TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

Da Pedra que Ficou e do Espelho que Quebrou

 

Contam as velhas que no tempo em que os rios ainda falavam alto e as pedras ainda sabiam o nome das pessoas, houve uma conversa estranha no fundo de um vale antigo. Ali o rio fazia curva lenta, como quem pensa e havia uma pedra no meio da corrente.
Junto da margem, meio enterrado no lodo e na erva molhada, jazia um espelho partido. Aquele espelho não tinha nascido ali, veio de longe, trazido pelas mãos inquietas dos humanos, que gostam de se olhar até perder o rosto.

Numa noite de lua baça, o espelho estalado falou primeiro.

— Ai de mim — disse ele com voz de vidro cansado — fui feito para mostrar o mundo, mas agora só mostro pedaços. Cada caco guarda um rosto, cada rosto quer ser o único. E cada um se julga inteiro.

A pedra, que estava há mais de mil anos no meio da água, respondeu devagar, a mastigar tempo.

— Não chores, espelho. Tu foste feito para separar. Eu fui feito para ficar.

O rio escutava, porque os rios escutam tudo. E disse:

— Espelho, conta-nos o que viste.

O espelho suspirou e tilintou. E falou dos humanos a aprenderem a olhar apenas para si. Cada um dizia: “eu sou eu, sozinho, mais ninguém.” Que sem saberem cortaram o fio que os prendia às árvores, às pedras e aos mortos. E o espelho tremia e contava como passaram a viver como cacos brilhantes. A pedra respondeu:

— Quem vive sem chão, vive sempre com medo de cair.

E o rio murmurou um provérbio antigo:

“Água sem leito é enxurrada.
Gente sem povo é poeira.”

Então continuou o rio, que se lembrava de tempos mais fundos. “Nem sempre foi assim.” dizia. E a água lembrou dos tempos em que cada pessoa era como pedra no leito. Não era igual às outras. Mas sem elas o rio não sabia correr. A pedra concordou:

— Pois claro. Cada pedra é ela mesma, mas todas seguram o caminho da água.

O espelho partido e inquieto, perguntou:

— Então o indivíduo não desaparece no comum?

A pedra respondeu que não. E o não das pedras é pesado e tem memória de estrelas. E acrescentou:

— Pedra no rio é caminho da corrente.

O rio concordou.

Durante muito tempo o espelho ficou em silêncio. Tanto tempo que cresceram musgos nas suas bordas. Até que um dia disse:

— Talvez eu não estivesse errado por mostrar rostos…mas estava errado por mostrá-los sozinhos.

O rio riu e respingou gotas pelas margens.

— Quem olha apenas para si vê pouco.

E a pedra ensinou-lhe um segredo antigo:

— Se quiseres voltar a ver inteiro, não olhes para um rosto. Olha para a corrente.

O espelho tentou. Nos seus cacos apareceu então algo novo, a água, a pedra, a lua, as raízes das árvores, e até o voo de um corvo. Tudo junto e em relação. E o espelho, mesmo partido, começou a compreender.

As velhas sabem que desde essa noite o espelho já não chora por se sentir sozinho. Porque percebeu uma coisa que as pedras sabem desde o início do mundo:

O indivíduo sozinho é apenas um fragmento.
Mas o indivíduo em relação é um lugar do mundo.

Por isso ainda hoje, naquele vale, a pedra continua no meio do rio.
O rio continua a correr entre as pedras.
E o espelho partido continua na margem, a aprender que ver é também participar.

Como dizem as avós da serra:

“Cada pedra é ela própria.
Mas é o rio que a ensina a ser.”

E se passares por lá, se escutares bem, talvez ainda consigas escutar o espelho tilintar devagar na noite.

Conto feito a partir do artigo Hiper Individualismo ou Individualismo Colectivo.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Estes contos não recolhem folclore: reacendem-no.
Nascem do húmus de textos, escutas e feridas antigas, onde a palavra popular ainda sabe falar com a terra, os mortos, os animais e o tempo que não corre em linha reta.

Sem apropriação, sem exotização, estas refabulações ensaiam outras gramáticas de parentesco e cuidado, recusando a ontologia da hierarquia, do progresso e do indivíduo soberano. Aqui, o saber não é posse nem elevação, mas é prática situada, comunitária, incorporada.

Totémicos e animistas, estes contos devolvem agência ao que a modernidade declarou cenário: a paisagem, o ciclo, o corpo, o mito. Recordam que a vida, a morte e a regeneração não são metáforas, mas ritmos eco-políticos da existência.

Este ciclo integra a constelação viva do Activismo Eco-Mítico: uma prática de (des)formação que fabula para desfazer impérios da imaginação e reabrir possibilidades de habitar a Terra em relação.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.