TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

A Velha Peeira e a Vela de Sebo

 

Contam os velhos, à beira do lume, que nas serras fundas de Entre-Céu-e-Terra vivia uma velha peeira. Sabia os nomes do vento e as passagens das almas e tinha por companhia uma vela de sebo que nunca se gastava. Não era vela de igreja, dessas que brilham limpas e mudas. Era uma vela de bicho, de sebo, de carne, de tempo. Cheirava a cabra e a suor, a vida feita lume. A peeira acendia-a só quando o mundo esquecia as fronteiras certas entre os vivos e os outros.

Uma noite, apareceu-lhe à porta um rapaz da vila, desses que aprenderam a falar do alto das nuvens, falava fino e dizia: “Velha, porque é que andas ainda com essa vela suja? O fogo é o mesmo em todas as chamas. Somos todos um. Já não há diferença.”

A peeira olhou-o por baixo das sobrancelhas grossas, soprou o fumo do cachimbo e respondeu-lhe devagar: “Pois sim, rapaz. O lume é um só, mas não se acende sem sebo. E cada bicho tem o seu.”

O moço riu, achando-a tola. Disse que já meditava, que não precisava dessas velharias da terra. “Eu já estou acima disso. Já não há sombra nem sangue. Só luz.” Mas a peeira não se deu por vencida. Pediu-lhe que ficasse até à meia-noite, queria mostrar-lhe o que era o “um” que respirava na carne do mundo. E assim foi.

Quando o sino da ermida bateu doze, ela acendeu a vela de sebo. O fumo subiu, grosso e doce e no lume começaram a mover-se vultos: a raposa que lhe dera leite; a mulher moura que morrera sem confissão; a serra inteira, com seus ossos e rios; e o rapaz até viu o rosto da sua própria avó, que nunca conhecera. A chama tremia e cada cor pulsava como um coração. O rapaz começou a chorar, sem saber porquê. E a velha disse-lhe:

“Vês, menino? O ‘um’ mora aqui no meio do muito. Na gordura do bicho, na lágrima do homem, no grito da árvore. Quem salta por cima disso para chegar à luz, apaga o lume antes de o ver.”

O rapaz ajoelhou-se, tocou a cera quente e sentiu-lhe o pulso. A chama queimava devagar, viva e bruta e nele algo se partiu, ou se juntou.

Nunca mais falou do “um” sem falar da lama ou do sebo.

Dizem que, desde então, todas as noites de Inverno, a peeira acende a sua vela à porta e murmura: “Não há céu sem sebo, nem luz sem sombra, nem ‘um’ que viva sem o peso do chão.” E quem passa e sente o cheiro da cera e do bicho, sabe que essa velha chama ainda guarda o lume da terra — aquele que une, sim, mas sem apagar o que é diferente.

Se ainda achas que “Somos todos um.” Que a espiritualidade verdadeira é universal e que não precisamos de separar ou diferenciar tanto; este conto é para ti.

Sim, há uma interligação profunda. Mas quando saltamos diretamente para o “tudo é um”, sem passar pelas diferenças, pelas feridas e pelas responsabilidades, a unidade torna-se uma forma de apagamento. Não é necessário dissolver as particularidades para sentir a interconexão. Podemos praticar uma espiritualidade que toca a terra, os corpos e as histórias?

Quando a ternura é anestesia, transcendente sem corpo que sua e sangra, é o Monismo Espiritual a falar. Aquela vontade de fusão que evita, e que se eleva acima, da fricção, diferença, responsabilidade. Isto parece curativas, mas salta por cima das feridas; apaga histórias, corpos, territórios, relações; e confunde transcendência com negação. Transforma interconexão em abstração e espiritualidade em desligamento flutuante.

Estas frases, que podes dizer ou ouvir, fazem parte desta postura:

  • “No fundo, não há separação.”
  • “As divisões são todas ilusórias.”
  • “A alma não tem raça, nem género, nem território.”
  • “Estamos todos a caminhar para a mesma luz.”
  • “Tudo é energia, não precisamos complicar com política.”
  • “Só o ego vê separação.”
  • “Todas as tradições espirituais dizem a mesma coisa.”
  • “Se nos focássemos no que nos une, tudo seria resolvido.”
  • “O sofrimento só existe porque esquecemos que somos um.”
  • “A Terra é de todos, não precisamos de raízes.”
  • “Não importa de onde vens, o espírito é universal.”
  • “Quando todos meditarem, não haverá mais conflito.”
  • “A divisão é uma ilusão da mente inferior.”
  • “Não precisamos de histórias, precisamos de silêncio.”

Que tipo de espiritualidade cultivamos quando evitamos a fricção, o contexto e a diferença?

O que muda quando a interligação é sentida não como abstração, mas como compromisso situado com o que vive e sofre?

Quando a espiritualidade se torna abstrata, homogénea e “acima de tudo,” um céu sem chão, um “um” sem contexto, transcendente, universalista, desencarnada, deixa de ser relação e torna-se fuga. São discursos que evitam muitas vezes a implicação, a responsabilidade e o lugar; dissolve o corpo, a história, o território. É uma espiritualidade sem memória, sem política, sem reciprocidade (só assim se mantém pura).

Mas sabemos:

  • Que o “um” só é verdadeiro quando passa pelas cicatrizes dos muitos.
  • Que unidade sem contexto é apagamento, não comunhão.
  • E que espiritualidade viva é aquela que não foge da carne, da terra, da história e do agora.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológicatotémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.