TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

A Rainha-Mãe dos Muitos Filhos

 

Reza a lenda, nas terras quentes onde a poeira brilha como ouro e os tambores falam com o céu, que antes de haver fronteiras e mapas, havia apenas Ela, a Rainha-Mãe dos Muitos Filhos. Chamavam-lhe muitos nomes, conforme o rio e o idioma, mas todos sabiam que ela era o ventre da abundância, o ritmo do batimento da terra.

Os que nasceram dela espalharam-se pelo mundo como sementes ao vento, uns viraram povos, outros florestas, outros rebanhos e peixes. E em cada língua se guardava a lembrança: “Nada está só, tudo tem mãe.”

Mas um dia, dizem, chegaram os homens do cálculo, com os olhos cheios de medo e as mãos cheias de medidas. Trouxeram balanças para pesar os ventres e mapas para dividir os céus. Apontaram para o povo da Rainha e disseram: “Vedes como são muitos? Eis o problema do mundo. São eles que consomem demais, que multiplicam o caos.” E riram-se da sua abundância, como quem ri da própria origem.

Mas a Rainha-Mãe não respondeu de imediato. Limitou-se a erguer o rosto e a deixar que o pó da terra lhe pintasse o olhar. Depois, disse num tom que fez tremer as árvores: “Ah… os filhos do frio esqueceram o calor. Falam de excesso porque perderam o dom de partilhar. Chamam pobreza à fartura que não entendem e chamam ordem à fome que provocam.”

As montanhas escutaram, os rios pararam a respiração. E os seus filhos, os povos negros, castanhos, mestiços, ergueram-se, cada um com um tambor, cada um com uma história. Dançaram no chão como raízes a vibrar. E cada passo dizia: “Nós não somos demais. Somos os que restam.” Foi então que um dos homens do cálculo tentou justificar-se: “Mas os números não mentem, ó Rainha! O planeta não suporta tanta gente!” E a Rainha sorriu, lenta, como quem já viu civilizações inteiras nascer e desabar. “Os números mentem quando servem o medo,” — respondeu. — “O que mata não são os muitos corpos, mas as poucas mãos que acumulam. Cem homens queimam mais mundo do que cem mil aldeias.”

Ela levantou o seu cajado de marfim e tocou o chão. Do toque nasceram visões: cidades de vidro e fumo onde poucos se banqueteavam enquanto muitos morriam de sede; navios carregados de ouro e corpos arrancados à terra; oceanos cheios de lixo e silêncio. E, sobre tudo isso, um coro de vozes invisíveis gritava: “Chamam-nos demais, para esconder o que tiram de nós.”

A Rainha-Mãe então ergueu as mãos e de cada palma saíram centelhas, uma para cada filho seu espalhado pelo mundo. As centelhas pousaram nos ombros dos que ainda semeiam, cuidam, cozinham, amamentam, defendem rios e matas. E disse: “Eles são o meu corpo. E enquanto houver um que planta, que dança, que partilha, eu continuarei viva. Chamem-me excesso … eu chamarei Vida.”

Dizem que, desde esse dia, quem fala do “problema da sobrepopulação” sente um arrepio no pescoço, como se uma voz antiga soprasse: “Conta o ouro, não os ventres. Conta os fogos das fábricas, não os berços das aldeias. E vê quem consome o mundo, não quem o habita.”

E disse a Rainha-Mãe dos Muitos Filhos, aquela que não cabe nas estatísticas, que não pede perdão por existir e que, em cada nova criança nascida do Sul, sussurra: “Sou vasta como o planeta, fecunda como o tempo e nenhum cálculo há de apagar o meu nome.”

Se ainda achas que a raiz das crises que enfrentamos é a sobrepopulação, este conto é para ti.

Parece ciência e cuidado com o planeta. Mas é seleção, desresponsabilização e controle. Aparenta ser solução. Mas é substituir justiça ecológica por hierarquia humana. O crescimento da população não é o problema, a acumulação e extração massiva de recursos e o consumo descomunal sim. Se todas as pessoas consumissem como a metade mais empobrecida do mundo, não estaríamos em crise. A verdadeira questão é: quem está a consumir o quê, e à custa de quem?

“Se a redução da população fosse a solução, porque é que as nações mais ricas e mais poluentes têm populações cada vez mais reduzidas, mas continuam a causar os maiores danos? E se o problema não for ‘demasiadas pessoas’, mas um sistema concebido para explorar?”

“É interessante como a ‘sobrepopulação’ é sempre atribuída aos países negros e castanhos, quando 70% das emissões provêm de apenas 100 empresas. O que acontece quando transferimos a culpa para onde ela pertence?”

As ideias eco-fascistas e neo-malthusianistas soam muitas vezes como ambientalismo, mas culpam as pessoas erradas (imigrantes, o Sul Global, quem é sistematicamente empurrado para as margens, os empobrecidos, oprimidos, escravizados) em vez da ganância corporativa, da extração colonial e do capitalismo. Estas narrativas florescem porque oferecem bodes expiatórios simples em vez de uma responsabilização complexa. “E se, em vez de menos pessoas, precisássemos de menos sistemas de destruição?”

Esta perspetiva substitui responsabilidade sistémica por culpas demográficas; ignora o papel da colonização, do extrativismo e do hiper-consumo na crise ecológica; E associa “solução ecológica” à eliminação ou controlo de grupos racializados, ou empobrecidos.

É um eco-gesto fascista: em vez de mudar o sistema, muda-se quem vive. É racismo revestido de ciência, eugenia disfarçada de “limite planetário”. Mas sabemos: Que 100 empresas são responsáveis por mais de 70% das emissões; que o consumo da metade mais rica devasta mais do que a presença de milhões; que povos indígenas administram mais de 80% da biodiversidade restante, com menos de 5% da população global e sendo continuamente agredidos, violentados, menosprezados.

Por isso que já ouviste alguma das seguintes frases, já sabes que é eco-fascismo, eugenia e neo-malthusianismo disfarçados:

  • “O mundo está demasiado cheio, é inevitável o colapso.”
  • “Há simplesmente pessoas a mais no planeta.”
  • “Os recursos não chegam para tanta gente.”
  • “A Terra tem uma capacidade limitada, temos que aceitar isso.”
  • “Se não houver controlo populacional, não há salvação.”
  • “Quem é que vai ter coragem de falar do verdadeiro problema: a natalidade?”
  • “Isto não é sobre racismo, é sobre números.”
  • “Temos que fazer escolhas difíceis.”
  • “A explosão demográfica é o maior perigo ambiental.”
  • “Menos pessoas, menos impacto.”
  • “Não é sustentável ajudar toda a gente.”
  • “A imigração é o verdadeiro problema ecológico.”
  • “O Sul Global devia controlar os seus nascimentos.”
  • “A natureza regula, devíamos deixar que o colapso aconteça.”

Podes saber mais nas Notas Soltas de Ecofeminismo. Um ensaio crítico, situado e indisciplinado que recusa a pressa, a pureza moral e os universalismos confortáveis. A partir do ecofeminismo europeu, abro fissuras nos seus pontos cegos, questionando a abstração ética, a equivalência moral e a persistência de lógicas coloniais que se mascaram de cuidado, consciência ecológica ou superioridade moral. Estas páginas não procuram respostas fechadas, mas gestos de escuta, implicação e compostagem dos escombros da modernidade.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológicatotémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.