TEMPO DE LEITURA – 5 MINUTOS

A Costureira das Muitas Peles

 

Reza a lenda que, lá nas encostas onde o musgo se enrosca nas pedras como pensamento antigo, vivia uma costureira de muitas peles. Não tinha nome, porque os nomes prendem, e ela era feita de metamorfoses. Diziam que viera do ventre de uma loba e do sopro de um vento.  Uns chamavam-lhe santa, outros bruxa, outros apenas “a que remenda o mundo”. Costurava à luz de um candeeiro de azeite, fiando linhas das vísceras do tempo. Cada pele que usava contava uma estação do mundo:

a pele de linho dos dias simples,

a pele de barro dos dias pesados,

a pele de sombra dos dias em que os mortos pediam lembrança,

e a pele de orvalho, fina e viva, para quando o coração precisava respirar.

Mas nenhum tecido lhe pertencia; ela vestia e despia cada um conforme a dor que chegava. E dizia: “Nenhuma pele é mentira. Só o esquecimento o é.” As gentes do vale não entendiam. Uns queriam que fosse santa: “purifica-te, mulher, escolhe a luz!”; outros, que fosse útil. Mas a costureira sorria e respondia baixinho: “O lume e o húmus são da mesma carne.”

Quando vinham os doutores da cidade, traziam livros de medidas e diziam que a alma não entra nas contas. Quando vinham os devotos, queriam que ela abandonasse o tear e orasse em silêncio. E a velha apenas replicava, enquanto alinhavava uma bainha de luar: “Quem separa o fio do pano perde o manto inteiro.”

Diz-se que, numa noite de trovoada, ela começou a coser com agulha de osso e linha de água; costurava o invisível ao visível, o corpo à fala, o sangue ao sonho. Os trovões, vendo tal atrevimento, calaram-se um instante. E a terra respirou. No dia seguinte, encontraram o tear vazio, as peles penduradas nas árvores, balançando como orações. Mas o vento cheirava a alfazema e ferro queimado, sinal de obra concluída. Desde então, quando o mundo se divide em extremos, entre quem só acredita na alma e quem só crê no corpo, é costume deixar um retalho de roupa velha na encruzilhada, para lembrar que a costureira ainda remenda o que a mente rasga.

E quem passa e escuta bem jura ouvir o sussurro dela: “Não há espiritualidade sem corpo, nem política sem alma. O fio é um só e é ele que nos cose à Terra.”

Se ainda achas que o que precisamos é de prática e que tudo o resto é perda de tempo, este conto é para ti.

Espiritualidade sem corpo e política pode escapar à responsabilidade. Política e ecologia sem alma podem tornar-se gestão fria. Podemos permitir que as dimensões se toquem sem se anularem?

Esta postura é o reflexo nítido do Reducionismo Racionalista, que herdamos da modernidade como lente única de legitimidade. Mas também é irmã do Monismo Espiritual, que por vezes quer apenas a experiência transcendental e se esquiva das implicações políticas. Ambas as posturas têm medo do entrelaçamento. Estas frases operam como bisturis epistemológicos: cortam, separam, especializam e empobrecem o campo relacional:

  • “Isto está a ficar muito abstrato … precisamos de soluções práticas.”
  • “Eu prefiro trabalhar com dados concretos.”
  • “A espiritualidade não tem lugar neste tipo de discussão.”
  • “Não precisamos de mística, precisamos de políticas públicas.”
  • “A filosofia não resolve problemas reais.”
  • “Isto parece conversa para seitas, não para ativismo.”
  • “O que isto muda na prática?”
  • “Não tenho paciência para devaneios, gosto de coisas objetivas.”
  • “Vamos focar no que é científico.”
  • “Tudo isso é bonito, mas o que conta são os factos.”
  • “A alma não entra no orçamento do Estado.”
  • “Estas conversas são uma distração.”
  • “Precisamos de trabalhar com o que existe, não com simbologia.”
  • “Isso é linguagem poética … não é aplicável.”

Que mundos cortamos quando separamos espiritualidade de biologia, ou política de alma? Que tipo de transformação é possível se permitirmos uma ecologia do sensível?

Transformam o mundo num problema a ser resolvido, e não num ser com quem se relacionar. Mas a política sem alma gera sistemas de gestão sem cuidado e a ecologia sem espírito fica cálculo de carbono sem amor. Relembremos que:

  • Um diagnóstico ambiental pode ser exato e ainda assim ignorar o grito da terra.
  • Um ritual sem análise política pode consolar, mas não transformar.
  • O entrelaçamento das dimensões é o que dá espessura à presença e à prática. Porque a prática nunca foi separada do contexto que a gera.

Qualquer prática, práxis, é a dança contínua entre teoria e prática, onde o que fazemos é enformado pelo que sabemos, e o que sabemos é transformado pelo que fazemos. Não é aplicação de ideias prontas, mas uma espiral de afinação contínua entre o mundo vivido e o mundo pensado. Na práxis, a ação é reflexiva e a reflexão é incorporada. Cada gesto carrega perguntas e cada ideia carrega consequências. No campo ontológico meta-relacional, práxis é a arte de caminhar a saber que o solo se forma sob os pés, não há método fixo, somente responsabilidade em movimento.

Ciclo de contos de Activismo Eco-Mítico

Contos da minha autoria, de trama eco-mitológicatotémica e animista, inspirado em fragmentos de contos tradicionais.

A ideia deste ciclo de contos é antiga em mim. É outra tentativa de, sem apropriação cultural de histórias que não nos pertencem, tentar transmitir conceitos, numa sintaxe popular e folclórica, que a mente moderna tem real dificuldade em habitar. Fabulando contos tradicionais contados desde outros paradigmas de parentesco e cuidado, que podem ser cultivados no húmus da nossa psique colectiva.

Estes contos foram tecidos a partir de artigos que tenho escrito ao longo dos anos, textos que trazem referências fundamentais aos conceitos e paradigmas que ancoram cada conto. E a partir de contos e lendas tradicionais, cozinhando-os com outros paradigmas.

Uma pulsante refabulação do folclore português, refutando as ontologias hierárquicas em favor de teias relacionais, desafiando as noções lineares de tempo e progresso; e reposicionando o saber como uma prática comunitária e incorporada, em vez de uma aquisição individual e abstrata. Lembramos o princípio cíclico de vida, morte e regeneração que a modernidade tentou esquecer. Este projecto faz parte da rede múltipla de experimentações do Activismo Eco-Mítico, e da rede pedagógica de (des)formações.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.