.

Este ciclo integra a constelação viva do Activismo Eco-Mítico: uma prática de (des)formação que fabula para desfazer impérios da imaginação e reabrir possibilidades de habitar a Terra em relação.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.